Por que é tão fácil matar e deixar morrer

Fausto Salvadori, editorial Ponte Jornalismo

No segundo dia de massacre de detentos em presídios privatizados de Manaus (AM), quando a contagem de corpos alcançou a marca de 55 pessoas assassinadas, as principais emissoras de tevê do país interromperam sua programação para transmitir, ao vivo, as últimas informações sobre… a morte de Gabriel Diniz, que cantava Jenifer, a que não era sua namorada, mas poderia ser.

Não que as tevês tenham errado em destacar a morte de Gabriel. Era um artista de 28 anos, talentoso e alegre, que morreu em um acidente, a caminho de encontrar a namorada. Sim, é uma história trágica, que merece ser reconhecida como notícia. A capacidade de sentir a tristeza pela morte de Gabriel, de se colocar no lugar de seus familiares e amigos, é algo que nos conecta como seres humanos e não pode ser menosprezada. Mas é uma pena que a maior parte do país não seja capaz de sentir a mesma empatia pelos 55 mortos de Manaus.

Impressionante que a gente seja capaz de apequenar uma tragédia dessas dimensões. 55 mortos. É o terceiro maior massacre prisional da história do Brasil. 55 mortos. A chacina de Manaus deixou mais vítimas do que o atentado à mesquita de Christchurch, na Nova Zelândia, que custou 51 vidas. 55 mortos. É mais do que as 30 pessoas mortas nos primeiros dias após a explosão de Chernobyl. 55 mortos. É mais de cinco vezes o número de vítimas do atentado de Suzano. 55 mortos. Não pode haver dúvidas: é uma tragédia gigantesca – e, pior, praticada contra vidas que estavam sob a proteção do Estado brasileiro.

As mortes ocorreram em quatro empresas geridas pela empresa Umanizzare – nome bem estranho para uma corporação que trabalha no ramo mais desumanizador que existe, que é o aprisionamento de seres humanos em condições terríveis. A nota sucinta de três parágrafos com que a empresa “lamenta a morte de 55 reeducandos” mostra a pouca importância que a Umanizzare deu ao assunto, assim como o restante do Brasil.

De fato, ninguém se importou. Como é possível que essas 55 vidas possam desaparecer do noticiário em poucos dias? Que suas histórias mereçam tão pouco espaço no debate público nacional? Que suas mortes sejam incapazes, sequer, de colocar carreiras políticas em risco ou de ameaçar projetos semelhantes de privatização de presídios, como o do governador João Doria (PSDB) em São Paulo?

A pouca repercussão dessas mortes é o que garante que continuem a acontecer. As mortes foram provocadas, ao que tudo indica, por brigas internas da facção criminosa Família do Norte, mas o Estado, assim como a Umanizzare, são tão responsáveis pelos assassinatos quanto o crime organizado, porque sabiam do risco de que a matança poderia ocorrer.

Estado e iniciativa privada, contudo, podem ficar tranquilos. Sabem que podem continuar a matar, ou a deixar morrer, o que dá no mesmo, porque a maior parte da população se acostumou a enxergar as vítimas da violência brasileira – sejam os pobres e negros assassinados entre os muros das prisões, sejam os pobres e negros mortos entre nas ruas das periferias – como seres não humanos, que não merecem o mesmo direito à vida. 

Afinal, são “55 CPFs cancelados”, como afirmam os mais sinceros nas redes sociais. Expressão curiosa essa, a dos CPFs cancelados. É um perfeito retrato da plena desumanização, a redução da vida número a números, associada a uma ideia de economia (afinal, os criadores da expressão preferem falar em RGs, não CPFs). Faz pensar nos números que eram tatuados nos braços dos prisioneiros dos campos de concentração.

O cinismo dos que falam em CPFs cancelados, ao menos, serve para colocar a situação com clareza e lembrar do país desigual, injusto e assassino que somos. Ao menos soam mais autênticos do que as tantas “notas de pesar” que só servem para disfarçar o embrutecimento de quem as assina.

Imagem: Leonardo Marinho Araújo, uma das 55 vidas eliminadas em Manaus

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