Pais reclamam e escola tira livro do deputado Chico Alencar sobre Natal e solidariedade da lista de material

Em nota enviada aos responsáveis pelas crianças do 4° ano, o colégio Le Petit Galois se dispôs a reembolsar os valores pagos pela obra

Por Suzano Almeida, no Metrópoles

A inclusão – e posterior exclusão – de um livro infantil da lista de material escolar dos alunos do 4º ano do colégio Le Petit Galois causou divergências entre os pais de alunos da instituição nesta sexta-feira (21/12). A obra A Semente do Nicolau – Um Conto de Natal foi retirada do conjunto didático depois de responsáveis pelas crianças perceberem que o autor da obra era o deputado federal Chico Alencar (PSol-RJ).

A obra, lançada há mais de 20 anos, fala sobre valores referentes ao Natal e à relação entre idosos e crianças, além de ressaltar a solidariedade entre as pessoas. A história já foi adaptada para peças teatrais e produções televisivas.

“Quando os pais perceberam que a lista incluía um livro cujo autor é do PSol, começaram a mandar e-mails e até irem à escola para reclamar e saber quais os motivos que levaram o colégio a incluí-lo na lista de material. O Galois decidiu manter a obra na lista, mas, depois, com a pressão, mudaram de ideia e disseram que havia ocorrido um equívoco”, contou um pai de aluno, que preferiu não se identificar por medo de represália.

Uma mãe que discorda da medida e reclamou da postura do colégio lamentou: “Isso demonstra a que ponto chega a falta de diálogo e a visão de mundo das pessoas. Não há fundamento por parte da escola para a retirada do livro da lista”.

De acordo com a Circular n° 018/2018, distribuída pelo Le Petit Galois aos pais por meio eletrônico, o livro “não faz parte da lista de material do 4º ano” e, caso os responsáveis pelas crianças não conseguissem fazer a devolução da obra aos estabelecimentos onde foram adquiridos, a própria escola faria o ressarcimento dos valores pagos. Na internet, o livro é vendido por pouco mais de R$ 30.

O que diz o deputado

O autor da obra lamentou a decisão do Le Petit Galois. O deputado Chico Alencar acredita que os pais não leram o livro. Ele lembrou ainda ter passado por episódio de censura semelhante com outro trabalho, no tempo da ditadura militar.

“Eles agiram mais em razão de quem é o autor do que da obra em si. Se eles não leram, estão em um caminho equivocado. Trago a lenda do Papai Noel e mostro a relação entre as crianças e o idoso. E trabalho com um fundamento essencial do Natal: a solidariedade. É espantoso que pais tomem essa atitude, por serem pessoas possivelmente com nível superior e de bom poder aquisitivo, até pelo fato de matricularem seus filhos em uma escola tão cara”, disse Chico Alencar ao Metrópoles.

Ao longo desta sexta (21), a reportagem procurou tanto a direção quanto a assessoria de imprensa do Le Petit Galois em diversas ocasiões. A coordenadora, identificada apenas como Alessandra, disse que não poderia falar porque estava embarcando em um avião. Até a última atualização deste texto, a assessoria da instituição não havia retornado os contatos.

Escola sem partido


O episódio ocorre em um momento no qual o Congresso Nacional debate o projeto de lei conhecido como Escola sem Partido. A proposta tenta evitar que professores usem o espaço da sala de aula para doutrinar estudantes. Um dos pontos controversos, no entanto, é que não está claro o que poderia ser enquadrado nesse conceito.

A matéria tem sido alvo de acaloradas discussões. O fundador do movimento Escola sem Partido, o procurador de Justiça de São Paulo Miguel Nagib, foi à Câmara dos Deputados em 6 de dezembro pedir que o relator do projeto de lei que recebeu o mesmo nome, deputado Flavinho (PSC-SP), retire do texto a proibição para tratar de questões de gênero nas escolas.

Para Nagib, a ciência tem que ser prioridade na sala de aula e os assuntos devem se tratados dos mais diversos ângulos. “Onde houver mais de um ponto de vista relevante, contemplado pela bibliografia, o aluno tem direito de saber. Não é justo professor suprimir, omitir do estudante, uma perspectiva que tem peso.”

Na Câmara Legislativa, também tramita uma versão do Escola sem Partido, apresentada em 2015. Por lá, os embates são quentes. A apresentação do projeto de lei que institui o Escola sem Censura no Distrito Federal causou discussões acaloradas entre deputados distritais em 20 de novembro deste ano.

De autoria do deputado Chico Vigilante (PT), a matéria é um contraponto ao Escola sem Partido, em tramitação na Comissão de Educação, Saúde e Cultura.

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