Breve carta aos meus netos. Por Roberto Lent*

Queridos netos, hoje quero lhes contar uma história diferente.

Há quase 50 anos, num dia ensolarado de agosto, com 20 anos de idade, seu avô se viu com uma pequena sacola de roupas em frente ao Arsenal de Marinha no Centro do Rio de Janeiro, sem saber como fazer para chegar em casa. Exatos dois meses antes, num final de madrugada, um pelotão de fuzileiros navais tinha invadido a casa de meus pais (seus bisavós!), onde eu morava, levando-me para uma prisão numa ilha da Baía de Guanabara, com nome poético mas um ambiente nada parecido: a Ilha das Flores. Lá permaneci preso incomunicável pelos 25 dias seguintes, e depois numa cela coletiva até completar 60 dias de prisão.

Não houve processo judicial que corresse normalmente, porque naquela época quem mandava eram os militares, e não o presidente e os parlamentares escolhidos pelo povo, ou os desembargadores avalizados pelos parlamentares para os tribunais superiores. Em minha casa, encontraram muitas armas perigosas – os livros que meus pais compravam semanalmente para a família. A biblioteca foi posta ao chão, em busca daquelas outras armas de verdade, que eles têm mas eu não tinha. Ainda conservo essa biblioteca em casa, e alguns desses livros são os que vocês folheiam com curiosidade quando vão iluminar minha casa. No ano seguinte, a biblioteca ficou sem uso porque meu pai, que era um cientista e nunca exerceu cargo político, foi demitido do Instituto Oswaldo Cruz, proibido de trabalhar em qualquer entidade pública, e assim forçado a transferir-se para o exterior para não morrer de fome. Nenhuma acusação formal foi feita: ficou por isso mesmo.

Bem, a experiência sofrida na prisão me fez conhecer a falta que faz uma palavrinha estranha que vocês ainda não aprenderam: democracia. Algo que aprendi a admirar, cultivar, respeitar, e praticar na sequência de minha vida de aluno de medicina, aprendiz de pesquisador, professor universitário, cientista e avô de vocês.. A democracia passou a ser um valor enraizado nos meus pensamentos. Compreendi-a como uma arma do cotidiano, com a qual não precisamos matar ninguém, mas sim tentar convencê-los (ou convencer-nos). Com a democracia podemos conversar abertamente com nossos amigos ou com desconhecidos, na escola, no trabalho, na rua, no restaurante. Divergir, convergir, pensar, concluir, e escolher trajetos para o nosso país.

Por que estou escrevendo tudo isso que vocês ainda não compreendem? Porque quero que leiam a minha carta quando puderem. Talvez eu já não esteja com vocês como hoje, mas quero que levem com vocês em suas vidas essas palavras meio tristes do vovô. Tristes sim, porque penso que estamos atravessando um momento muito parecido com aquele que eu vivi na juventude, e que não quero que vivam vocês na juventude que terão daqui a alguns anos.

Mas vamos direto ao ponto. Quero que saibam que, no ano de 2018 seu avô preferiu votar em Fernando Haddad do que em Jair Bolsonaro. A vida, como alguém já disse, é a ciência do necessário e a arte do possível. É necessário votar, por isso não uso o voto nulo nem o voto em branco – porque na verdade não são votos, e representam mais indiferença do que protesto: deixamos para os outros resolverem. É necessário votar no imprescindível, isto é, na democracia. E é inescapável escolher o possível, isto é o candidato que nos dê mais garantias de que a democracia será mantida e respeitada. Aquela mesma democracia que faltava quando seu avô saiu da prisão aos 20 anos, e que temos que preservar para que vocês a alcancem aos seus 20 anos.
Não posso votar em Jair Bolsonaro porque seus valores negam esses princípios de minha vida inteira. Não posso apoiar quem rejeita as minorias e os diferentes, quem desrespeita as mulheres e os negros, os homossexuais e os opositores políticos. Não consigo escolher para me governar, alguém que nos ameaça com “autogolpes”, escolas militarizadas, venda indiscriminada do patrimônio do Brasil, assassinatos e tortura, e tantos outros absurdos. Essa é a opção necessária.

Mas a democracia me dá uma única e imperdível opção possível: votar em Fernando Haddad, que se propõe a manter em funcionamento as nossas instituições, a valorizar a educação e a saúde públicas, enfim, a desenvolver o lado bom dos governos antecessores de seu partido. O lado bom, sim, porque ocorreu também um lado ruim que não podemos aceitar e temos que criticar: a corrupção institucionalizada, principalmente. Mas com toda a divergência que tenho em relação aos governos anteriores, reconheço que a democracia funcionou plenamente, e é por isso que estamos votando agora, e também por isso que lhes escrevo esta carta que já vai longa demais.

Meus queridos netos, quero que saibam que em 2018 votei pela democracia e pela liberdade de vocês, contra o autoritarismo e a militarização do Brasil. As memórias de minha vida inteira não me deixam outra alternativa: o voto contra Bolsonaro é o necessário; o voto em Haddad é o possível.

Um beijo no coração,
Vô Rob.

*Postada na página do autor no Facebook, com a mesma foto aqui utilizada. Roberto Lent é neurocientista, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro e ex-diretor do Instituto de Ciências Biomédicas (2007-2014). É membro titular da Academia Brasileira de Ciências, presidente do Conselho Deliberativo do Instituto Ciência Hoje e Coordenador da Rede Nacional de Ciência para Educação. Chefia o Laboratório de Neuroplasticidade do Instituto de Ciências Biomédicas.

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