Massacre de indígenas no Ciclo da Borracha vira documentário no AM

O documentário “Em nome desta terra” pretende apresentar um outro olhar a respeito do Ciclo da Borracha. Cineasta Aurélio Michiles conta a história na visão de Roger Casement. De acordo com Aurélio, após os cinco meses de viagem do cônsul, o relatório de Casement constatou que para a produção de 4 mil toneladas de borracha, cerca de 30 mil índios foram mortos por seringalistas poderosos. Esse relatório foi lido no parlamento britânico e causou escândalo mundial, além de afetar diretamente a economia inglesa.

Por Izaias Godinho, no Em Tempo

Manaus “Toda a minha biografia é marcada pela temática amazônica. Eu nasci em Manaus e faço parte dessa história” disse o cineasta amazonense Aurélio Michiles, em entrevista ao Portal Em Tempo. Com quase 40 anos de carreira, o cineasta finalizou na última semana as gravações de um novo projeto.

O documentário, intitulado “Em nome desta terra”, está previsto para ser lançado até março de 2020 e pretende apresentar um outro olhar a respeito do Ciclo da Borracha aos amantes da Sétima Arte.

O documentário vai contar a trajetória de Roger Casement, um cônsul britânico, de origem irlandesa, que recebeu como missão da coroa inglesa a obrigação de investigar os maus tratos que várias tribos indígenas sofriam por seringalistas na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia, especificamente no rio Putumayo.

A história se passa em 1910, época em que a principal atividade econômica na Amazônia era a extração de látex para a produção de borracha.

“Entrevistei os descendentes de várias tribos e filmei os locais onde Casement esteve.  Até hoje as novas gerações de indígenas se referem ao período da borracha como ‘nosso holocausto’ ”, frisa Aurélio.

O cineasta contou ao Portal Em Tempo que teve acesso à biografia de Roger Casement na década de 90, quando um historiador britânico o procurou após assistir algumas produções cinematográficas dele.

“Esse pesquisador me deu um livro que era a tese de doutorado dele sobre o diário da Amazônia, o diário de Casement. E desde então, sempre me incentivou a fazer um documentário sobre isso, mas somente nos últimos tempos me dediquei ao tema e quis tornar público o enredo desse documento”, afirmou Aurélio acrescentando que o ano de 2016 foi marcado pelos 100 anos da morte de Casement, considerado por muitos como um herói.

O ator Dori Carvalho, convidado por Aurélio para interpretar Casement, disse à reportagem que já participou de outras produções do cineasta. Ele afirmou que ao ser chamado para compor o filme se deparou com um pré-requisito para compor o papel.

“Eu perguntei se esse pré-requisito seria tirar a barba, ele me respondeu que não. Muito pelo contrário, ele disse que era para eu manter a barba e deixar o cabelo crescer para fazer a transformação”, brincou o ator que teve de pintar os cabelos para as gravações, pois Roger Casement era um homem ruivo, enquanto o ator mantém os cabelos grisalhos. 

 “O Aurélio é um documentarista inquieto e muito criativo. Para mim foi muito bom fazer o papel. A semelhança de ideais é o que nos une” afirmou o ator Dori Carvalho. Para ele, o documentário é uma metáfora que vai explanar a condição humana e falar acerca da crueldade que é própria dos homens, pela busca das riquezas incentivada pela ganância.

A principal fonte de informação para a realização de “Em nome desta terra”, é justamente o Diário da Amazônia, obra onde Roger Casement detalhou os bastidores da viagem do Rio de Janeiro à bacia do rio Putumayo, em La Chorrera, na Colômbia.

“Nesse diário, o cônsul narra com um olhar muito reflexivo acerca daquela época que conhecemos como ‘os tempos áureos da borracha’. Ele revela os bastidores, a elite e a vida dos trabalhadores da coleta do látex. Ele faz um detalhamento específico sobre as populações indígenas afetadas por essa atividade econômica, entre eles os Boras, Uaitotos, Muiananes e Ocainas. Outras etnias acabaram sendo extintas”, explica o cineasta. 

De acordo com Aurélio, após os cinco meses de viagem do cônsul, o relatório de Casement constatou que para a produção de 4 mil toneladas de borracha, cerca de 30 mil índios foram mortos por seringalistas poderosos. Esse relatório foi lido no parlamento britânico e causou escândalo mundial, além de afetar diretamente a economia inglesa.

Michiles afirmou também que a história de Silvino Santos, cineasta amazonense, tem ligação direta com o que foi vivenciado por Casement na tríplice fronteira. O cineasta afirma que já chegou a detalhar no documentário “Cineasta da Selva”, a respeito da contratação de Silvino Santos por um empresário seringalista chamado Júlio César Arana. Na ocasião, Silvino fez um filme “chapa-branca” sobre a empresa de Arana.

“Na Europa ocorria a denúncia que o empresário praticava violência contra a população indígena. Em meio à produção da borracha, os nativos não recebiam pelos serviços, passavam fome e eram torturados, chegando a ser mortos. Isso ocorria na mesma região investigada por Casement”, frisa o cineasta.

De acordo com Michiles, a empresa de Júlio César Arana tinha ações na bolsa de Londres, e dentre os acionistas estavam familiares da realeza. Por isso, o governo britânico tomou providências para que as denúncias de maus tratos aos indígenas não chegassem à realeza britânica. Casement foi enviado à tríplice fronteira para investigar os casos. Na época, o cônsul residia no Rio de Janeiro.

Segundo o cineasta, o documentário “Em nome desta terra” vai apresentar duas ocasiões da vida de Robert Casement. No primeiro momento, o produto mostrará a atuação dele como o cônsul que denunciou mundialmente a real situação dos indígenas em Putumayo, enquanto em outro instante serão apresentados os questionamentos internos de Casement, em relação à origem dele. 

“Roger Casement começa a assumir a sua origem irlandesa, durante a viagem do Rio de Janeiro à tríplice fronteira. Naquele período, os irlandeses eram vistos pelos britânicos como inferiores”, disse Aurélio, ao fazer um paralelo entre a realidade dos irlandeses com o contexto dos indígenas.

O cineasta explicou que em 1075, os britânicos tomaram as terras dos irlandeses que morreram de fome e foram discriminados desde então. Michiles disse ainda que Roger Casement foi condenado à forca pelos ingleses, após ser julgado por conta de uma revolução armada realizada para emancipar a Irlanda do império britânico.

“No século XX, Casement começa a reagir e resolve fazer uma luta armada contra os britânicos. Ele usou o salário dele para financiar atividades clandestinas, como a compra de armas na Alemanha” explicou o cineasta. 

Ao desembarcar de um submarino na Irlanda, Casement foi preso pelo serviço secreto britânico, julgado como traidor da pátria e então condenado à morte. Ao ser indagado sobre qual sentimento deseja despertar no público que tiver acesso ao documentário, o cineasta amazonense diz que espera que as pessoas abram os olhos contra a violência, o ódio e o preconceito, além de terem mais respeito quanto à contribuição milionária dos povos indígenas.

Aurélio Michiles disse ainda que toda tragédia relacionada aos nativos não cabem em um documentário “O Diário da Amazônia atualmente continua permeado de violência e intolerância. De certa maneira, de uma gigantesca incompreensão”, concluiu.

Edição: Bruna Souza

Os indígenas sofriam todo tipo de violência. Foto: Reprodução

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