Terrorismo sobre rodas

Para agradar sua base, Bolsonaro promove cruzada em defesa da estupidez rodoviarista. É ato de terror, num país onde estradas matam, a cada dois dias, tanto quanto os atentados do Sri Lanka

por Roberto Andrés, em Outras Palavras

Atentados terroristas geram grande comoção social – manchetes nos jornais, indignação e tristeza com as vidas perdidas. O atentado ocorrido na última semana, no Sri Lanka, teve 290 mortos contabilizados. É chocante o grau de violência sem sentido que a espécie humana é capaz de produzir.

Talvez a leitora e o leitor não saibam exatamente onde fica o Sri Lanka. Eu mesmo precisei dar uma busca na Internet para saber que é uma ilha no sul da Índia, a 14.812 quilômetros do Brasil. É bom saber que somos capazes de nos comover com a tragédia humana do outro lado do Globo.

Agora, uma notícia pior: o trânsito brasileiro matou o equivalente ao atentado do Sri Lanka a cada dois dias e meio nesta década. São 114 pessoas por dia, 3.471 por mês, 41.655 por ano, em média. Todos temos um parente, um amigo, um conhecido que morreu no trânsito.

É uma enormidade de vidas ceifadas ao meio. Grande parte dos mortos são jovens. Utilizando dados do SUS, duas pesquisadoras estimaram que somente em 2013 os acidentes de trânsito geraram 1.300.000 Anos Potenciais de Vida Perdidos, com taxa de 33,8 anos perdidos por óbito.

Ainda segundo o estudo, os acidentes de trânsito geraram cerca de 170 mil internações hospitalares pelo SUS, a um custo de cerca de R$230 milhões em 2013. Um estudo feito pelo IPEA junto à Polícia Rodoviária Federal calculou que o custo total de acidentes de trânsito no Brasil chega a 40 bilhões de reais por ano, somando-se gastos hospitalares, perda de produtividade, perdas materiais e institucionais.

Agora, uma notícia ainda pior: se o governo brasileiro implementar a política de trânsito anunciada pelo presidente Jair Bolsonaro, com eliminação de radares e aumento da tolerância de pontos na carteira de motorista, o resultado será a escalada destes números já assustadores. A imensa maioria dos estudos sobre o assunto leva a esta conclusão.

Um rápido panorama sobre o tema ajuda a entender. Até o final dos anos 1990, a principal vítima do trânsito brasileiro era o pedestre, reflexo do crescimento acelerado, desigual e precário vivido pelas cidades no século 20, em que faltavam desde normas básicas de trânsito até faixas de pedestres.

A promulgação do Código de Trânsito Brasileiro, em 1998, trouxe uma legislação mais dura e campanhas educativas, fazendo com que as mortes em acidentes de trânsito caíssem por alguns anos. As mortes de pedestres caíram quase pela metade entre 1997 (24.112) e 2000 (13.643). Mas a queda não se deu em outras categorias, que precisavam de outras medidas para contenção de acidentes.

Nos anos seguintes, assistimos à explosão de motocicletas nas cidades brasileiras – cuja frota passou de cerca de 4 milhões, em 2000, para mais de 27 milhões em 2018 – o que fez com que as mortes de motociclistas quase quadruplicassem no período.

Com crescimento menos acentuado, mas relevante, estiveram as mortes em carros e caminhões, principalmente em estradas. O resultado é que o país atingiu, já em 2012, taxa de mortes em acidentes de trânsito maior do que tinha em 1997. Nos últimos anos a taxa vem caindo um pouco, mas segue como uma das mais altas do mundo.

Diante desse quadro tão grave, alargar a pontuação da carteira de motoristas – favorecendo os infratores – e retirar radares das estradas equivale a uma ação terrorista. Há diversos estudos que demonstram os benefícios dos radares nas reduções das mortes. Um levantamento feito pela Folha demonstrou haver redução de 21,7% de mortes em trechos de rodovias federais após a instalação de radares.

Mas o presidente prefere enxergar uma suposta “indústria da multa”, que seria a verdadeira motivação dos radares. É óbvio que isso não existe: os radares apenas registram as ações dos motoristas, multam os infratores (não era para combater a impunidade?) e estimulam o respeito às normas, fazendo com que ocorram menos acidentes.

O que é mais curioso é que, se for bem sucedido em sua cruzada pela infração no trânsito, Jair Bolsonaro agradará sua base eleitoral (formada por pessoas com maior poder aquisitivo, grande parte delas motorizada) que passará a morrer mais nas estradas. Será o primeiro caso de atentado em que parte das vítimas cai aplaudindo a ação.

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