A doença nossa de cada dia

por Guilherme Carvalho, em Macaréu Amazônico

Durante a semana que passou recebi por whatsapp uma charge em que o médico perguntava ao paciente onde doía. Este, por sua vez, respondia: “a realidade”. De fato, a realidade tem se mostrado muito dura, particularmente às pessoas que definem o capitalismo como um sistema incapaz de resolver os principais males que afligem a humanidade. Para estas a destruição das políticas sociais inclusivas, o desmantelamento do Estado nacional, o recrudescimento das desigualdades, os ataques aos direitos humanos, a desconstrução da democracia e o avanço destruidor sobre o meio ambiente doem de maneira profunda.

Vivemos numa sociedade doente que custa a reconhecer-se dessa maneira. Há algum tempo atrás li sobre uma pesquisa realizada em Paris na qual os/as cientistas recolheram amostras das águas dos esgotos da capital francesa para analisá-las. Os resultados divulgados evidenciaram que os parisienses estavam consumindo quantidade expressiva de medicamentos antidepressivos, antibióticos e outros cuja venda é controlada. Certamente um  sinal de alerta importante não somente para quem vive naquela cidade. Todavia, numa sociedade capitalista (re)alimentada pela busca incessante do lucro, as doenças não se configuram num problema ou risco ao sistema posto que lhes são funcionais:

A sociedade disciplinar é uma sociedade da negatividade. É determinada pela negatividade da proibição. O verbo modal negativo que a domina é o não-ter-o-direito. Também ao dever inere uma negatividade, a negatividade da coerção. A sociedade de desempenho vai se desvinculando cada vez mais da negatividade. Justamente a desregulamentação crescente vai abolindo-a. O poder ilimitado é o verbo modal positivo da sociedade de desempenho. O plural coletivo da afirmação Yes, we can expressa precisamente o caráter da positividade da sociedade de desempenho. No lugar de proibição, iniciativa e motivação. A sociedade disciplinar ainda está dominada pelo não. Sua negatividade gera loucos e delinquentes. A sociedade do desempenho, ao contrário, produz depressivos e fracassados.¹

Na sociedade do desempenho você “tem que matar um leão a cada dia”. Lutar incansavelmente para ser o/a melhor em qualquer circunstância. Não ser passado para trás. Enfim, ser competitivo. Vencer! A propaganda é uma arma poderosa dessa “motivação” mercadológica. Estude. Trabalhe. Se empenhe. Aí vem o discurso da meritocracia para dar o verniz, dourar a pílula, numa situação que é em si mesma insustentável posto que fundada em relações completamente desiguais. Mas aí os cérebros em massa “reeducados” para a competição têm dificuldades para romper com os grilhões das “motivações” da sociedade do desempenho.O neoliberalismo é um fracasso econômico, mas poderoso dos pontos de vista político e ideológico. A sociedade como empresa moldada pela perspectiva neoliberal é o “corpo”, cujo “espírito” é constituído pelos pressupostos da sociedade do desempenho. Nesta, a solidariedade foi expurgada. Em seu lugar tão somente a redenção pela esmola, pelo paternalismo e pela demagogia. Eis algumas das raízes do bolsonarismo.

_____________________1. HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. 2a edição ampliada – Petrópolis, RJ : Vozes, 2017, p. 24-25.

Foto: O desmonte do indivíduo.

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