“Eles são contra nossa vida porque protegemos a terra que o avô deles queria roubar”. Entrevista com Davi Kopenawa

Na semana passada, o líder indígena Davi Kopenawa esteve em Brasília, junto a uma comitiva de lideranças da Terra Indígena Yanomami, para levar a mensagem de seu povo aos órgãos do governo federal. Com o Protocolo de Consulta Yanomami e Ye’kwana em mãos, os indígenas trazem as regras gerais que devem ser seguidas por qualquer empreendimento que pretenda se instalar em sua terra e afete as comunidades situadas no território, localizado entre os estados do Amazonas e de Roraima.

por Victoria Franco, em Amazônia Real / IHU On-Line

O documento, que Davi Kopenawa definiu como “uma mãe para seu povo” — porque é à figura materna que se recorre para saber o que é necessário à manutenção da vida —, detalha as diretrizes do direito à consulta livre, prévia e informada, assegurado pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), agência da Organização das Nações Unidas (ONU), da qual o Brasil é signatário.

Junto com esse papel-mãe, os Yanomami e Ye’kwana também divulgam seu Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA), construído coletivamente entre os indígenas ao longo de três anos. Ele representa o filho, a quem se explica tudo o que é importante à cultura yanomami: a forma de tomar decisões, o jeito de proteger a terra e de gerar renda, os conhecimentos tradicionais, a saúde e a educação. A existência de mãe e filho é o que garante que haja futuro para todos.

Nos documentos, os Yanomami e Ye’kwana contam sobre os imensuráveis custos humanos e ambientais que a invasão garimpeira historicamente causou na região entre 1987 e 1990. “Nosso território foi invadido por mais de 40.000 garimpeiros. Eles não nos consultaram previamente, fizeram as coisas sem nos perguntar”, diz um trecho do documento.

Mas, infelizmente, as ameaças e as graves violações de direitos que os povos da TI Yanomami sofreram não podem ser conjugadas no passado. E diante do contexto político atual, em que o presidente Jair Bolsonaro (PSL) pretende desfazer as restrições vigentes à exploração minerária em Terras Indígenas, o cenário tende a piorar.

Davi Kopenawa, em entrevista à agência Amazônia Real, fala sobre os impactos da maior invasão garimpeira já registrada, desde a demarcação da Terra Indígena Yanomami, à saúde do meio ambiente e de seu povo. O território foi homologado em 1992, com uma área de 9,4 milhões de hectares entre os estados do Amazonas e Roraima. Davi Kopenawa estima que atualmente existam de 10 a 15 mil garimpeiros ilegais dentro da  Terra Indígena.

Eis a entrevista.

A incidência de garimpo na Terra Indígena Yanomami é um fato histórico. Há muitos anos você luta contra a invasão do território e a contaminação dos rios e da população por mercúrio. Qual é o principal desafio para seguir nessa luta, neste momento em que temos um presidente da República apoiando a mineração em Terras Indígenas?

Eu falo sobre a ameaça ao nosso povo Yanomami e Ye’kwana. O garimpo, para mim, representa uma doença ao nosso povo. Uma doença que se chama leishmaniose — ela entra no corpo da pessoa e, se não cuidar, vai comer tudo. Há muito tempo já estou lutando contra o garimpo, estou atrás da exploração. Mas eu não vou falar do histórico, esse você já sabe. Quero falar de hoje — e hoje a luta continua. Lutar é uma ferramenta para defender o direito do povo Yanomami e Ye’kwana, para defender o direito da terra-mãe, da água que corre, do rio que passa na Terra Yanomami — o  UraricoeraMucajaíCatrimani e, no Amazonas, o rio Paturi  e  Cauaburis. Eu olho para todos eles e tenho preocupação. O garimpo está sempre deixando a nossa vida triste. Vem deixando briga contra o empresário. Os garimpeiros começaram a aumentar em 2013. E eles não estão sozinhos; têm o empresário e o político por trás.

Quantos garimpeiros estima-se que estejam dentro da Terra Indígena hoje?

Eu calculo 10 ou 15 mil. Cada rio, cada calha, cada lugar tem garimpeiro — de Roraima ao Yaripo [Pico da Neblina, no Amazonas].

Como o garimpo afeta a saúde do povo Yanomami e Ye’kwana?

Primeiro, os garimpeiros colocaram as balsas. Em três calhas de rio, eles fizeram uma casa, como se fosse a aldeia deles. Fizeram uma casa de lona para dormir e começaram a encher de máquina. Máquina manual e até pequena, mas que consegue abrir muito buraco na terra. Com elas, eles cavam buraco de tatu — só que mais fundo —, derrubam barraco, põem as árvores no chão e usam mercúrio. O mercúrio envenena a grande alma do rio que passa na Terra Yanomami. Os invasores do garimpo voltaram para  Boa Vista [capital de Roraima]. E a liderança não indígena acha bom que eles estejam extraindo a riqueza da terra. Isso é muito preocupante, é muita ruindade… Estraga lugar bonito, sadio, estraga água limpa. O peixe está andando bem agora, mas passa um ano e vem a doença. O mal vem:  malária e todas as doenças que o napë [não indígena] carrega no corpo. É DST [doença sexualmente transmissível], HIV, o caminho da AIDS. Isso vai acontecer. E precisa da Polícia Federal, da Funai, do Ministério Público e aqui de Brasília, para ver se a autoridade vai entender e apoiar a luta para defender o direito do povo Yanomami e Ye’kwana. E o direito da terra. A cada ano, o número de garimpeiros está aumentando, isso é perigoso…

E com esse aumento, além das doenças que o napë traz no corpo, tem essas doenças que ficam na terra, como a contaminação do solo e do rio com mercúrio. Você percebe uma relação entre o aumento do garimpo desde 2013 e a incidência de problemas de saúde?

Estou preocupado porque as crianças que estão nascendo e crescendo perto de garimpo usam água do rio para tomar banho, para beber. Está acontecendo: a doença logo aparece na pele, que fica como se estivesse queimada de fogo. Com a contaminação dos rios, por mercúrio, a pessoa que toma banho fica com o cabelo fraco, caindo. Cabelo fica doente e o mercúrio entra na pele da pessoa. É assim que acontece na maloca Papiu e em outros lugares, acima da comunidade Waikás. Está crescendo a doença, e ela está atacando tudo. Não é só Yanomami; o peixe também está morrendo. Em 1986, com a construção da hidrelétrica de Balbina  [Amazonas], aconteceu a morte dos peixes. Agora está se repetindo, o que para nós é muito ruim. Ruim para a saúde, para convivência do  povo  Yanomami que mora na beira do rio.

Também estou pensando e falando: essa contaminação vai chegar na cidade. Porque o rio que passa na Terra Yanomami vai para  Boa VistaCaracaraíManausBelém… E vai engrossando, engrossando, até chegar no mar. A doença uma hora chega, napë vai ver. O Yanomami não vai morrer sozinho não. Vai morrer Yanomami, contaminado pelo garimpo, e peixe também. Vai aparecer a doença na cidade e a alma do rio vai ser contaminada. A água que o napë toma parece limpa porque eles colocam remédio, mas na verdade não está boa para tomar. Eu não vejo isso, mas eu sonho. Sonhei e vi que a ruindade está se aproximando para atingir a nossa comunidade, e a cidade também. Bolsonaro, nosso chefe que o homem da cidade escolheu, eu nunca conversei com ele. Chefe do governo federal é nome bonito, no papel. Para escutar parece forte, mas ele só é forte se protege o país, que está em cima da terra. Quando a pessoa sabe administrar a nossa terra-mãe, a gente acha inteligente, honesto. Mas  Bolsonaro é neto daqueles que há 500 anos vieram fazer sofrer os povos indígenas. A gente passou por tudo isso, e agora voltou.

Neste governo, qual a importância de vir a Brasília para comunicar o que querem para o futuro de vocês?

É importante a comissão Yanomami que está aqui em Brasília. Nós somos um povo, mas cada um tem uma língua — muito rica a cultura yanomami. Eu sou Yanomami, mas ainda tem Ye’kwanaXirixanaXamatari e outros estão incluídos nesse nome [Yanomami] também. Nós elaboramos um protocolo de consulta. É para o povo da cidade esse papel. Com ele, tem que fazer reunião, discutir, ouvir outra opinião, escutar o pensamento do povo Yanomami antes de sair derrubando tudo. Por eles, fazem sem nos escutar. A arma deles são esses projetos de construção, projetos de lei. Mas tem que ser planejado o que ele vai plantar, o que ele vai usar na terra — ou embaixo dela. Fazer um projeto de mineração, de barragem, de estrada, de criação de gado, tudo isso ele quer. Mas nos consultar, ele não quer. É por isso que não respeita, porque a vida do povo Yanomami atrapalha a destruição do planeta.

O governo brasileiro pensa em destruir a natureza, em fazer projeto para ameaçar a floresta. Então decidimos fazer um protocolo de consulta para escrever o que a gente pensa, o que estamos vendo e sonhando. Para deixar claro como queremos a terra protegida, a água limpa, a saúde boa, a língua viva para continuar a criar nossos filhos. Eu conversei com a comunidade Watori-kiCatrimani, com o pessoal da Surucucu, com parceiro  Ye’kwanaAjarani, do Xamatari e outros. Todos nós pensamos juntos para escrever. Primeiro fizemos o PGTA [Plano de Gestão Territorial e Ambiental]. PGTA é uma urihi [terra-floresta]. Urihi é uma floresta amazônica — Brasil inteiro já foi um dia também. PGTA é como a urihi porque traz a saúde, sabedoria, o sonho bom, ar limpo, a chuva para molhar a Amazônia e fazer viver o planeta Terra. Viver sem consultar, sem conversar, sem ouvir outra opinião é a arma do governo para matar a floresta e colocar a grande mineração, a barragem e o desmatamento no Brasil. Arma para criar boi e fazer plantação de soja, de cana e de outras coisas que já se tem plantado.

E além dessa arma do governo, que é a caneta, que é fazer projeto de lei e de exploração, o governo Bolsonaro está querendo ampliar as permissões para o armamento da população. Como você acha que isso afeta o povo Yanomami e os outros parentes no Brasil?

A filosofia do governo parece uma bússola. Conhece bússola? É como se fosse um relógio, mas que vai apontando para uma direção — nesse caso, a direção do dinheiro. Pensamento deles é assim. Para nós, arma de fogo não é bom.

Por que o pensamento deles é como uma bússola? Por que vai se norteando pelo interesse econômico?

O pensamento dele, para matar a terra, vai apontando para a riqueza. “Ah, eu quero isso, eu quero madeira”, eles pensam. E a bússola dele é a destruição. Porque tudo bem derrubar a floresta se for por dinheiro, esse é pensamento dele. Eles querem o que está embaixo da terra. Estão de olho nas pedras valiosas do subsolo. É por isso que Bolsonaro está falando muito; quer que os outros pensem como ele pensa. Mas arma de fogo não é proteção, é guerra. É para fazer guerra contra a floresta, e fazer guerra contra os povos indígenas. Não é para caçar, para comer, que eles querem arma. Querem chumbo forte para conquistar a cidade, para explodir nossos corpos. Estou achando que a guerra do passado vai acontecer de novo. Isso que eles querem: que a gente brigue entre nós para não sobrar ninguém para proteger a terra. É uma armadilha. Eles só querem que tenha  napë  [não indígena] vivo. Nós, indígenas, atrapalhamos o pensamento dele. A gente luta, proíbe garimpo, proíbe desmatamento e denuncia, pedindo apoio para quem gosta de proteger a terra também. Vamos reagir sem medo porque temos direito de defender a vida da terra, das águas, a vida da floresta. A gente faz isso, mas não é só para a vida do povo Yanomami não. É pela vida do povo da cidade também.

E os indígenas, os parentes que apoiam o Bolsonaro, que se convencem com o discurso da mineração? O que você, como um importante xamã e liderança política Yanomami, diria para eles?

O jovem pode não saber direito o que é ruim para ele. Isso porque ele nunca viu a grande destruição, a grande poluição, a grande fome. Então os políticos tentam manipular os novos Yanomami. Tentam fazer acreditar que é mais fácil viver como napë, cheio de matohipë [mercadoria]. Mas a comida da cidade acaba, porque precisa de dinheiro para ela. A luz da cidade acaba. A televisão, o celular, a festa, a bebida também.

É mercadoria a curto prazo e destruição do território, num caminho sem volta, a longo prazo.

Mercadoria você pega na loja e depois acaba, ou vira lixo. A vida na floresta é livre. Aqui, na cidade, é presa pelo dinheiro. Se o jovem pensa que vai ter muita matohipë, pensa que o governo vai dar dinheiro para ele, está enganado. E a maioria do meu povo Yanomami não acredita mesmo nisso, tem conhecimento que o governo sabe enganar. Que eles querem o indígena caindo na rede deles, como se cai o peixe. E peixe que cai na rede, morre — não tem comida, não tem lugar para andar. Eles são contra nossa vida porque protegemos o pedaço da terra que o avô deles já queria roubar. O avô deles matou índio, destruiu a terra, mas eu consegui buscar a terra dos Yanomami de volta — esse é o meu papel. O governo não está respeitando a Constituição Federal. Não está lendo o que foi escrito. Ele esqueceu e agora está enganando milhares de pessoas. É mentira que está preocupado com o povo da cidade. Na verdade, só se preocupa em pegar nióbio, um mineral mais caro que ouro e diamante. Eles são muito mohote [ignorantes].

Tem mais algo que você queria completar nessa fala, Davi?

Eu vou completar um pouquinho a palavra, porque quero esclarecer o que é Protocolo de Consulta e PGTA. Protocolo de Consulta é mãe — assim que eu sonho e penso. Você consulta ele sobre tudo: terra, água, montanha, vida. Agora PGTA é o filho, que você faz e ensina a caçar. Precisa circular, andar muito, para pegar chuva, alegria, riqueza e trazer para nós, para fazer com que a gente viva bem no futuro. Nós escrevemos, discutimos, amarramos bem amarrado; está pronto. O nosso filho, PGTA, está cobrando do governo o erro que fizeram há 500 anos. O erro que matou a floresta, os indígenas, a caça… Que destruiu a água. Agora, índio Yanomami escreveu, para mostrar pra ele. Para ele relembrar os erros do passado e saber o que está devendo ao meu povo e à terra.

Davi Kopenawa denuncia os crimes ambientais em evento em Manaus, em 2017. (Foto: Alberto César Araujo/Amazônia Real)

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