Atropelamento em Valinhos: ‘É preciso responsabilizar, também, as autoridades que pregam ódio contra as organizações populares’

Por Raphael Sanz, do Correio da Cidadania

Na manhã desta quinta-feira (18) foi assassinado Luis Ferreira da Costa, de 72 anos, militante do MST, em Valinhos – distante menos de uma hora da capital paulista. Seu Luis, como era conhecido pelas mais de mil famílias que desde 14 de abril do ano passado compõem o Acampamento Marielle Vive, participava de uma manifestação por acesso à água, perto das 10 horas da manhã, na estrada que passa pelo acampamento, quando um homem acelerou sua caminhonete preta sobre os manifestantes, ferindo vários presentes, entre eles um cinegrafista que cobria o ato, e levando seu Luis a falecer. Ainda sob o calor dos acontecimentos, conversamos por telefone com a vereadora Mariana Conti (PSOL Campinas), que esteve no acampamento horas depois.

“Acontecia uma manifestação das famílias do acampamento que reivindicava o direito de acesso à água, uma questão muito séria no acampamento onde há mais de mil famílias que estão sem água. (…) Em um dado momento, uma caminhonete pegou à esquerda de uma fila de carros, reduziu a velocidade como se fosse parar, mudou de marcha e avançou no meio da manifestação. Isso foi relatado por muitas pessoas que estavam ali na hora do ocorrido e foi algo que chamou a atenção de todos”, relatou.

A principal vítima deste atropelamento em massa foi seu Luis, que desde que chegou ao acampamento teve a chance de poder estudar. “As pessoas dizem que ele andava muito feliz, pois nunca soube escrever o nome, e agora havia aprendido. É muito triste e muito indignante que isso aconteça”, declarou.

Enquanto esta matéria era editada, o Brasil de Fato apurava que a Polícia Civil havia encontrado e prendido o suspeito pelo crime por volta das cinco e meia da tarde; ele teria confessado em depoimento e em seguida foi encaminhado para uma penitenciária, onde deve aguardar julgamento. O MST convocou uma manifestação para o próximo sábado, em Valinhos, em memória de Luis e contra a violência no campo. A prefeitura disse, em nota, que essa semana começa o fornecimento de água o acampamento. Seguiremos acompanhando.

Leia abaixo a entrevista na íntegra.

Correio da Cidadania: Pouco se falou sobre o que era a manifestação na qual seu Luis acabou falecendo. O que reivindicavam as famílias e o que aconteceu?

Mariana Conti: Eu não estava na manifestação. Fui ao acampamento Marielle Vive no começo da tarde, onde muitas pessoas me relataram o que aconteceu. Houve uma manifestação das famílias do acampamento, que reivindicavam o direito de acesso à água, uma questão muito séria no acampamento onde há mais de mil famílias que estão sem água. É uma luta que vem do início da ocupação, mais de um ano atrás – começou em 14 de abril de 2018, um mês depois do assassinato de Marielle Franco. Imagine como fica a vida de mil famílias sem água todo esse tempo.

Nessa manifestação, eles reduziam a velocidade do trânsito, conversavam com as pessoas entregando panfletos que explicavam o motivo da manifestação, que estavam ali chamando a atenção para o problema da água. Também distribuíram sementes, para conscientizar as pessoas sobre a questão do direito a terra, para que a terra possa ser produtiva. E é justamente o que faz o acampamento, que chegou a uma terra improdutiva e nela produziu. Assim, essas sementes eram uma demonstração para o público de que o acampamento está produzindo.

Em um dado momento, uma caminhonete pegou à esquerda de uma fila de carros, reduziu a velocidade como se fosse parar, mudou de marcha e avançou no meio da manifestação. Isso foi relatado por muitas pessoas que estavam ali na hora do ocorrido e foi algo que chamou a atenção de todos. Uma ação em que a pessoa para, põe uma marcha mais forte e acelera em cima dos manifestantes, que deixou algumas pessoas feridas, além do caso do seu Luis, de 72 anos, que chegou a falecer.

As pessoas estavam muito indignadas pela perda de um companheiro. O seu Luis inclusive estava ali lutando pelo direito à moradia, terra, trabalho e, no acampamento, pôde voltar a estudar. As pessoas dizem que ele andava muito feliz, pois nunca soube escrever o nome e agora havia aprendido. É muito triste e muito indignante que isso aconteça.

Correio da Cidadania: Podemos afirmar então, a partir dos relatos, de que não se tratou de um acidente?

Mariana Conti: O que as pessoas que estavam na manifestação relataram é que foi uma ação deliberada da pessoa em questão. E é importante que isso seja dito, pois ocorreu um homicídio. É essencial que a polícia faça uma investigação responsável com os fatos, pois virou a principal reivindicação do momento, ao lado do acesso à água, moradia, terra e trabalho.

Isso indignou as pessoas a ponto de lhes dar forças para continuarem na mesma luta, para que aquela área seja destinada à reforma agrária e que possam ter acesso aos serviços básicos. É importante que haja uma investigação e a punição dos responsáveis. É inadmissível que uma pessoa se sinta no direito de atropelar outras no meio de uma manifestação ou em qualquer lugar. Ou seja, existe um sentimento de impunidade.

Correio da Cidadania: Já havia na região alguma animosidade ou algum histórico de ameaças?

Mariana Conti: Estamos em um momento muito delicado. Sempre houve um discurso de criminalização dos movimentos sociais, não é uma novidade. Contudo, no último período, com governos e autoridades que deliberadamente reivindicam a violência contra manifestantes, muitas vezes de forma explícita, que defendem inclusive o direito de matar, acredito que possa ter tido, sim, alguma influência nesse e em outros casos.

Estamos em um momento em que as autoridades, sejam estaduais ou federais, fazem um discurso de ódio aberto contra movimentos sociais, contra manifestantes, contra trabalhadores, e tudo cria um clima e um sentimento de que se pode matar e ser violento, que contra certos alvos se contará com a conivência de quem hoje está no poder.

Se pensarmos no interior de São Paulo, é notório. Sou vereadora em Campinas, Valinhos fica aqui na região. É uma região que tem aspectos históricos bastante conservadores, na qual o combate ao MST não é algo novo. Existe todo um discurso que não enxerga que aquelas pessoas estejam fazendo algo legítimo. Temos o discurso das autoridades, colocando o restante da população contra os sem-terra.

Essa é uma situação bem característica do momento que estamos vivendo: aqueles que atacam os direitos, que estão negando os direitos ao conjunto da população, são os mesmos que fazem discursos de ódio contra quem reivindica tais direitos. É um discurso muito conveniente para quem está encabeçando processos acelerados de retiradas de direitos. Temos uma reforma agrária que não avança, uma reforma trabalhista que gera um desemprego sem tamanho, uma reforma da previdência aumentando a desigualdade… Assim, a questão da desigualdade social tende a aumentar e com isso é preciso aumentar as lutas por direitos. E a reforma agrária é talvez a principal delas.

Voltando ao atropelamento, é preciso responsabilizar, além da pessoa que conduziu o carro, também as autoridades que pregam o ódio contra as organizações populares.

Correio da Cidadania: Você acredita que as autoridades possam conduzir uma investigação responsável sobre esse caso?

Mariana Conti: Isso vai depender da pressão que vai ser feita. Temos pessoas que estão acompanhando: advogados, militantes e também algumas autoridades que estão do nosso lado, empenhadas. Acredito que vamos precisar fazer muita pressão, inclusive reunindo material, provas que possam identificar a pessoa, para que tudo seja esclarecido. Acho muito importante que tudo venha à luz, a pessoa seja responsabilizada e não se dê um exemplo como este para outros.

É uma coisa muito séria: uma pessoa foi assassinada no meio de uma manifestação pública, o que já conforma um fato político. É muito sério as pessoas não poderem ir a uma manifestação sem a certeza de que terão a vida preservada. É uma negação de um direito básico para que haja um mínimo de democracia. Isso deveria ser uma prioridade máxima em um estado democrático, mas sabemos que só haverá justiça se fizermos muita pressão.

Correio da Cidadania: Para finalizar, vemos um Brasil que historicamente é um dos países que mais assassinam lideranças camponesas, comunitárias, sindicais e até mesmo jornalistas – pra não falar da matança que sequer entra nas estatísticas. Um país já muito violento e desigual e que parece nesse momento acentuar ainda mais suas contradições. De que maneira o campo popular pode agir para mudar essa história?

Mariana Conti: Realmente o Brasil é muito perigoso e violento para quem luta. Essa é uma característica que com certeza não é nova, mas uma marca que nosso país carrega há séculos. E para lidar com isso não podemos dar passos para trás. Precisamos ocupar os espaços da rua, da política, é muito importante o jornalismo independente, e que a gente consiga manter atuações em todos os campos. Tal tipo de ação que vimos em Valinhos geralmente vêm para amedrontar.

No acampamento Marielle Vive, por exemplo, as pessoas se lembram do assassinato da Marielle Franco. Ou seja, esse tipo de ação acontece para intimidar quem luta. Nesse sentido, vejo um grande sentimento de luto, pois é indignante perder um companheiro assim.

Precisamos, e é muito sério, criar canais de sensibilidade e identificação com as pessoas porque em grande medida esse discurso que dissemina preconceitos, boatos, ou seja, o discurso que desumaniza o povo, os movimentos sociais e quem faz militância política é um discurso que quebra a empatia da sociedade.

Na minha opinião, um dos maiores desafios é criar essa relação de empatia, capaz de manifestar indignação em cada fato que aconteça. Isso ocorreu quando a Marielle foi assassinada. Os assassinos não imaginavam o quanto o nome dela viraria um exemplo de luta, de resistência, e iria inspirar outras mulheres negras em tantos lugares. É preciso que a gente tenha dimensão de que um assassinato não pode ficar impune, que não é exemplo para ninguém e a indignação com tais fatos pode criar coisas novas. Eu acho que esse é o desafio que a gente tem.

A nossa democracia é elitista, o grande desafio do nosso tempo é aprofundar radicalmente a democracia no Brasil, uma vez que hoje ela só vale para o andar de cima. No andar de baixo, o que impera é a lei da selva.

*Raphael Sanz é jornalista e editor-adjunto do Correio da Cidadania.

Imagem: Chegada do suspeito pelo atropelamento na delegacia de Valinhos
Créditos: Igor Carvalho/ Brasil de Fato

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