João Pedro Stédile: “Todos os pesos da crise estão jogando nas costas do trabalhador”

Em conversa com o Brasil de Fato, dirigente nacional do MST falou sobre as medidas do governo Bolsonaro e a resistência

Marcos Barbosa, Brasil de Fato

Na tarde desta sexta-feira (24), em entrevista ao Programa Brasil de Fato Pernambuco, que foi ao ar na Rádio Clube 720 AM, João Pedro Stédile, dirigente nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), fez uma análise sobre o atual momento político no Brasil governado por Jair Bolsonaro (PSL) e o papel dos movimentos populares na atual conjuntura.

De acordo com Stédile, a leitura comum sobre o Brasil atual que vem sendo feita nos espaços de unidade, como a Frente Brasil de Popular, e partidos de oposição é que vivemos um momento político de enfrentamento a uma crise capitalista cujos prejuízos estão sendo impostos apenas à população trabalhadora. 

“Estamos enfrentando, por um lado, uma crise muito grave, uma crise capitalista, que traz problemas sociais gravíssimos. Todos os pesos da crise, os capitalistas estão jogando nas costas do trabalhador. Por outro lado, todos os períodos que tivemos grandes crises como essa, os capitalistas procuram sair da crise salvando-se a si mesmos”, explica.

Ainda segundo o dirigente nacional do MST, o momento é de grande ameaça a recursos naturais como o petróleo, o pré-sal, os minérios de ferro e a água. Essas ameaças atingem, também, empresas estatais como Petrobras, Eletrobras, Correios, Banco do Brasil e Caixa Econômica, porque esses recursos e empresas são fontes de lucro. 

“Para se salvar, os capitalistas têm como plano se apropriar de todos os recursos naturais. Desde Temer e, agora, com esse governo. Querem privatizar as empresas estatais, que deram lucro de R$ 74 bilhões e pegar para eles”, explica.

Ainda segundo Stédile, é parte desse projeto a retirada de direitos dos trabalhadores, como 13º salário, férias e carteira de trabalho e, junto ao aumento da exploração, está também o aumento da taxa de lucro. “A reforma Trabalhista retirou direitos históricos e reforma da Previdência quer tirar o direito à aposentadoria”, frisa. 

Ainda sobre a reforma da Previdência, o entrevistado afirmou que a lei previdência social é para dar segurança à população e a sociedade brasileira garantir os direitos mínimos para a vida digna de todos os cidadãos. Para ele, a proposta de Bolsonaro e seu ministro da Economia Paulo Guedes “afeta o direito de sobrevivência” do povo brasileiro.

Empobrecimento 

De acordo com Stédile, as medidas adotadas após a saída da ex-presidente Dilma apenas aumentaram o desemprego na cidade e as dificuldades no campo, além de diminuir o poder aquisitivo da população. Para ele, os brasileiros passam por um processo de empobrecimento e os indicadores se reproduzem em todas as áreas da sociedade brasileira: “São 13 milhões de desempregados e 30 milhões de trabalhadores precarizados”. 

Stédile também mencionou a recente pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que aponta que um quinto das famílias brasileiras voltaram a cozinhar com fogão a lenha e carvão, por conta do alto preço cobrado pelo gás. De acordo com o dirigente do MST, isso está acontecendo porque a Petrobrás está elevando seus preços a nível internacional para gerar lucro extraordinário, que será repassado aos acionistas privados. Esse processo se reflete, também, no alto preço cobrado pelo diesel e pela gasolina. 

Protestos da educação

Durante o bate-papo, João Pedro foi perguntado sobre as mobilizações protagonizadas pelos trabalhadores e trabalhadores da educação e estudantes em oposição aos cortes promovidos pelo ministro da Educação Abraham Weintraub. Stédile declarou que a mobilização no dia 15 de maio foi “uma surpresa para todo mundo” e que os professores deram o exemplo nas ruas.

Para o dirigente do MST, o projeto de Bolsonaro para a educação é excludente e que, em vez de cortar da educação, o governo deveria cortar dos 40% dos gastos públicos referentes ao pagamento de juros aos bancos. “Diante de uma situação de falta de recurso a primeira coisa que deveriam cortar é pagamento de juros. Os bancos são os grandes exploradores do nosso povo”, declara.

O entrevistado relembrou, ainda, que as manifestações foram massivas e aconteceram em 198 cidades do Brasil, uma proporção que relembrou a campanha pelas Diretas Já. “Espero que com esse recado que a população não está dormindo. Sempre que o estudante começa a se mobilizar, é um bom indicativo. O jovem é um termômetro quando o estudante se mobiliza, é uma demonstração de que há força na sociedade”, explica. 

Ataques ao MST

De acordo com o dirigente, o MST não é o único que está sendo atingido pelos retrocessos que o presidente vem realizando no meio rural, mas todos os camponeses e agricultores do nosso país. Stédile deu como exemplo os cortes nos recursos para a construção de cisternas. 

Além de criticar os retrocessos nos direitos e políticas públicas que poderiam gerar mais produção de alimentos no campo, João Pedro também criticou a liberação do uso de arma e ameaças que o presidente vem fazendo aos camponeses. No entanto, reforçou que o MST está “assumindo a postura de não cair nas provocações dele [Bolsonaro]”.

Para Stédile, a propriedade não está acima da vida. “Em qualquer corrente religiosa, o sentido da sociedade é preservar a vida. Nem estamos com medo, nem achamos que os problemas vão se resolver com armas. Nossa saída é continuar se organizando, ampliar o número de famílias, continuar fazendo ocupações. Embora os tempos não sejam fáceis, a forma de enfrentar esse governo é organizar o povo e levando o povo para a rua”, reitera o entrevistado, relembrando, ainda, que o MST voltará às ruas na próxima quinta-feira (30), quando novos protestos em defesa da educação acontecerão em diversas cidades brasileiras, além de parar estradas de todo o Brasil em defesa da aposentadoria, Reforma Agrária e contra o governo Bolsonaro na Greve Geral do dia 14 de junho. 

Armazém do Campo
Na próxima quinta-feira, o MST estará inaugurando o Armazém do Campo no Recife. As festas se estendem até o sábado (01), com programação cultural e debates políticos. O Armazém do Campo fica na R. do Imperador Pedro II, 387, no bairro de Santo Antônio.

De acordo com Stédile, a luta do MST não é apenas por terra, mas também para que a produção agrícola seja feita sem veneno. “Queremos mostrar para a comunidade que vive na cidade que é possível produzir alimento sadio e barato, e diversificado”, conclui. 

Edição: Monyse Ravena.

Imagem: João Pedro Stedile, dirigente nacional do MST / Rafael Stedile/BdF

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