Comandante dos Bombeiros manda apurar denúncias de racismo e assédio no Colégio Militar Dom Pedro II, no DF

O Metrópoles recebeu dezenas de relatos. Entre eles, um novo caso: livro cobrado no PAS foi vetado por abordar a homossexualidade

por Gabriela Furquim, em Metrópoles

O comandante-geral do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (CBMDF), coronel Carlos Emilson Ferreira dos Santos, abriu, nessa segunda-feira (27/05/2019), investigação para apurar as denúncias de discriminação racial e assédio moral dentro do Colégio Dom Pedro II.

Como mostrou o Metrópoles no domingo (26/05/2019), uma aluna negra com tranças afro contou ter sido abordada por um monitor que recomendou a ela “cortar ou alisar” o cabelo para não sofrer sanções. Poucos dias depois, um grupo de cerca de 50 jovens foi repreendido pelo diretor da instituição após uma apresentação musical, ao ritmo de funk, durante competição esportiva. As críticas às estudantes foram feitas diante de todo o corpo discente, ou seja, na presença de quase 3 mil pessoas.

“É uma situação bem gritante que merece toda a apuração”, afirmou o coronel Emilson ao Metrópoles. De acordo com o comandante-geral do CBMDF, o assunto começou a ser discutido entre os dirigentes da instituição logo após a publicação da reportagem, na manhã do último domingo (26/05/2019).Nossa primeira providência foi abrir os procedimentos apuratórios para cada caso. Esses processos serão encaminhados para o comandante do colégio [o tenente-coronel Marcos Antônio Nascimento de Souza Apolônio] para ele se pronunciar sobre cada um. Estamos tentando entender tudo que aconteceu, esclarecer os ruídos, para tomar uma providência assertiva”Coronel Carlos Emilson Ferreira dos Santos, comandante-geral do CBMDF

Ainda na segunda-feira (27/05/2019), foi convocada uma reunião para tratar das denúncias. “Estiveram presentes o subcomandante e a corregedora do Corpo de Bombeiros, o chefe do departamento, o diretor de ensino e o diretor do colégio. Nesta terça teremos nova reunião”, afirmou o militar.

Desde a publicação da matéria no domingo (26/05/2019), o Metrópoles recebeu depoimentos de dezenas de pais e alunos que se sentem constrangidos e intimidados na instituição. Eles temem retaliações e, por isso, não quiseram expor seus nomes nas redes sociais.

Entre os relatos enviados diretamente à reportagem, mais uma denúncia. Na lista de obras que serão cobradas nas provas do Programa de Avaliação Seriada (PAS) da Universidade de Brasília (UnB), o livro O Bom Crioulo, de Adolfo Caminha, foi vetado pela direção do Colégio Dom Pedro II.

De acordo com relatos de alunos, o romance estava na programação de estudos do 2º ano do ensino médio, mas foi excluído das aulas por “ferir a moral da instituição” ao retratar um relacionamento homossexual.

Surto de caxumba
Apesar da mobilização do comando dos Bombeiros para esclarecer as denúncias, a direção do Colégio Dom Pedro II não se manifestou sobre o assunto na segunda-feira (27/05/2019). Pais e alunos também ficaram sem respostas.

Em decorrência de um surto de caxumba, as aulas de diversas turmas foram suspensas. Os riscos, no entanto, foram afastados pela própria instituição horas depois. “Após parecer de um médico infectologista”, informou a escola em comunicado aos pais, a rotina do colégio será retomada nesta terça-feira (28/05/2019).

“É muita coincidência, não é? Sobre os casos de racismo e assédio moral, silêncio. E surge, do nada, essa suspeita de surto de caxumba. No meio da confusão, nenhum pai foi recebido, nada foi esclarecido”, questionou uma mãe que teme sofrer retaliações e pediu para ter o nome preservado. “Estão perguntando para os alunos se os pais deles deram entrevista. Está todo mundo com medo”, contou outra mãe, que também não quis ser identificada.

Assédio moral e discriminação racial
Como mostrou o Metrópoles, em um intervalo de poucos dias, episódios de assédio moral e discriminação racial indignaram pais e alunos do Colégio Dom Pedro II.

Uma aluna negra com tranças afro contou ter sido abordada por um monitor que recomendou a ela “cortar ou alisar” o cabelo para não sofrer sanções. Em uma reunião de pais e alunos na última quinta-feira (23/05/2019), a mãe da jovem relatou o constrangimento enfrentado pela filha.

O desabafo da mulher foi registrado por outras mães durante o encontro. O Metrópoles teve acesso ao áudio, mas como não conseguiu entrar em contato com a família, optou por não divulgar a gravação, apenas transcrever a declaração:

“Eu tentei passar para ela que era só uma questão de padronização, mas, para mim, é racismo. Anos atrás, não tínhamos mulheres no serviço militar. Hoje, temos. Antes, poderia não ter negros, não ter mulheres negras, não ter cabelo afro, mas hoje temos. E temos que saber lidar com isso”, disse a mãe da jovem, com a voz embargada. “Falta preparação pedagógica, saber lidar com a diversidade e o novo. Não dá para jogar fora o que está fora do padrão”, completou.

Segundo o relato de outros estudantes, a aluna abordada pelo monitor possui várias tranças, que estavam presas conforme o manual da instituição no momento da intervenção do monitor. Mesmo assim, ela foi orientada a “cortar ou alisar”.

Comemoração
A reunião na qual o caso ganhou notoriedade foi convocada às pressas após um áudio do comandante da escola, o tenente-coronel Marcos Antônio Nascimento de Souza Apolônio, repercutir em grupos de WhastApp. A gravação foi feita durante a cerimônia de entrega de medalhas do evento esportivo anual da instituição, na manhã da última quarta-feira (22/05/2019).

Com uma plateia de quase 3 mil estudantes, o diretor da instituição repreendeu um grupo de cerca de 50 jovens que, na semana anterior, em 15 de maio, havia feito uma apresentação musical, ao ritmo de funk, durante competição esportiva.

“Nos desrespeitou. [Foi uma] afronta a uma ordem direta. Não quero que vocês sejam surpreendidos com as medidas disciplinares que serão aplicadas a todos que participaram”, afirma Nascimento no áudio. “Nossa intenção foi preservar vocês do desrespeito que essas músicas promovem com as próprias mulheres, com as próprias meninas do nosso colégio”, continua ele na gravação.

A música responsável pela confusão é um hit da funkeira MC Pocahontas. De acordo com as estudantes, a canção Não Sou Obrigada foi submetida à aprovação dos dirigentes da escola. “Passamos uma lista com todas as músicas. Três foram vetadas e uma teve o refrão censurado. Nós nos adequamos a todos os pedidos. Mudamos tudo correndo”, revelou uma das jovens que participou da apresentação.

Assédio sexual
A confusão ocorre em um momento no qual a instituição passa por outro caso de repercussão negativa. Há duas semanas, foi a público uma denúncia de assédio sexual contra uma adolescente de 13 anos, aluna do Colégio Dom Pedro II. O autor seria um professor de futsal da escola, que é bombeiro reformado.

A corporação confirmou ao Metrópoles que o educador foi demitido por justa causa em 2 de maio. Informou ainda que, tão logo soube da denúncia, em 24 de abril, afastou preventivamente o militar por 15 dias. Porém, mesmo antes de o período terminar, decidiu pela demissão por justa causa, um vez que “o funcionário não detém perfil adequado para permanecer como docente na instituição”.

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