O violoncelo . Por Célio Turino

Crônica de uma história real. Um menino das quebradas descobre na música a sua vocação. No Ponto de Cultura, aprende a dedilhar (e tirar poesia) de seu instrumento favorito. Mas a cor da epiderme dá cadeia. A solidariedade vem: a partitura viva do povo compõe a Sinfonia da Justiça…

No Outras Palavras

Justino, o filho do Justo, aquele que se apega à Justiça. Nome que veio do avô como honra ao passado e promessa de futuro. Menino nascido no Morro da Grota, um daqueles lugares que a cidade esquece como se quisesse fazer sumir da paisagem; mas que não consegue.

A cidade do Rio de Janeiro é emoldurada pelos morros.

Morros de tirarem o fôlego até encontrarem céu e mar.

Mãe lavadeira, pai ausente, o menino cresceu entre barracos e ladeiras, sempre com o ouvido atento aos sons do mundo. Numa manhã de sábado, assistiu uma apresentação musical com instrumentos e arranjos diferentes dos que estava acostumado a escutar. Era uma Orquestra Sinfônica apresentando-se na quadra da Escola de Samba.

Foi quando o destino afinou a alma dele com a música.

Na profusão de instrumentos, um, em especial, chamou a atenção do menino: o violoncelo.

Violoncelo, uma caixa de ressonância com braço e cordas a transmitir tristeza e felicidade. Corpo de madeira escura que mais parecia o corpo de uma mulher que chorava e se alegrava ao mesmo tempo. O instrumento fez com que ele se encantasse até o último acorde.

No dia seguinte o menino já dedilhava cordas de arame num instrumento improvisado em madeiras de caixa de feira. O gosto era tanto que a mãe decidiu inscrever o filho em oficinas de música que estavam a acontecer no Ponto de Cultura existente na favela.

Anos passaram-se.

Justino teve a vida guiada pelo compasso da música em sinfonia. De posse de seu violoncelo, podia ensaiar em casa todos os dias. Também fez do instrumento seu meio de trabalho, apresentando-se em escolas ou padarias, festas ou pequenos concertos. Por toda favela Justino seguia com seu violoncelo nas costas. Os ombros haviam se amoldado ao peso do instrumento. Ele atravessava becos, vielas, tomava ônibus lotado. Sempre com o instrumento nas costas. Jovem negro, favelado, carregado o violoncelo. E suportando olhares desconfiados.

Um crime no caminho

Era domingo.

O rapaz acordou cedo, como sempre.

Desceu o morro, como sempre.

Dirigia-se à padaria próxima à favela, onde iria tocar na hora do almoço.

Repertório ensaiado, camisa lavada e passada pela mãe, esperança nos olhos.

No meio do caminho houve um crime.

Não importa qual, nem quem o cometeu.

Para essa história só importa uma coisa, o violoncelista de pele negra foi o acusado. Como prova, a imagem dele identificada em um álbum de fotografias da polícia. Nada mais. Nenhuma testemunha além daquela que identificou o rosto do jovem negro no álbum da polícia.

Nenhuma arma.

Nem o resultado do roubo.

Nada mais.

Só uma prova: a cor da pele.

Identificado como criminoso, Justino foi acusado pela Justiça por assalto à mão armada. De nada adiantaram as provas de inocência, abundantes, registradas em foto e vídeo. Tampouco as declarações da dona da padaria que o contratou. Nem os depoimentos de conhecidos, da gente do Ponto de Cultura, do maestro. Nem o histórico de bom rapaz. Nada.

Nada mais contou. Nem os vídeos do público que o gravara tocando Bach na padaria. Ele já havia sido parado antes, numa dessas batidas policiais, e fora fotografado. Estava no álbum como suspeito. Uma testemunha o havia identificado. Já era o suficiente. Era negro, carregava um estojo grande nas costas, que facilmente poderia esconder uma arma, o produto do roubo.

Ao ver a foto, a vítima afirmou atordoada:

– Foi ele!

A história persistente

A história persiste.

Teima, enfrenta, afronta, condena.

Ele era negro, carregava a culpa. A juíza, olhos treinados em papéis, não quis assistir os vídeos nem escutar os sons. Conduziu-se apenas pelos autos, pelo depoimento da vítima e a acusação dos policiais. As demais testemunhas não estavam no local do acontecido. Eram só declarações. E os vídeos poderiam ter sido gravados em outra data, foi o que alegou a Justiça, desconfiada. Não importava que a arma do crime ou o fruto do roubo não tivessem sido encontrados. A epiderme foi a prova inconteste.

Condenado por semelhança em álbum de delegacia, Justino foi trancado no presídio de Benfica. Lá onde a cidade abandona aqueles que quer fazer sumir da paisagem.

O som da sinfonia foi substituído pelo som do sofrimento.

Entre grades, o jovem sentia-se só.

Mas não foi abandonado.

A Sinfonia

Como a Cultura Viva que se faz viva por todas as formas e jeitos, jovens da Orquestra da Grota, irmãos e irmãs de som e favela, vestiram suas roupas mais solenes, lavadas e perfumadas pelas mães. Foram ao presídio carregando seus instrumentos musicais como quem caminha para uma batalha.

Apresentaram suas armas:

flautas e harmônicas,

violas, violinos,

violoncelo.

Na porta do presídio, levantaram-se e afinaram os instrumentos.

E ali, tocaram. Tímidos, depois firmes.

A flauta soou como prece.

O violino, rasgou o ar como lamento.

As violas ressoaram como chamado à luta…

…até que o arco do violoncelo rompeu o muro do presídio e atravessou as grades. Lá dentro, carcereiros baixaram os olhos e os presos se colocaram em reverência.

A cidade ouviu.

Alguém gravou.

O vídeo correu.

A história circulou.

Dias depois o portão se abriu.

Lento, como se ao mundo pedisse perdão. Dele saiu Justino com o violoncelo nas costas, como escudo, como resposta. O jovem violoncelista caminhou em direção aos amigos que o esperavam. Sentou-se no asfalto, pegou o violoncelo e começou a tocar.

Pura poesia!

Partitura viva de um povo que insiste em compor a sua Sinfonia como Justiça.

Desafiaram o silêncio.

Jovens negros, pobres, favelados, desprezados.

Armados com arcos de crina de cavalo, violinos e violoncelos de pau-brasil.

Tocaram cordas pela liberdade do amigo.

Pela música ergueram-se em desassombro.

Nas portas do presídio a orquestra persistente apresentou a Sinfonia daqueles que resistem.

Arte, sons de luta e libertação mudam os destinos do mundo.

E mudaram o destino de Justino.

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