A fome que come

Acompanhamos famílias em São Paulo e Rio de Janeiro vítimas, sem saber, de um problema que atinge milhões de pessoas: a fome oculta, caracterizada por sintomas relacionados à falta de nutrientes

Por Chico Felitti, na Pública

Mary Marques Menezes não passou um dia de fome nos seus 58 anos de vida. Mas faz quatro décadas que essa artista, que ganha a vida vendendo artesanato e cantando em ruas do centro de São Paulo, sofre com sintomas relacionados à falta de nutrientes.

“Eu fico branca”, diz Mary, enquanto mostra as costas da mão. “Quando eu tenho anemia, fico quase transparente, de tão branca.” E ela teve anemia mais vezes do que pode contar nos dedos, cobertos por base transparente. Exames de sangue recentes feitos pela musicista mostram que ela está com falta de vitamina A, vitamina B e vitamina D no sangue, além de o nível de ferro estar levemente abaixo do valor ideal.

“Eu não passo fome. Nunca senti o que é a fome.” Até porque o dia dela se divide em três refeições. Em uma quinta-feira de janeiro, ela acorda e come pão com margarina e café com leite adoçado no boteco que fica na esquina do seu prédio. Mary mora em um prédio ocupado na rua Benjamin Constant. Paga R$ 250 por um quarto. Depois de quatro horas trabalhando, almoça um croissant de queijo com suco solúvel de laranja, vendido por R$ 1 em uma barraca de churrasco grego. No fim da tarde, quando completa oito horas tocando músicas como “Chorando se Foi” e “Chico Mineiro” no calçadão do centro, ela paga R$ 10 em uma marmita de carne cozida, arroz, feijão e batatas. Leva a quentinha para casa, na esperança de que ela renda o suficiente para o jantar daquele dia e o almoço do dia seguinte.

A fome não tem uma fronteira definida. Mesmo que a energia que o corpo gaste seja reposta com calorias suficientes, e o estômago esteja saciado, o corpo pode não estar recebendo todos os nutrientes de que precisa.

Nutricionistas e órgãos como a Organização das Nações Unidas (ONU) adotaram um nome para abarcar essa deficiência crônica de vitaminas e de minerais, que hoje é tratada como questão de saúde pública mundial: é a fome oculta.

Yakissoba

A fome oculta não é uma sensação. É um mal a longo prazo que tende a se manifestar como problemas de saúde, e não como um estômago roncando.

Na casa da família Brasil, no baixo da Favela Nova Brasília, que faz parte do Complexo do Alemão, a fome oculta deixou de ser oculta em dezembro passado. A atendente de telemarketing Sílvia Brasil, descobriu que estava com anemia moderada depois de passar por um exame médico admissional. O médico da empresa em que ela ia trabalhar olhou para ela, pediu para ver a cor da sua gengiva e da membrana dos olhos. “Ele disse que eu podia trabalhar, mas que era bom ver um médico, fazer exame. Aproveitei pra ver o que era essa canseira que não passava fazia mais de ano.”

A segunda médica que a atendeu, na rede pública de saúde, pediu um exame de sangue. E recomendou que todas as pessoas da família também fizessem. São três os moradores da casa de três cômodos: Sílvia compartilha uma cama de casal com sua mãe, que se aposentou no ano passado, e na sala dorme seu filho, que tem 13 anos e está no quarto ano do ensino fundamental. Duas semanas depois, saíram os resultados: a avó, a mãe e o adolescente estavam com anemia.

Havia também três gerações de deficiência de vitamina A na casa dos Brasil, que tiveram seu nome e sobrenome alterados a pedido para aparecer nesta matéria. As duas mulheres estavam com os ossos debilitados pela deficiência de cálcio. Sílvia tem 43 anos e sua mãe, Ana, 59.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que uma em cada quatro pessoas no mundo passe fome oculta. Sua manifestação mais clara é a anemia, ou falta de ferro. Uma das mazelas mais comuns do mundo, a anemia assola 1,6 bilhão de pessoas, registrou a OMS em 2008, na última pesquisa global sobre a doença.

E assolava a casa dos Brasil sem eles saberem. Sílvia diz que saiu do médico às lágrimas, se sentindo “um lixo”. “Eu nunca achei que fosse tão pobre. Eu saí de lá achando que era uma mãe ruim. Deu raiva. Deu vergonha.” Ela foi encaminhada para um serviço de nutrição da rede pública.

Chegando à consulta, ela contou que o cardápio na sua casa era curto. Por uma questão de rapidez e de economia, na maioria dos dias os três integrantes da família Brasil comem yakissoba no jantar. A receita é diferente do macarrão japonês vendido na rua. Na casa dos Brasil, yakissoba é qualquer comida coberta por Miojo. “Esse hambúrguer sobrou de terça”, diz Ana, na sexta. Ela desfaz a carne dos discos com um garfo, mistura no macarrão e coloca o yakissoba no microondas por dois minutos. E o jantar está servido.

Era a segunda vez em meses que ela tinha de explicar o que era yakissoba na sua casa, e a importância dele na dieta da família. A casa de tijolos aparentes da família Brasil foi uma das visitadas pelos pesquisadores do IBGE durante a coleta de dados para a Pesquisa de Orçamentos Familiares, realizada entre 2017 e 2018.

De tablet na mão, o funcionário público pediu que Sílvia preenchesse um diário com tudo o que comia em um dia. Depois teria um dia de descanso e anotaria de novo tudo o que comeria no terceiro dia. Sílvia cumpriu a tarefa. Devolveu o documento preenchido. O pesquisador olhou para as comidas que ela havia anotado e perguntou se o diário alimentar estava mesmo correto. “Teve um dia que eu disse que só comi yakissoba, pão e café. E ele veio perguntar se eu tinha anotado certo.”

Ná página 287 do manual distribuído aos pesquisadores de campo do IBGE, está a explicação do constrangimento. Se o entrevistado disser que comeu menos de cinco itens diferentes em um dia, a recomendação é que o pesquisador “faça uma pequena revisão, com o informante, das anotações feitas para o referido dia”. Segundo o manual, “provavelmente, ele [o entrevistado] pode ter esquecido de registrar um ou mais itens de seu consumo do dia ou mesmo uma refeição inteira”.

Sílvia não tinha esquecido. Só tinha passado os últimos dias comendo a receita de yakissoba da sua família, com milho em lata e salsicha. O dinheiro havia acabado mais cedo naquele mês. Por causa de um presente de Natal adiantado. Sílvia, que passou 2018 sem emprego formal anotado na carteira, teve de usar quase um quarto do seu primeiro salário para comprar o presente do filho: o par de chuteiras roxas de futebol de salão da Nike custou R$ 229 no site MercadoLivre. “Eu sempre soube que ele queria. Antes, custava mais de R$ 400, daí a prima dele encontrou por duzentos e pouco na internet. E eu comprei.” Naquele mês, ela diz, houve uma semana a mais de yakissoba. Não havia mais nada na despensa, porque era fim do mês e ela só receberia seu salário no dia 5.

A realidade da família Brasil será uma parcela do panorama da Pesquisa de Orçamentos Familiares, cujos primeiros resultados o IBGE deve divulgar em maio de 2019. E que deve mostrar a volta do Brasil aos rankings da fome.

O custo oculto da fome

“Se você perguntar para uma pessoa se ela tem fome oculta, nunca vai dizer que tem”, diz Mauro Fisberg, pediatra e nutrólogo que dá aula na Escola Paulista de Medicina. O diagnóstico pode ser nutricional, avaliando o consumo alimentar, como fez a pesquisa do IBGE, ou clínico, com exames que demonstrem a falta de micronutrientes ou doenças que tenham sido causadas por essa deficiência.

É por isso que o termo “fome oculta” é contestado por uma vertente de médicos e de nutricionistas, que não consideram a falta de nutrientes “fome”, já que muitas vezes a pessoa tem alimento suficiente para não sentir falta de comida, tampouco “oculta”, já que algumas das deficiências podem ser diagnosticadas com exames baratos e disseminados.

Mas o termo é usado por grande parte da comunidade científica, pois alterações nas reservas de vitaminas e de minerais podem ser ocultas até chegar a deficiências que só aparecem em exames complicados e caros, ou que se manifestem clinicamente. Quando a falta de vitamina já virou doença. “O fato de não ter sinal não significa que a doença não exista. A deficiência de vitamina D, por exemplo, não tem nenhum sinal. As alterações fisiológicas podem ser mínimas e portanto difíceis de serem percebidas em exame clínico de rotina”, diz Fisberg.

Já foi provado que deficiência de vitamina D aumenta o risco de morte por doenças cardiovasculares, pode ampliar a chance de cânceres e causa dificuldades cognitivas em adultos e asma em crianças.

A fome oculta é tão insidiosa que ainda não se sabe o seu fardo financeiro para a saúde pública. Há poucos números e estimativas sobre seu efeito. Uma pesquisa foi feita para dar um preço nos custos causados pela falta de ferro, de vitamina A e de zinco em crianças de 6 meses a 5 anos nas Filipinas. A Universidade de Ciências Aplicadas de Zurique e o Departamento de Ciência e Tecnologia de Manila, nas Filipinas, constataram que a cada ano US$ 30 milhões são gastos diretamente com tratamentos médicos ligados à fome oculta. Uma projeção do dano causado pela fome oculta à capacidade de trabalho dessas crianças no futuro chegou a meio bilhão de dólares. As Filipinas têm a metade da população do Brasil.

Um documento da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) de 2018 classifica a anemia como “uma urgência médica”. A deficiência de ferro pode comprometer o desenvolvimento das habilidades cognitivas, comportamentais, linguagem e capacidades motoras das crianças. “O possível impacto negativo permanece mesmo após o tratamento precoce por décadas”, diz a pesquisa da SBP. A carência de ferro na infância também predispõe a cáries dentárias, menor discriminação e identificação de odores, alterações na imunidade, no paladar e no apetite.

A fome oculta, afirma o nutrólogo Fisberg, é influenciada pela falta de recursos para comprar comida saudável e diversificada. Mas também pelas questões culturais. “Cálcio e magnésio não têm nada a ver com classe social. A falta deles é encontrada no rico e no pobre. Já o ferro tende a estar ligado com ter mais acesso a proteína. E a deficiência de vitamina D é absolutamente democrática”, diz o nutrólogo.

Morando em um apartamento de três quartos em Higienópolis, a aposentada Renata nunca pensou que padeceria de fome. Mas uma dor persistente na ponta dos dedos a levou a um dos melhores hospitais de São Paulo. Sob o ar-condicionado de um consultório do Sírio-Libanês, ela ouviu que a dor vinha de uma polineuropatia. Uma dor causada por falta de vitamina B12. “Eu lembro do termo que usaram: eu estava com avitaminose.” Faltavam também no seu corpo vitamina D e cálcio. “Eu sempre comi muito pouco”, diz Renata, que pediu para ter seu sobrenome omitido. “Numa época foi pra não engordar, depois, com a idade, o apetite mudou mesmo.” Nos últimos dez anos, ela passou a comer só o que gostava. “Tem dia que eu almoço bolinho de arroz de um restaurante aqui perto, e é só o que eu como.” Renata complementou o cálcio com suplementos que sua filha, que mora nos Estados Unidos, traz a cada três meses e com oito injeções de vitamina B12. “Dói mais que Benzetacil. Mas pelo menos resolve o problema, eu não tenho mais idade pra fazer dieta.”

Há fome oculta em todas as camadas da sociedade. Mas a maioria dos casos, especialmente os ligados a consumo de ferro, ainda se concentra em áreas pobres de grandes cidades e no campo, afirmam profissionais de saúde pública consultados pela reportagem.

Bebês obesos e famintos

Ao longo de três meses, a Pública conversou com duas dezenas de médicos e nutricionistas que trabalham em unidades básicas de saúde de regiões diversas de São Paulo e do Rio.

Todos os entrevistados afirmaram haver um salto nos casos de deficiência de micronutrientes nos últimos três anos. “É a nova virose”, diz uma médica. “O paciente vem com cansaço, com problema de sono, com dor de cabeça, dor nas juntas. A pessoa já vem com a hipótese de que está com dengue. Mas daí você faz os exames e ela está com deficiência de tudo. Tudo”, diz a profissional de saúde, que pediu para não ser nomeada.

Um médico reporta que atendeu uma criança de 8 anos com pressão alta. “Fui eliminando os outros fatores que poderiam ter levado a esse quadro, e ficou só a alimentação”, diz o profissional. Em média, os profissionais dos postinhos de São Paulo e do Rio reportaram que 5% dos atendimentos tinham ligação com deficiências de vitaminas e de minerais.

“Praticamente 95% do meu trabalho é voltado para a carência dos micronutrientes”, diz Raira Oliveira, nutricionista que coordena dois Núcleos de Atendimento do Apoio à Família em duas Unidades Básicas de Saúde (UBS), uma no Jardim Lídia e a outra no Jardim Maracá, ambos no extremo sul de São Paulo.

“O problema maior que eu observo no dia a dia é que está acontecendo cada vez mais cedo. Vejo crescer muito o número de crianças que estão com carência de micronutrientes e excesso de calorias. É gritante. Cada vez menos você encontra uma criança com o peso normal para a idade. As crianças estão obesas e com falta de nutrientes.”

A questão é tão urgente que se criou um atalho para o atendimento desses casos. Normalmente, os pacientes precisariam primeiro passar por consulta com um médico ou por uma avaliação com enfermeiras, antes de serem encaminhados para o aconselhamento nutricional. Mas, para evitar tanta demora, algumas UBSs criaram grupos abertos para a população, sem necessidade de consulta médica. “Tenho dois grupos em UBSs com uma diferença muito grande. Na UBS Maracá, tem umas 15, 20 pessoas [que frequentam os grupos de aconselhamento nutricional, em média]. No Jardim Lídia, não sei dizer o motivo, mas é praticamente nula a participação, vai uma, duas pessoas.” A imensa maioria dos pacientes, diz a nutricionista, não volta para uma segunda consulta.

Para a nutricionista, faltam esforços em esferas mais altas. Uma articulação do Estado com a mídia, indústria alimentícia e programas de educação para mudar velhos hábitos. “A pessoa não sabe que está consumindo tudo aquilo de açúcar, não sabe que está comendo tanta gordura. Ela aprendeu a vida inteira que margarina é saudável, muitas vezes nem acredita em mim”, diz Raira.

No livro Fome oculta: impacto para a população do Brasil, a pesquisadora Rebeca C. de Angelis, da Universidade de São Paulo (USP), adverte: “Existem enfermidades causadas pela falta de nutrientes que não sabemos quais são”. Antes de sua morte, em 2007, Rebeca estudava a possibilidade de a fome oculta contribuir para o desenvolvimento de doenças como o câncer, osteoporose, diabete e problemas cardiovasculares.

Além da educação alimentar, o Unicef recomenda o enriquecimento de alimentos com nutrientes que estejam em falta na alimentação. Um exemplo de sucesso é o iodo adicionado ao sal brasileiro desde a década de 1950: 90% das famílias têm acesso ao sal iodado, e a deficiência do micronutriente já não é considerada um problema no país.

Leite Moça para crianças

Na quinta-feira pré-Carnaval, Mariinha Aparecida acordou sentindo pontadas no abdômen. A dor embaixo do sutiã era tanta que a levou para o pronto-socorro do Hospital Municipal de Parelheiros, o mais próximo da sua casa, na extrema zona sul de São Paulo.

Oito horas, uma ressonância magnética e um comprimido de Buscopan e outro de diclofenaco depois, ela foi dispensada com um diagnóstico de esteatose hepática. Ou gordura no fígado. A doença é típica de quem consumiu muito mais gordura do que o corpo conseguiria metabolizar. Antes, ela já lidava com deficiência de vitaminas.

Assim como a síndrome de túnel do carpo que levou Mariinha a operar os dois pulsos no Hospital das Clínicas na década de 2000 era um sintoma dos mais de 50 anos trabalhando como empregada doméstica, a gordura no fígado era provavelmente o resultado dos seus hábitos alimentares.

“Na época que eu criei os meus meninos, não era essa coisa de sacolão e feira, de legume e de carne todo dia. Era polenta e macarrão. Era pão.” Conforme seus cinco filhos foram crescendo e ela conseguiu ganhar mais dinheiro, pôde dar a eles a alimentação de qualidade.

Ou que na época considerava de qualidade. Fazia uma mistura de Leite Moça, Biotônico Fontoura e ovo de pata, que servia aos filhos diariamente. “A gente achava que criança gordinha era criança saudável.” Um bisneto de Mariinha anda pela casa com uma mamadeira de Coca-Cola normal enquanto ela comenta sobre sua alimentação. Ele tem 3 anos.

Quando Macabéa, a protagonista criada por Clarice Lispector na década de 1970 para o livro A hora da estrela, vai ao médico descobrir qual doença misteriosa faz doer o seu estômago e a deixa franzina, o doutor prescreve sem muito examinar: “Tente comer uma macarronada italiana”. Macabéa só tinha dinheiro para comer cachorro-quente.

Foto: Camila Svenson /Agência Pública

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