O ovo da serpente e a eleição para Presidente

Mussolini e Hitler, histriônicos como Bolsonaro, no início também eram considerados irrelevantes, “folclóricos” e engraçados, quase que palhaços (com o perdão destes). Depois, os que não eram nazistas e fascistas passaram também a achar que eles eram a redenção da nação e que, no limite, poderiam ser controlados e moderados em seus radicalismos. Na sequência, a história se mostrou trágica.

Por Luiz Filgueiras, no blog da Boitempo

No atual processo eleitoral, há um enigma que pode ser formulado da seguinte maneira: como um militar reformado aos 32 anos, parlamentar apagado e insignificante por 30 anos, reconhecidamente truculento e tosco, moral e intelectualmente, e com sérias dificuldades cognitivas, teve 46% dos votos no primeiro turno das eleições para Presidente da República? E, mais intrigante ainda, como pessoas supostamente mais esclarecidas, com diplomas de curso superior, até mesmo alguns professores universitários, deram o seu voto a esse personagem minúsculo e grosseiro, até há pouco tempo ridicularizado, tido como “folclórico” e motivo de risos?

Para entendermos esse fenômeno se faz necessário reconhecer que determinadas circunstância históricas podem trazer à cena política personagens bizarros, que em condições “normais” jamais sairiam de sua insignificância. Foi assim com Hitler na Alemanha (um dos países mais “cultos” da Europa de então); e é exatamente assim com Jair Bolsonaro no Brasil atualmente. Mas que circunstâncias são essas, o que possibilitou que o “ovo da serpente” (o fascismo) fosse chocado, produzindo um ambiente de ódio, intolerância e violência no Brasil?

Para além da indignação contra a corrupção (sempre ela no Brasil: 1954, 1955, 1964, 1989, 1992 e agora), do moralismo (sempre falso) e do antipetismo obsessivo (“contra os petralhas!”), há uma onda fascista no mundo e no Brasil que, como sempre, se alimenta de um momento de crise (desemprego, precarização do trabalho, queda da renda e aumento da pobreza) – que penaliza a maioria da sociedade, mas especialmente os grupos e camadas médias que caem, ou estão ameaçados de cair, econômica e socialmente. É principalmente a partir desse segmento social que o fascismo vem se espalhando mundo afora.

No Brasil, essa serpente foi produzida pela confluência da crise econômica iniciada em 2015 e a atuação de três partidos políticos muito influentes na sociedade brasileira: parte do Poder Judiciário (inclusive a “Lava Jato”) e do Ministério público, a grande mídia corporativa e parte majoritária das igrejas evangélicas – que, por motivos distintos, foram a ponta de lança do Golpe parlamentar-judicial-midiático que depôs a Presidente Dilma Rousseff. Juntaram-se aí a partidarização da justiça que desmoralizou a atividade política, o parlamento e o próprio judiciário; os interesses dos grandes grupos econômicos financeirizados e o moralismo de costumes e cultural, com a instrumentalização política da corrupção e da religião.

O movimento de extrema direita que identificamos hoje no Brasil, de caráter claramente fascista, foi cevado nesse processo, dando os seus primeiros sinais nas manifestações a favor do impeachment – quando vieram à luz do dia grupos autoritários e antidemocráticos que reivindicam o retorno à Ditadura Militar e promovem um clima agressivo de raiva, ódio, medo e insegurança, tendo por alvo o “outro”: democratas, sociais-democratas, socialistas, comunistas, homossexuais (homofobia), negros e nordestinos (racismo), mulheres independentes e/ou feministas (misoginia), moradores de rua, sem tetos, sem terra etc. Esse “outro” é identificado como o culpado pelos males do país e um inimigo da família, o perigo a ser combatido – devendo ser negado liminarmente e, se possível, ser eliminado simbólica e/ou fisicamente.

São essas circunstâncias que explicam a difusão dessa “peste emocional” e o protagonismo de Jair Bolsonaro, expressão personalizada do movimento e das ideias fascistas, defendidas por ele desde sempre. Esse movimento e o seu representante maior são filhos legítimos do Golpe de 2016, conseguindo exprimir, ainda que de forma caótica, os distintos interesses subjacentes a ele. Em suma, sintetiza autoritarismo político, ultra neoliberalismo econômico, fundamentalismo religioso e valores morais conservadores e anti-iluministas. Tudo isso acompanhado por discursos e ações violentas contra o “outro”.

E por que pessoas supostamente mais esclarecidas viram no personagem grotesco um representante de sua insatisfação? A anticorrupção, o moralismo e o antipetismo, assim como preconceitos, supostas fobias e interesses econômicos, contribuem para a explicação, mas não são suficientes. Na verdade, a pergunta de fundo é a seguinte: porque essas pessoas estão dispostas a colocarem um fascista na Presidência da República, apologista de assassinatos e da tortura, contribuindo mais ainda para tornar o ambiente político irrespirável e, no limite, letal?

A resposta de fundo é uma só: essas pessoas, em sua maioria, não são fascistas ideologicamente; na verdade, elas estão profundamente indignadas com a situação do país, mas podem se tornar cúmplices porque ignoram ou desprezam duas coisas: 1) a trágica história de terror (crimes contra a humanidade) do fascismo na Alemanha, na Itália, na Espanha, em Portugal etc., bem como a história da Segunda Guerra Mundial e suas consequências dramáticas; 2) não percebem que a atual eleição não é semelhante às anteriores, nas quais se confrontaram, por diversas vezes, uma proposta socialdemocrata (PT) e uma proposta neoliberal (PSDB). O que estamos assistindo é algo muito grave, que vai além dessa disputa: é um confronto decisivo entre democracia (Estado de Direito) e ditadura, civilização e barbárie, iluminismo e ignorância; em suma, a política como arena de debate e argumentação contra a política como arena da violência.

Mas temos ainda o segundo turno das eleições, uma nova chance para barrarmos o crescimento da serpente. Tem-se que se fazer um esforço para esclarecer aquelas “pessoas mais esclarecidas” e que não são fascistas. Mussolini e Hitler, histriônicos como Bolsonaro, no início também eram considerados irrelevantes, “folclóricos” e engraçados, quase que palhaços (com o perdão destes). Depois, os que não eram nazistas e fascistas passaram também a achar que eles eram a redenção da nação e que, no limite, poderiam ser controlados e moderados em seus radicalismos. Na sequência, a história se mostrou trágica.

Luiz Filgueiras é Professor Titular da Faculdade de Economia da UFBA. Doutor em Teoria Econômica pela UNICAMP e Pós-Doutorado em Política Econômica pela Universidade Paris XIII. Autor do livro História do Plano Real: fundamentos, impactos e contradições (Boitempo, 2000/2016) e do dossiê “Brasil: que desenvolvimentismo?”, da revista Margem Esquerda n°23. Colabora com o Blog da Boitempo  especialmente para o dossiê Eleições 2018.

Foto: Miguel Schincariol/ AFP/Getty Images

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