No UOL
Uma rejeição para a história. O veto que o Senado impôs a Jorge Messias é uma das derrotas política mais vergonhosas da carreira de Lula. As eleições que Lula perdeu não entram na chave da vergonha porque, nos três casos, a vergonha estava do outro lado. Lula perdeu eleições das quais saiu maior a cada derrota. Depois, foi eleito e reeleito e escreveu seu nome como o melhor presidente que o Brasil já teve. Mas o cenário político mudou muito desde 2014 e talvez Lula tenha deixado de perceber que não estamos mais no espaço das conciliações simplesmente porque o lado de lá hoje se chama fascismo. Como conciliar com o fascismo?
Lula parece acreditar que ainda existe espaço para fazer a gestão das crises que vivemos. A derrota de Messias deve ter indicado ao presidente que esse espaço não existe mais. Tudo o que temos é extrema-direita e a possibilidade de radicalizarmos para a esquerda. Se Lula não aproveitar a bizarra circunstância criada pelo Senado para virar à esquerda então, de fato, pouca chance ele terá de se reeleger no final do ano.
O nome de Jorge Messias para o STF era, sob o ponto de vista da democracia e do progressismo, uma aberração. Basta dizer que era o ministro bolsonarista André Mendonça quem mais parecia animado com a indicação. Ou bastava que escutássemos as respostas dadas por Messias aos senadores. Por que exatamente um presidente que diz estar ao lado do povo faria a indicação de alguém como Messias depois de já ter indicado Zanin?
Hora de dar muitos passos para a esquerda e colocar uma agenda radical nas ruas. Escutar o que dizem as feministas, o que diz a classe trabalhadora (incluídas mulheres e trabalho realizado dentro dos lares). Hora de apontar e nomear o fascismo onde ele emerge e de se colocar em aberta rota de colisão com ele.
Escolher o nome de uma mulher negra progressista para a vaga do STF e deixar que o senado faça com ela o teatro da sabatina. Colocar a vergonha onde ela deve estar: na articulação de forças entre senadores mais preocupados com eles mesmos do que com essa nação. Desenhar um STF menos masculinista. Se colocar abertamente ao lado daquelas que terão a capacidade de reelegê-lo. Engajar politicamente e de forma apaixonada a população. Engajar mulheres de todas as idades. Engajar quem ainda acredita em um Brasil menos injusto e sem oligarquias. Lula perdeu contato com aquelas e aqueles que construíram sua vitória em 2022. A imagem da caminhada rampa acima com uma multiplicidade de pessoas que compõem o Brasil envelheceu mal. A boa notícia é que dar passos para a esquerda pode resgatá-las mais uma vez. Ficar parado nesse vazio de um centro putrefato é o caminho mais curto para a derrota no fim do ano.
Não há mais espaço para articulação com extremistas. Se é para perder, que a derrota venha colocando em pauta reivindicações do campo da esquerda real e não de uma esquerda fictícia que atende pelo nome de centro e se acha capaz de fazer a gestão do caos. Não há gestão possível para o caos que o fim do capitalismo criou. Gerir o caos é dar as mãos ao fascismo. Será que a derrota que Messias impôs a Lula deixou isso claro ou precisaremos de outras para finalmente enxergar? Infelizmente não há mais tempo para aprendermos. É agora ou nunca.




