Num quilombo em pleno Rio, mulheres formam rede de apoio e sonham em voltar a plantar

“É preciso sair dessa situação de pobreza”, diz moradora que aprendeu a fazer mistura nutricional para combater a fome

Por Angelina Nunes, Agência Pública

O olho esquerdo de Jorgina Ferreira Vieira tem cor cinza opaca. Ela conta que perdeu “a vista num galho de árvore” para depois acrescentar, meio sem jeito, que, “na verdade”, o pai de seus 11 filhos lhe deu uma surra dentro de casa e ela levou uma pancada muito forte do mesmo lado do olho machucado. Ele sumiu no mundo.

Com a cegueira do olho vieram as dores de cabeça que não passam. Mesmo assim ela levanta todo dia atrás de uma ocupação para ganhar o sustento da família. Aos 46 anos, avó de um neto, mora numa casa no meio da mata do Parque Estadual da Pedra Branca, na área do Quilombo Cafundá Astrogilda, em Vargem Grande, bairro na zona oeste do Rio.

A palavra fome não é pronunciada. Ela repete que “passou necessidade” e teve uma “vida apertada com muitas dificuldades”. E usa o verbo no passado para apagar os tempos em que, na falta do leite, ela colocava na mamadeira dos pequenos um pouco de água com açúcar ou, nos melhores dias, água do aipim cozido – esse era destinado aos maiores. Ela perdeu a conta de quantas vezes deixou de comer para dar aos filhos: “E se precisar hoje, deixo de novo”.

Os dias difíceis eram uma repetição de sua infância ao lado de 12 irmãos e um pai alcoólatra que ficava na farra e deixava sua mãe com a filharada para alimentar. Sem dinheiro, buscavam na roça o mamão verde para fazer picadinho, a banana para fritar ou cozinhar. As verduras que plantavam substituíam a carne, um luxo ausente dos pratos.

Naquela época, a agricultura familiar ajudou muitos moradores do quilombo a driblar a fome. Distante 95 quilômetros de Japeri, na Baixada Fluminense, o parque é uma unidade de conservação ambiental considerada uma das maiores florestas urbanas do mundo, com 12.500 hectares, entre bairros famosos como Jacarepaguá, Bangu e Barra da Tijuca.

Para chegar até a casa de Jorgina é preciso vencer 45 minutos de uma subida íngreme da trilha de terra, buraco e pedras por onde não passa carro. O vai e vem de moradores, às vezes, é interrompido por cavalos. Andar com facão na mão é um costume local. Um senhor explica que serve para espantar os bichinhos que podem aparecer por ali. E sai rindo.

“Lutadeira”
Jorgina vive no alto de um morro onde se escuta o som de galo cantando, de passarinhos e de uma queda-d’água. É ali, passando por cima de pedras, que se tem acesso ao que ela chama de “meu barraco”. Dos quatro cômodos, dois são de tijolos e os outros, de madeira compensada. Todos pintados na cor verde-clara.

Na rede de solidariedade em que ela vive, o pastor Paulinho ajudou a levantar a casa, uma igreja católica dava uma cesta básica, e de outros ela recebia roupas. “Tenho muito que agradecer. Muitos me ajudaram, cumadi”. E ela se desculpa, rindo, pela intimidade repentina: “Desculpa, chamo todo mundo de cumadi”.

Ela lembra que, antes da casa de madeira, teve uma de pano por seis meses, pelo menos. A tal casa era um improviso de algumas madeiras cobertas com pedaços de tecido. Quando chovia, as goteiras impediam o sono de sua família.

Hoje, os filhos estão trabalhando ou estudando, menos um que deixou a escola e, por causa disso, ela perdeu o benefício da Bolsa Família. Segundo as regras do programa, se um dos filhos fica longe da sala de aula, a família é excluída do benefício. Para ingressar mais uma vez, ela deverá fazer um novo cadastro dos filhos menores.

No momento, Jorgina está trabalhando como diarista – ou o que aparecer –para ganhar uns trocados. A antiga patroa, segundo ela, também está desempregada. A distância que separa sua casa das ruas de Vargem Grande é vencida a pé, carregando sacolas, ou mesmo um botijão de gás. Jorgina pontua suas frases com sorriso, diz que hoje sua vida está melhor que na infância e se define como uma “lutadeira”.

No quintal, um pequeno espaço abriga couve, uma bananeira e um pé de goiaba. Ela se queixa da falta de terra para fazer uma horta. Lembra que, na infância, os pais e avós buscavam na terra parte do sustento. Assim como os vizinhos, os parentes, os remanescentes dos primeiros quilombolas. Cuidar da terra fazia parte da vida diária de quem morava longe do asfalto. No meio da mata, grande parte do alimento vinha do que se plantava. O aipim, que alimentava os filhos na infância, não é mais cultivado. Hoje, o tempo é dividido em subir e descer a estrada para buscar em bairros próximos um trabalho temporário, “qualquer bico” que renda dinheiro para comprar o que puder para colocar na panela.

A horta foi também, no passado, a saída para a família de Mônica Oliveira da Silva, de 43 anos. Ao lado dos sete irmãos, ela passou a infância cozinhando banana, aipim, verduras e legumes que eram plantados na roça no quintal. A mãe, analfabeta, ficava em casa com os oito filhos e o pai nem sempre aparecia porque “bebia muito”.

Quando engravidou aos 21 anos, ela saiu de casa e foi buscar seu sustento. Lembra que passou fome para dar alguma coisa para os filhos comerem: “Um tempo difícil: faltar as coisas em casa, querer comer e não ter”. Hoje, tem cinco filhos, cada um de um pai, sendo que dois deles já morreram. Um pai ajuda com cesta básica; o outro brigou por um exame de DNA e, como resultado, está pagando pensão para a filha. O quinto não a procura.

A roça plantada na infância não se repete hoje. Ela diz que os bichos comem tudo e “os pessoal arranca o que foi plantado”. Com isso, aproveita o trabalho de diarista e leva os menores com ela para evitar que fiquem sozinhos em casa. Ali, eles comem. Ela diz com orgulho que seus filhos não pedem nada na rua.

A casa ainda está em processo de construção. Antes era só um quarto e um banheiro, hoje são quatro cômodos e uma varanda. Um dos filhos dorme na cozinha onde tem um fogão a gás. A dificuldade na entrega do botijão fez com que ela construísse um forno a lenha na varanda. Para ter o que comer, recorre também à cesta básica da igreja católica, onde faz catequese. No prato, arroz, feijão, ovo e, às vezes, carne. E ela sonha com um futuro melhor para seus filhos, já que seu pai a tirou das salas de aula no terceiro ano do primário.

A escola e suas lições
Os filhos de Mônica frequentam a escola do Quilombo Cafundá Astrogilda, onde têm reforço escolar, aulas de artesanato e de esporte. Os professores são voluntários. Há também uma biblioteca feita com doações, assim como um bazar de roupas, sapatos e acessórios com preços de R$ 1 a R$ 5.

A escola foi criada em junho de 2018 e é um projeto de Maria Lúcia Mesquita Martins, 56 anos, filha de Natalina e neta de Astrogilda da Rosa Ferreira Mesquita, escrava liberta que, na segunda metade do século 19, buscou abrigo nas matas ao lado do marido, Celso dos Santos Mesquita.

Astrogilda era uma das parteiras do lugar e também atuava como rezadeira. Ela e o marido mantinham, nos anos de 1920, um pequeno centro de umbanda, que não funciona mais. O quilombo, que foi certificado em 2013 pela Fundação Palmares, ligada ao governo federal, fica no maciço da Pedra Branca, na vertente do bairro carioca de Vargem Grande.

A escola fica ao lado do bar e restaurante Tô na Boa, que funciona há seis anos e que tem no comando Gisele Mesquita Martins, filha de Maria Lúcia e bisneta de Astrogilda. Ela, aos 33 anos e com quatro filhos, sendo dois adotados, também integra essa rede de solidariedade do quilombo.

Da infância, lembra que a comida tinha relação com o que era plantado na roça. No prato estavam a sopa de banana, a bertalha, o picadinho de mamão verde. “Minha avó plantava. Hoje, mudou tudo e as pessoas esqueceram a importância da roça. A vida era apertada, mas tinha verdura.”

Gisele emprega hoje jovens e adolescentes da região. “Eu vejo que a gente dá oportunidade. Não quero ver a garotada se perder porque não teve chance. Entre as 23 pessoas que trabalham na cozinha, no atendimento, na entrega, 90% são pessoas da comunidade”, diz Gisele, que estudou psicologia, mas preferiu migrar para o curso de gastronomia.

O caminho pela educação é o projeto de vida de Maria Lúcia, que aprendeu a ler em casa, com a mãe, dona Natalina.

“A gente quer abrir uma biblioteca pública para que as pessoas leiam livros. As crianças recebem reforço escolar no que estão mais fracas na escola. Mas eu percebo que o problema principal é a alfabetização”, diz Maria Lúcia. Ela percorre toda a comunidade, que tem cerca 3 mil moradores descendentes de quilombolas. Já trabalhou na Pastoral da Criança, onde aprendeu a fazer a multimistura, um complemento alimentar que ela distribui gratuitamente, depois que saiu da pastoral e foi fazer trabalho comunitário.

Para fazer a multimistura são necessárias a casca de ovo e a folha de aipim, que são colocados para secar e assados. Depois, junta-se o farelo de trigo e passa no liquidificador para virar um pó. “A multimistura pode ser colocada na comida ou no leite. Também misturamos, às vezes, com o leite em pó e distribuímos para a mãe fazer o mingau do filho.”

Os descendentes de Astrogilda lutam pelo resgate da identidade, da cultura. “A gente precisa preservar nossa história. Eu falo pras minhas netas: vamos plantar, fazer um artesanato. É preciso sair dessa situação de pobreza. Às vezes, uma horta ajuda muito. As crianças precisam voltar a ter contato com a natureza”, diz Maria Lúcia.

Imagem: Jorgina Ferreira Vieira: na falta de leite para mamadeira, ela colocava água de aipim cozido para alimentar os filhos menores – Ana Lúcia Araújo/Agência Pública

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