Dos horrores cotidianos. Por Elaine Tavares

em Palavras Insurgentes

O transporte coletivo de Florianópolis nos desumaniza. É de chorar. Agora mudaram todas as plataformas no Ticen e tá uma baita confusão, porque tem muita gente que não sabe. Hoje foi assim. Nosso ônibus para o Tirio já estava saindo e entra esbaforido um jovem negro. Senta do meu lado. Assim que o ônibus sai da plataforma e segue em frente em vez de virar ele põe a mão na cabeça, meio desesperado.

– Pra onde vai esse ônibus? Pro Tirio, respondo.
– Meu deus, meu deus, não é pra lá que eu vou. A voz com sotaque mostrava que ele não era daqui. Então eu falei, corre lá e pede para o motorista parar, antes de sair do terminal. Ele foi lá pra frente e pediu. O motorista não abriu. Disse que não podia. Eu comecei a gritar também. “Porra, deixa o cara descer. Vai ter que ir até o Rio Tavares”. Era o direto. O motorista impassível.

Os demais passageiros mantiveram silêncio.

O rapaz voltou para o meu lado, com os olhos brilhando de lágrimas. Iria perder a entrada no trabalho. Ir até o Rio Tavares e voltar daria uma hora ou mais, conforme o trânsito. E ainda tinha que ir até o continente. Não teve jeito.

Sei que os motoristas não podem parar em qualquer lugar, mas porra, estava parado no sinal. Não iria fazer diferença. E também que se fodam os fiscais. A prioridade tem de ser o ser humano. Mas, o motorista não abriu a porta. O jovem é do Haiti, ainda se adaptando na cidade. Era óbvio que ele era estrangeiro. Haveria que abrir a porta.

Quando o ônibus parou no terminal depois de mais de meia hora, ele saiu correndo, rumo ao outro direto que voltava para o centro. Eu fiquei ali parada, vendo ele entrar e sentar. Ele me acenou, de novo alegre. E eu comecei a chorar sem parar. Não sei se era por ele, pela insensibilidade do motorista, porque o Mazinho encantou, porque ando em pedaços. Sei lá. Só sei que a vida podia ser mais afável. E as pessoas também. Não custa nada. Porra de gente ruim! E entre lágrimas, fui rogando maldições.

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