O Brasil do João não é o do Jair, tá ok?

Morte do cantor encerrou semana em que governo pareceu celebrar seis meses de obscurantismo

Por Luiz Fernando Vianna, na Época

São admiráveis a sinceridade e o poder de síntese de Jair Bolsonaro. Em 4 de setembro de 2018, ele foi curto e grosso sobre o incêndio que destruíra na véspera o Museu Nacional: “Já está feito, já pegou fogo, quer que faça o quê?”. É o museu mais longevo do Brasil, com 200 anos de história.

Neste sábado 6, perguntado sobre a morte de João Gilberto, não simulou tristeza: “Uma pessoa conhecida, lamento. Nossos sentimentos à família, tá ok?”.

A partida de João foi o fecho de uma semana sombria. Para ficar apenas no campo da história e da cultura, a EBC (Empresa Brasil de Comunicação) anunciou a extinção da Rádio MEC AM, do Rio de Janeiro. Com uma canetada, o governo Bolsonaro vai acabar com a mais antiga emissora do país, criada por Roquette-Pinto em 1923, ainda como Rádio Sociedade.

Em sua “live” semanal, o presidente exaltou o que enxerga como vantagens do trabalho infantil. “Hoje em dia é tanto direito, tanta proteção, que temos uma juventude aí que tem uma parte considerável que não tá na linha certa. O trabalho dignifica o homem e a mulher, não interessa a idade.”

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), existem 2,4 milhões de crianças e adolescentes trabalhando no Brasil. E 13 milhões de adultos desempregados.

Como mostrou Guilherme Amado em ÉPOCA, o governo também vem desmontando a estrutura de combate ao trabalho escravo.

O presidente é muito seletivo quando o tema é gente. Fala bastante de “povo” para desafiar a democracia, como voltou a fazer nesta semana, no melhor estilo de Hugo Chávez e Nicolás Maduro: “A vocês, povo brasileiro, somente a vocês, eu devo lealdade absoluta”. Segundo ele, o “povo” é “muito mais importante que qualquer instituição nacional”.

Não entram aí negros, indígenas, gays, mulheres que não aceitam ser submissas, ambientalistas… Ou seja, a maioria da população.

Bolsonaro voltou a falar nesta semana que há terras demais para os povos indígenas, que já estavam aqui quando os portugueses chegaram e vêm sendo massacrados há cinco séculos.

Com o planeta em colapso por causa das mudanças climáticas, disse que os estrangeiros só falam de Amazônia porque querem tomar conta dela. Por que ele mesmo não toma conta, então?

O Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), respeitado em todo o mundo mas desacreditado pelo governo, apontou que o desmatamento na Amazônia aumentou 88% na comparação de junho de 2019 com junho de 2018. Mas o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, empenhado em destruir o objeto de sua pasta, disse na quinta 4 que há na região “desmatamento relativo zero”.

Ele está inviabilizando o Fundo Amazônia, que recebe recursos da Alemanha e da Noruega para preservar florestas. Quer parte do dinheiro para indenizar ruralistas. Salles e seu líder dizem que as preocupações ambientais atrasam o desenvolvimento econômico do país. Não conseguem – ou não querem – ver que, sem que se reduza a destruição da natureza, não haverá economia. Até a ala esclarecida do agronegócio sabe disso. O mundo está entrando em ebulição e eles querem pôr gado no lugar de matas. Bolsonaro ainda posa de macho latino brucutu, ataca líderes europeus e reage até contra o Papa.

A semana que passou foi uma espécie de celebração dos seis meses de obscurantismo. O ministro Sergio Moro, herói do “povo”, vazou uma investigação sigilosa da Polícia Federal para o presidente. E não negou a informação de que mandou investigar o jornalista Gleen Greenwald, que tem revelado as arbitrariedades da Lava-Jato. A PF, que teve autonomia durante os governos petistas e revelou casos de corrupção durante os governos de Lula e Dilma, volta a ser uma polícia política.

E isso tudo em apenas uma semana!

Quando João lançou o LP “Chega de saudade”, há 60 anos, o Brasil vivia o momento mais solar de sua história. No governo de Juscelino Kubitschek havia corrupção (muita gente não sabe, mas ela não foi inventada pelo PT) e outros problemas, mas era concreto o sentimento de que o país do futuro estava para se tornar realidade. Nos pés de Pelé e nas mãos de João, tocava-se um sonho.

O pesadelo veio em 1964, com o golpe que deu origem a uma ditadura. Aos 9 anos, Jair trabalhava duro na fazenda da família, dirigia trator e dava tiros de espingarda. Na década de 1970, servindo ao Exército daqueles tempos turbulentos, aprendeu a cultivar valores dos quais nunca se desapegou, como a admiração por torturadores.

O Brasil do Jair voltar a ser o Brasil do João significaria transformar trevas em luz. Para ser sincero e sintético: tá difícil acreditar, tá ok?

João Gilberto em uma de suas últimas apresentações no Carniege Hall, em Nova York, no ano de 2008. Ele faleceu neste sábado aos 88 anos. Foto: Jack Vartoogian / Getty Images

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