Licença para envenenar. Por Janio de Freitas

No Congresso já houve CPI dos agrotóxicos; todos acharam melhor seguir ‘o curso normal’

Na Folha

Jair Bolsonaro está preocupado. Com a banana.

Não a que lhe dão. A que representa uma incógnita nas suas reflexões sobre o que vê como um ataque externo ao Brasil. Em síntese: “Não consigo entender como uma banana do Equador viaja 10 mil quilômetros até a Ceagesp [mercadão paulista] e compete no preço com a banana do Vale do Ribeira” –por coincidência, a do seu sobrinho produtor. A reflexão não alcançou deduzir que produtores e exportadores equatorianos, somados, são menos gananciosos do que o parente bananeiro, tal como os outros produtores na região onde os Bolsonaros têm muitas empresas.

O Brasil vai reagir. Na mesma aparição bananosa em rede social, Bolsonaro prometeu ao sobrinho e amigos “acabar com o fantasma” de bom preço (e melhor qualidade) dos equatorianos. Decidido e rápido, assim é um presidente preocupado com os grandes problemas do país. E da família. A sua, bem entendido. Não faz diferença se a importação do “fantasma” é insignificante, nem R$ 300 mil neste ano. Para o serviço completo, porém, o parente e amigos querem também a garantia da liberdade de pulverização das suas plantações com agrotóxico. Uma prática que distingue o Brasil no mundo.

O Conselho de Pesquisa Científica da ONU denunciou o agrotóxico glifosato, na semana passada, como potencial causador de câncer. A França estabeleceu, há pouco, duras restrições a determinados agrotóxicos. Nos Estados Unidos, além das limitações de uso, está proibida a pulverização aérea. A União Europeia proibiu o uso do agrotóxico atrazina e, já numerosos agrotóxicos com restrições, seguem-se com outros. Todos eles, e muitos outros, por ameaça ao consumidor e envenenamento do meio ambiente. Esses agrotóxicos estão, porém, nos pratos e marmitas do almoço e do jantar brasileiros, no café da manhã e no lanche, em doces e guloseimas. E no ar.

Em apenas dois anos, 2017-18, o governo Temer concedeu 855 novas licenças para produção de agrotóxicos. Recorde absoluto no Brasil e provavelmente no mundo. O número mais alto, desde os 91 do governo Lula em 2005, fora 277, com quatro e meio meses de Dilma e sete e meio de Temer em 2016.

Ninguém há de supor interesse do país, como tantas licenças, em se tornar um caso especial de incidência de câncer e outros males. Logo, nada justifica tamanha aceleração dos licenciamentos durante o governo que teve, com grande influência, especialistas como Geddel Vieira Lima, Moreira Franco e o próprio Temer, entre outros; no Congresso, craques como Eduardo Cunha, neste mínimo de exemplos.

No Congresso já houve CPI sobre agrotóxicos. A Polícia Federal já ciscou por aí várias vezes. Os procuradores da República e procuradores estaduais também estiveram interessados no tema, uma ou outra vez. Todos –com raríssimas exceções individuais– acharam melhor, como se estivessem lidando com empreiteiras, deixar as coisas seguirem “o curso normal”.

Eles continuam achando, elas continuam seguindo. E nós continuamos pagando, que afinal tudo é à nossa custa, e continuamos pegando, seja qual for o mal que o crime da toxicidade ponha em nossos pratos.

No ritmo em que vai, o governo que veio para moralizar ultrapassará a marca de Temer: nos 42 dias úteis de janeiro e fevereiro, concedeu 74 novas licenças de agrotóxicos. Mais de 4 por hora de expediente.

Foto: Eduardo Tavares / De Olho nos Ruralistas

Deixe uma resposta

O comentário deve ter seu nome e sobrenome. O e-mail é necessário, mas não será publicado.

dezesseis + 7 =