Por que confundir populistas com fascistas é um equívoco, segundo pesquisador do Holocausto em Israel

Por Paula Adamo Idoeta, da BBC News Brasil

Pesquisador por três décadas do Museu do Holocausto em Israel, Avraham Milgram sugere cautela a quem chama tudo de fascismo.

Historiador, ele defende que há uma distinção objetiva entre fascistas e populistas, apesar de semelhanças históricas como lideranças carismáticas, identidade nacional e crise socioeconômica.

“Todos esses líderes populistas atuais não criaram organismos paramilitares armados para eliminar seus inimigos e guardar de forma brutal e violenta o regime”, afirmou à BBC News Brasil o autor e historiador brasileiro radicado em Israel, que pesquisou a história do povo judeu e o extermínio na Segunda Guerra Mundial.

“Esses líderes atingem seus objetivos usando os meios democráticos, sem destruí-los, embora possam enfraquecê-los com ataques à imprensa e às elites pensantes e intelectuais.”

Para Milgram, as declarações do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, e do chanceler Ernesto Araújo de associar o nazismo à esquerda corroboram erros históricos e encontram ecos em estratégias políticas que ganharam força nos EUA, na Polônia, na Hungria e mesmo em Israel. “Governos populistas usam a incitação e o ódio de um grupo contra o outro para desacreditar inimigos, virtuais ou reais – muitos são apenas virtuais–, conquistar as massas, ficar no poder e difundir uma mensagem nacionalista ou até mesmo racista”, afirma o pesquisador.

Segundo Milgram, as declarações de Bolsonaro sobre o Holocausto (“podemos perdoar, mas não esquecer” o Holocausto) foram recebidas com uma indignação ainda maior no país porque foram feitas logo após repetir que o nazismo foi um movimento de esquerda no dia de sua visita ao Museu do Holocausto.

O historiador afirma que a presença das palavras nacional-socialista no nome do partido de Hitler, argumento de Bolsonaro, era uma tática política para disputar eleitorado com a própria esquerda. Ele relembra que uma das primeiras medidas do regime nazista foi, inclusive, matar socialistas, comunistas e sindicalistas em campos de extermínio.

Milgram, que emigrou para Israel nos anos 1970, foi pesquisador por mais de três décadas do próprio Yad Vashem, o Museu do Holocausto, visitado por Bolsonaro em Jerusalém, onde coordenou múltiplos estudos e editou a Enciclopédia dos Justos Entre as Nações (em referência aos não-judeus que arriscaram suas vidas para salvar judeus na época do Holocausto). Fez bacharelado, mestrado e doutorado na Universidade Hebraica e publicou, no Brasil e em Portugal, livros sobre a história judaica.

BBC News Brasil – Houve repercussão em Israel à fala do presidente Jair Bolsonaro sobre ser possível perdoar, mas não esquecer o Holocausto?

Avraham Milgram – Houve grande repercussão, principalmente porque a declaração ocorreu logo após a visita de Bolsonaro a Israel e porque ele corroborou o que disse o chanceler (Ernesto) Araújo, no dia de sua visita ao Museu do Holocausto (Araújo afirmara que o nazismo foi um movimento de esquerda, declaração repetida por Bolsonaro), no local que marca a morte de 6 milhões de judeus pelo nazismo.

A frase de que “pode-se perdoar, mas não esquecer” recebeu manifestação do presidente de Israel, Reuven Rivlin (este escreveu, via redes sociais, que “sempre iremos nos opor àqueles que negam a verdade ou desejam expurgar nossa memória. (…) Nunca vamos perdoar ou esquecer”), com indignação, assim como de outros jornais.

O que é importante é que os leitores saibam que Israel é um país estabelecido em 1948, três anos após o fim da Segunda Guerra Mundial e o fim do Holocausto, que dizimou um terço do povo judeu. Chegaram ao país cerca de 300 mil sobreviventes do Holocausto, que viveram grandes tragédias em campos de extermínio.

Ou seja, a memória do Holocausto é central na memória e na identidade coletivas de Israel. As pessoas se reconhecem como judeus e como israelenses pela centralidade do Holocausto em sua memória. Há, portanto, uma sensibilidade muito grande (quanto ao tema), não existe em igual peso em outros países.

Além disso, fala-se coisas sem base histórica, como que o nazismo era um movimento de esquerda, só porque o partido (de Hitler) tinha as palavras nacional-socialista no nome (o partido chamava-se Nacional Socialista da Alemanha).

O nazismo se prende na questão racial, e não social. O primordial para o movimento era o homem ser da raça ariana. (Avraham Milgram)

Esse nome foi dado por Hitler no início do movimento apenas como uma questão tática, de concorrer com o eleitorado de esquerda. Nunca houve a intenção de lutar pela classe obreira, explorada ou de defender a igualdade (como os movimentos de esquerda).

O fato é que, logo que Hitler foi nomeado chanceler (premiê) da Alemanha e começou a transferência para um regime totalitário, uma das suas primeiras medidas foi destruir a esquerda. As primeiras vítimas dos campos de extermínio foram socialistas, líderes sindicais, comunistas.

O presidente (Jair Bolsonaro) cometeu o erro de corroborar uma fala ignorante.

BBC News Brasil – O argumento do chanceler Ernesto Araújo era de que o nazismo era um movimento “anticapitalista, antireligioso, antiliberal e anticonservador” e, assim, semelhante ao marxismo. Faz sentido do ponto de vista histórico?

Milgram – Não. O marxismo tem teses universalistas, que abrangem o homem em sua totalidade, independentemente do país (onde ele tenha nascido). O nazismo, ao inverso, estava orientado a um grupo em particular, que era a chamada raça ariana.

O marxismo tinha (o ideal) de que a história humana se desenvolve em conflitos de classe e tinha como denominador comum a condição socioeconômica do ser humano, não racial.

Já o nazismo se prende na questão racial, e não social. O primordial para o movimento era o homem ser da raça ariana.

BBC News Brasil – Por que o senhor acha que esse tema tem ganhado a atenção do governo brasileiro agora?

Milgram – É uma boa pergunta. Acho que tem a ver com a visita ao Museu do Holocausto. Mas a primeira declaração (de que o nazismo é de esquerda) é também uma agenda político-ideológica do atual governo, de tentar desacreditar a esquerda.

O que o nazismo representou e a consequência de seus atos criminosos, com a perseguição de judeus e outros grupos, é associado a algo negativo por qualquer ser humano.

O chanceler (Araújo), ao associar esse movimento à esquerda, desacredita a esquerda com algo que não tem nada a ver.

As primeiras vítimas dos campos de extermínio foram socialistas, líderes sindicais, comunistas. (Avraham Milgram)

É algo que ocorre muito no mundo de hoje, também na Polônia, na Hungria, nos EUA, na Eslováquia e até mesmo em Israel: governos populistas usam a incitação e o ódio de um grupo contra o outro para desacreditar inimigos, virtuais ou reais – muitos são apenas virtuais –, conquistar as massas, ficar no poder e difundir uma mensagem nacionalista ou até mesmo racista.

Quando (o presidente americano Donald) Trump diz que os mexicanos são estupradores (frase dita em campanha), faz uma generalização que incita o ódio. O mesmo ocorre também na Rússia de (Vladimir) Putin, nas Filipinas de (Rodrigo) Duterte e, no lado inverso, na Venezuela de (Nicolás) Maduro. É um estilo que penetrou na vida política global dos últimos anos, que dá uma impressão de volta aos anos 1930-40.

BBC News Brasil – Dito isso, existe a chance de as condições históricas que criaram o nazismo se repetirem agora?

Milgram – Em princípio, ocorrências históricas dessa magnitude não se repetem, são eventos que ocorrem uma única vez. Os condicionamentos nunca são os mesmos.

Às vezes temos a impressão de viver algo que já vimos antes, que nos faz associar e a dizer coisas que do ponto de vista histórico não se sustentam.

Por exemplo, é preciso cuidado ao chamar tudo de fascismo, de dizer “tal líder é um fascista”. É preciso fazer distinções objetivas e dizer que são fenômenos diferentes (dos vividos atualmente).

Há certamente coisas (em comum hoje) que nos fazem lembrar daquela época: crise econômica, social, líderes carismáticos, tentativas de se cristalizar a identidade nacional em torno de uma ideia romântica. Não sou profeta e não sei o que vai acontecer no futuro, mas o que temos hoje não é igual (ao fascismo). Pode até nos fazer lembrar daquela época, mas o Trump, por exemplo, é líder de um Estado democrático.

BBC News Brasil – E quais são então as principais diferenças entre o período do fascismo e o populismo no mundo atual?

Milgram – Todos esses líderes populistas atuais não criaram organismos paramilitares armados para eliminar seus inimigos e guardar de forma brutal e violenta o regime. Até porque não há necessidade desses regimes armados – esses líderes atingem seus objetivos usando os meios democráticos, sem destruí-los, embora possam enfraquecê-los com ataques à imprensa e às elites pensantes e intelectuais.

Já o fascismo queria conquistar o Estado, eliminar a oposição política, criar uma situação de domínio quase total da sociedade. No nazismo e no fascismo europeus, a democracia era vista como um perigo ao Estado, como algo a ser eliminado, como um veneno que havia permitido (a existência) de setores que pensavam diferente e de minorias.

E os judeus sempre foram apontados em todos os momentos do fascismo como um inimigo e um elemento estranho a ser eliminado.

BBC News Brasil – A ascensão atual do antissemitismo e da rejeição a imigrantes preocupa tanto quanto preocupava na época do nazismo?

Milgram – Para as camadas mais liberais, sim, é preocupante. Porque o migrante é visto como algo a ser eliminado. Basta ver os grupos que querem sua extinção, como (Marine) Le Pen, líder de um partido nacionalista e de coloração racista na França, ou (o ministro do Interior da Itália conhecido por sua retórica anti-imigração Matteo) Salvini.

O denominador comum é uma extrema direita racista, antiliberal e antidemocrática, que defende a ideia de que a sociedade liberal é que permitiu a entrada de imigrantes.

BBC News Brasil – Ainda persistem teorias de que o Holocausto não existiu. O que o senhor diz a respeito delas?

Milgram – Diria que a negação do Holocausto já passou muitos anos desde o seu auge, nos anos 1980, quando havia mais intelectuais que defendiam a tese do negacionismo. Houve uma época em que de fato isso era uma ameaça à memória, e (ainda) está presente no radicalismo islâmico.

Mas não desapareceu. Sempre digo que isso (a negação do Holocausto) é uma expressão do antissemitismo ocidental e no Oriente Médio, não é algo que ocorra em sociedades como China ou Índia, por exemplo. É algo, portanto, essencialmente europeu, apesar de ocorrer em menor escala em outros lugares.

Acho que tem a ver com o caráter ambivalente do conflito teológico entre o cristianismo e o judaísmo. O cristianismo tinha e tem respeito pelos judeus por seu monoteísmo e por Cristo, mas também uma aversão e um ódio aos judeus por não terem aceitado os dogmas cristãos. Na cultura ocidental cristã se cristalizou por séculos a ideia do judeu como o outro negativo, de usureiro. São sempre vistos como ameaçadores desse complexo nacional.

Além disso, se você consegue convencer as pessoas de Auschwitz – o maior centro destrutivo de seres humanos que já houve – não ocorreu, Hitler se torna algo mais digerível, mais aceitável.

BBC News Brasil – Recentemente, foi descoberta em Belarus (Europa Oriental) uma vala comum com milhares de judeus, da época da Segunda Guerra. Ainda não se dimensionou completamente o que ocorreu naquela época?

Milgram – Na Europa Oriental, da metade da Polônia até Moscou, em julho de 1941 começou um assassinato sistemático e massivo de judeus pela SS (forças alemãs) e outros organismos do Estado alemão. E há milhares de localidades como essa em Belarus, de fossas comuns com centenas ou milhares de civis que foram metralhados perto de onde viviam.

Há lugares em que os idosos sabem onde estão essas valas, eles testemunharam as expulsões, e alguns foram até obrigados a cavar as valas.

Passada a guerra, ninguém se preocupou em exumar, ou então fez uma placa comemorativa genérica apontando que ali morreram pessoas. Isso também é uma forma de negação, algo comum no período comunista (que marcou a Europa Oriental após a Segunda Guerra Mundial). A identidade das vítimas não aparece. Mas é preciso lembrar que eram pessoas de uma determinada religião e que falavam ídiche, língua falada pelos judeus daquela região.

Crianças sobreviventes do campo de concentração de Auschwitz. Foto: Museu do Holocausto EUA

Enviada para Combate Racismo Ambiental por Amyra El Khalili

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