As tretas internas do PSL mostram a treta em que o Brasil se enfiou

Por João Filho, no The Intercept Brasil

Quando tem um cara muito ruim de bola na pelada, dizemos que ninguém precisa marcá-lo porque “esse a natureza marca”. Ao que parece, a oposição não terá tanto trabalho para marcar os governistas do PSL. O partido reúne todas as condições para se estrepar sozinho. Uma conversa do grupo de WhatsApp “Bancada PSL 2019″, que reúne integrantes do partido, foi vazada para O Globo e mostra que o debate interno lembra muito mais um episódio da Escolinha do Professor Raimundo do que de uma sigla que elegeu o presidente e que representará uma das maiores bancadas da Câmara.

Os celulares pegaram fogo, e o barraco varou a madrugada. Dois grandes duelos se estabeleceram. Começou com Joice Hasselmann x Major Olimpio e descambou para Joice Hasselmann x Eduardo Bolsonaro. Com muitas indiretas e intrigas infanto-juvenis, os embates se deram em torno da escolha da liderança do partido na Câmara, sempre tendo Joice como pivô.

A mulher mais votada do país está tentando impor na marra sua liderança sobre os colegas. Não é a primeira vez. Durante a campanha, Joice anunciou publicamente que seria candidata ao governo de São Paulo sem conversar com ninguém no partido. Nem o presidente estadual do PSL, Major Olimpio, foi consultado. Fulo da vida, o major chegou a gravar um vídeo dizendo que o PSL “não é a casa da Mãe Joana”. As conversas do WhatsApp mostram que o major está redondamente enganado. O PSL é a definição perfeita de Casa da Mãe Joana.

Na sua obsessiva busca por protagonismo, Joice afirmou no grupo que a articulação política do partido estava “abaixo da linha de miséria”. Apesar de ser verdade, a fala não caiu bem entre os correligionários, já que muitos ali estão diretamente envolvidos com a articulação.

Mesmo sem nem ter assumido o mandato, já dá pra saber que atropelar aliados é uma marca de Joice. Quem a acompanha nas redes sociais sabe que ela já se comporta como se fosse a principal liderança do PSL. Boa parte do dia a dia da deputada eleita é transmitido ao vivo. Joice costuma falar para seus milhares de seguidores de dentro de um carro em movimento, contando os bastidores de reuniões feitas com gente muito importante. Sempre faz questão de reforçar sua proximidade com o presidente e é pouco discreta ao falar sobre suas atividades políticas. Joice se comporta muito mais como uma youtuber caçadora de likes do que como uma liderança partidária, uma posição que requer um mínimo de sobriedade e cautela.

O Major Olimpio ficou ofendido com a crítica da companheira. Deu carteirada de veterano militar e retrucou dizendo que o Capitão Jair estava organizando a articulação junto com ele e com o Delegado Waldir. Joice então disse que não iria jogar fora o cacife que construiu “muito antes de ser candidata” e  insinuou que há “disputas de espaço pouco republicanas” na briga pelo comando da articulação.

O barraco estava armado. Os dois continuaram trocando farpas e tentavam encerrar a discussão com um “boa noite” passivo-agressivo. Mas a discussão prosseguia cada vez mais acalorada, até que Eduardo Bolsonaro, com sua autoridade hereditária, chegou com um textão para botar “ordem no galinheiro” — como afirmou um dos integrantes do grupo.

Com a sabedoria que se espera de um homem criado por Jair Bolsonaro, Eduardo tacou fogo no feno ao tentar organizar o galinheiro. Depois de chamar Joice de “sonsa” e comentar sobre sua “fama de louca”, o deputado mais votado da história do país ignorou o clima de briga e trairagem e simplesmente revelou ao grupo uma movimentação nos bastidores que seu pai gostaria de manter em segredo: “O PSL está fora das articulações? Estou fazendo o que com o líder do PR agora? Ocorre que eu não preciso e nem posso ficar falando aos quatro cantos o que ando fazendo por ordem do presidente. Se eu botar a cara publicamente, o Maia pode acelerar as pautas bombas do futuro governo”.

Rodrigo Maia deve ter ficado feliz em saber que Bolsonaro trama pelas costas. O vazamento da conversa aparece justamente no momento em que o presidente da Câmara lidera, junto com líderes de 15 partidos, a criação de um blocão para minar o poder das duas maiores bancadas da casa: PT e PSL. A intenção é enfraquecer o governo na Câmara e aumentar o poder de barganha do blocão. A realpolitik já está se impondo, mas alguns bolsonaristas ainda não saíram do modo treta.

Pensei que Joice ficaria indignada em saber que Bolsonaro fechou aliança com o PR de Valdemar da Costa Neto, condenado por corrupção ativa e lavagem de dinheiro no mensalão, mas não. Sua única preocupação era com a ameaça de perder protagonismo no PSL. Joice jogou na cara que o sucesso eleitoral de Eduardo veio por causa do sobrenome e ordenou: “ponha-se no seu lugar”.

Todos os deputados presentes na conversa ficaram do lado de Eduardo, deixando claro o isolamento de Joice. Após a publicação da conversa, a discussão continuou pelas redes sociais e imprensa. O deputado eleito Bibo Nunes, que participava do grupo, disse em entrevista para o Zero Hora que Joice “chegou ontem e já quer sentar na janelinha”, além de ser  “deslumbrada e se achar a rainha do mundo”.

O major Olimpio afirmou que não há nenhum conflito no PSL. Há apenas Joice. Insinuou que provavelmente foi ela quem vazou a conversa. A deputada respondeu xingando muito no Twitter. Insinuou que o major é quem teria vazado a conversa e o chamou de “sindicalista de quartel” e “machão de meia tijela (sic)”.

Faltando poucos dias para o início do governo Bolsonaro, o país assiste a uma briga de quinta série entre a mulher mais bem votada da história da Câmara e o senador mais bem votado do Senado.

Todos os protagonistas dessa discussão foram forjados nas tretas. Tretar é quase um cacoete para eles. Major Olimpio até pouco tempo era um deputado estadual desconhecido que ganhou os holofotes ao discutir aos berros com Geraldo Alckmin em um evento público. Joice tretou com quase todos os seus empregadores recentes, com Reinaldo Azevedo, com Alexandre Frota e se consolidou como youtuber agitando tretas e conspirações a todo momento. A atuação parlamentar de Eduardo Bolsonaro também sempre foi movida por tretas, conseguindo a proeza de arranjar uma com Junior de Sandy & Junior. Não há porque imaginar que essa turma, que não sabe fazer outra coisa a não ser buscar o conflito, se manterá unida a partir do ano que vem.

Mas a Família Bolsonaro se meteu em mais treta durante a semana. Enquanto Eduardo brigava no WhatsApp, Carlos decidiu iniciar um bate-boca com Julian Lemos, vice-presidente nacional do PSL. O vereador afirmou que Lemos “não é e nunca foi coordernador de Bolsonaro no Nordeste”, apesar de se apresentar assim. Julian Lemos, que já foi preso pela Maria da Penha e condenado por estelionato, respondeu com um vídeo no Instagram em que Jair Bolsonaro aparece afirmando que ele é o “nosso coordenador no Nordeste”. Desmascarou mais uma mentira de Carlos. Os dois continuaram discutindo no Instagram. O motivo exato da briga é desconhecido, mas deixa claro a bagunça e o amadorismo na disputa pelo poder dentro do bolsonarismo.

Mas há um lado bom para o PSL nessas brigas. Elas dividiram o noticiário com um assunto muito mais grave para o governo Bolsonaro. Nós, brasileiros, não aguentamos mais notícias sobre corrupção, mas sempre vamos adorar acompanhar um barraco. Um ex-motorista de Flávio Bolsonaro foi pego pelo Coaf movimentando R$ 1,2 milhão de forma suspeita. Ele é ex-policial militar e tinha mulher e filha também empregadas no gabinete de Flávio. O motorista, que é um amigo pessoal do presidente eleito, chegou a fazer dez saques de R$ 49 mil, o que torna tudo ainda mais suspeito, já que é uma forma comum de driblar a fiscalização. Saques acima de R$ 50 mil devem ser explicados ao banco, que repassa as informações da transação ao Coaf.  Um dos cheques teve a futura primeira-dama como favorecida. O capitão disse que o cheque era pagamento de uma dívida que o motorista tinha com ele, e justificou o depósito na conta da esposa alegando não ter tempo de ir ao banco, o que não faz o menor sentido.

O PSL é um partido de aluguel, sem nenhuma capilaridade social. Bolsonaro escolheu a sigla para abrigar sua candidatura e de toda a sua trupe de extrema-direita. É um catadão de reacionários neófitos na política e de veteranos do baixo clero. As brigas internas revelam não apenas disputas de poder, mas o DNA dos seus integrantes, que cresceram na política movidos por moralismos de quermesse. Nunca prestaram serviços relevantes ao país, nunca foram propositivos e só construíram fama turbinados por um antipetismo obsessivo que caiu nas graças de parte considerável da população. Caíram de paraquedas no centro do poder político e tudo leva a crer que irão mais atrapalhar do que ajudar o presidente eleito.

Cansado dos partidos tradicionais, o Brasil entregou a maior fatia do poder para um não-partido que nada tem a oferecer ao país. A máxima de Tiririca, “pior que tá não fica”, foi a maior fake news na qual caiu boa parte dos brasileiros. É claro que fica.

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