Dirce Lipu Pereira: a pajé Kaingang que voltou a cantar

Kujan da aldeia Vanuíre, em Arco-Íris (SP), ela conta que era proibida pela mãe de entoar melodias em seu idioma, por medo de que os brancos a matassem, como fez a marcha do café com outros integrantes da etnia

Por Julia Dolce, em De Olho nos Ruralistas

Pajé de etnia Kaingang da Terra Indígena Vanuíre, localizada em Arco-Íris (SP), Dirce Jorge Lipu Pereira ouviu da mãe, durante toda a infância, que não podia cantar. Jandira Umbelino, de quem herdou a pajelança, tinha medo que os brancos ouvissem suas filhas e filhos cantarem na língua indígena e os matassem, como fizeram, décadas atrás, com tantos outros Kaingang. No caso de Dirce, os avisos soavam como castigo. Ela insistia em ouvir as melodias na voz da mãe e, depois de prometer que não cantaria em público, somava sua voz às letras no idioma originário.

“Minha mãe foi um livro para mim”, conta Dirce, única dos irmãos que seguiu o legado da mãe, mesmo não podendo aprender todo o idioma. “Enquanto ela viveu, fiquei ao lado dela aprendendo tudo o que sabia, do canto à culinária. A gente já nasce Kujan (versão feminina do Pajé), somos escolhidas. Nascemos com uma força e ninguém segura, então quando criança eu já sabia que queria fazer tudo o que minha mãe fez e mais”.

Jandira passou décadas escondendo sua cultura, com medo dos não-indígenas. Ela enrolava seus artesanatos, vestimentas, colares e cocares dentro de vários panos e os guardava. Em 2016, conta Dirce, a mãe se tornou encantada, deixando o mundo dos vivos. Desde então, ela assumiu a pajelança.

MOSTRA TEVE INDÍGENAS NA CURADORIA

Na sexta-feira (15), parte desses objetos foi exposta no Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (USP), na zona oeste da capital paulista, com a abertura da mostra “Resistência Já! Fortalecimento e União das Culturas Indígenas – Kaingang, Guarani Nhandewa e Terena

Na exposição estiveram presentes 14 indígenas da aldeia Vanuíre e mais um ônibus com indígenas Kaingang da Aldeia Icatu, localizada em Braúna (SP). Montada ao longo dos últimos dois anos com a participação direta das lideranças indígenas na curadoria, a mostra tem como objetivo atender reivindicações desses grupos.

Entre as demandas está justamente o direito de falarem por si, além da busca por um retorno sobre as coletas antropológicas que, por décadas, levaram os pertences de seus ancestrais. Por fim, os indígenas pretendem, com a mostra, falar sobre quem são na atualidade.

O movimento de resgate da cultura Kaingang no interior paulista já vinha acontecendo há duas décadas, como explica Susilene Elias de Mello, filha mais nova de Dirce. “Estamos há 22 anos com um trabalho de resgate de uma cultura que ficou adormecida por décadas”, relata. “Ensinamos nossa cultura no dia-a-dia, aos poucos. Os mais antigos da aldeia eram muito reprimidos e tinham medo de preservar a cultura e ser mortos”.

ALDEIAS ERAM ALVO DE CHACINAS

Ela considera a exposição um presente para seus antepassados. Com o tempo, permaneceram apenas a tradição de plantação de mandioca e milho roxo e a da confecção de artesanato. No início do século 20, a população Kaingang do interior paulista foi duramente reprimida, como consequência cruel da marcha do café para o oeste do estado. Na época, havia chacinas constantes de aldeias inteiras, e a etnia Kaingang foi difamada na mídia, retratada como selvagem e violenta.

A época imortalizou a indígena Vanuíre, que hoje nomeia a aldeia de Susilene e Dirce. Escravizada, a indígena paranaense foi levada à região para mostrar a localização das aldeias Kaingang. Utilizada com intérprete, diz a lenda que Vanuíre subia em um jequitibá de dez metros de altura, da onde entoava cânticos nos quais pedia para os Kaingang não resistirem mais, porque não conseguiriam sobreviver às armas de fogo. A líder, cuja história também inspirou a criação de um museu em Icatu, ficou conhecida como “pacificadora”. A imagem, no entanto, é rejeitada por Dirce: “Foi uma grande guerreira escravizada, conquistou a demarcação de nossa reserva”.

Vanuíre faleceu em 1918, data que marca o processo de demarcação das TIs Kaingang no interior do estado. Após cem anos completados desde o processo, e com a abertura da exposição na USP, a kujan de 57 anos conta que sente um misto de alegria e tristeza:

– O débito com nós, indígenas, é muito grande, e só aumenta. Abrimos o jornal e vemos notícias que mostram a mortalidade dos nossos parentes indígenas de outros estados. Um desrespeito muito grande com a natureza. Povos sofrendo para conquistar a demarcação. Nunca deixaram de nos perseguir e esse governo nos dá mais medo.

Com 290 alqueires demarcados para uma população de 280 indígenas, a TI Vanuíre não tem sofrido ameaças territoriais. A aldeia fica a 11 quilômetros da cidade mais próxima, mas por conta do processo de arrendamento de terras permitido antigamente pela Fundação Nacional do Índio ela só possui hoje 40 alqueires (em São Paulo, 96 hectares) de mata preservada, e um córrego.

RELIGIOSA VÊ EVANGÉLICOS COMO AMEAÇA

Para Susilene, porém, a maior ameaça à sua aldeia está no campo cultural, representada pela igreja evangélica Congregação Cristã no Brasil:

– Se antes nos matavam com tiro, hoje nos matam com a bíblia debaixo do braço. Os evangélicos estão dentro de nossas aldeias e de todas as outras no país, acabando com nossos costumes. Não deixam os indígenas andarem com colares, com cocar, não deixam a kujan fumar suas ervas. Eles entram com cestas básicas, roupas, pagando a energia elétrica. É uma suposta caridade, mas com o objetivo de acabar com a nossa cultura. Não nos deixam respirar.

Ela destaca que o movimento evangelizador teve início simultâneo ao movimento de resgate da cultura protagonizado por sua família. 

Entre as cenas mais revoltantes que já presenciou está o batizado de indígenas idosos. “Enfiam uma idosa de 90 anos na água e dizem: ‘agora você está salva’”, relata. “Para mim, isso sim é um pecado”.

Dirce lembra que os missionários evangélicos chegaram a atirar pedras na casa de sua mãe. “Antes ela era muito respeitada, mas nós, kujans, somos mais reprimidas, ela sofreu muito e acabou me protegendo bastante, tinha medo de me revelar e mostrar minha força”.

Mesmo sofrendo com olhares tortos dos indígenas evangelizados, Dirce continua seu trabalho de defesa da tradição Kaingang. “A cultura tem que ser completa, e não pela metade”.

MUSEU DO SOL NASCENTE PRESERVA CULTURA

Com a mãe Jandira, a atual kujan da TI Vanuíre aprendeu a realizar partos, a curar crianças e a fazer rituais. Hoje Dirce protagoniza, nas noites de lua cheia, as chamadas “noites culturais”, onde canta, dança e conta histórias antigas, buscando transmitir para as crianças da aldeia os conhecimentos ancestrais. No entanto, com o processo de evangelização, apenas seis crianças são acompanhadas atualmente pela kujan. “É gratificante cuidar da saúde das crianças, eu mesma faço os remédios, com o que pegamos da natureza, e nem preciso ocupar o postinho de saúde da aldeia”.

Uma das estratégias encontradas pelas mulheres da família de Dirce para preservar a cultura Kaingang foi a criação do museu Wowkrig (sol nascente), dentro da reserva indígena. O museu foi fundado para guardar os pertences de Jandira, após seu falecimento. “É a nossa fortaleza e foi nossa entrada para chegar ao caminho dos museus”, completa Dirce, destacando que a liderança feminina sempre foi marcante entre os Kaingang. “Nós tomamos à frente, porque se fôssemos esperar os índios Kaingang, nossa cultura ainda estaria adormecida”.

Dirce conta ainda que, quando jovem, já alertava a mãe para a necessidade de preservação da cultura. “Dizia que as coisas já haviam mudado, não eram mais como antes, agora existem pessoas não-índias a favor dos indígenas”. O legado e a pajelança da kujan já estão garantidos por Susilene e sua irmã mais velha: com a abertura da exposição na Cidade Universitária, Dirce cantou, desta vez junto das próprias filhas, sem medo de ser interrompida.

Serviço:
A visitação da exposição “Resistência Já! Fortalecimento e união das culturas indígenas” ficará aberta ao público às segundas, quartas, quintas e sextas, das 9h às 17h e aos sábados, das 10h às 16h. Entrada franca.
Museu de Arqueologia e Etnologia da USP
Avenida Professor Almeida Prado, 1466
Cidade Universitária – Butantã
São Paulo / SP
Telefone: (11) 3091-4905
Fonte: Museu de Arqueologia e Etnologia

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