Mandetta vaiado do início ao fim na Conferência Nacional de Saúde

Sob gritos de “O Bolsonaro é miliciano” e “Fora, fascistas”, Mandetta também atacou e disse que só agora há democracia no Brasil; Leia também: estudo comprova que não há níveis seguros para agrotóxicos mais consumidos; tratamentos extras de saúde para os deputados já custaram quase R$ 100 milhões em 2019

Por Maíra Mathias e Raquel Torres, da Newsletter do Outra Saúde

Um homem a caminho da cadafalso. Essa foi a impressão que o ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta passou ontem, ao participar da abertura da 16ª Conferência Nacional de Saúde. É verdade que houve um breve momento de calmaria assim que ele chegou ao grande salão montado para receber cinco mil pessoas no Pavilhão de Exposições do Parque da Cidade, em Brasília. Mandetta falou longamente com uma portadora de necessidades especiais. Mas não demorou muito para que os conselheiros de saúde de todo o país demonstrassem seu descontentamento com o governo de Jair Bolsonaro.

Ao serem chamados ao palco, todos os secretários da equipe de Mandetta foram vaiados (com exceção da titular da Sesai, Silvia Waiãpi). Gritos de “Ele não; ele nunca” e “Fora fascista” se alternavam às vaias, que acompanharam o ministro ao palco, e apareciam sempre que se fazia uma menção a ele.  Por seu turno, Mandetta mexia no celular, bocejava, entrelaçava as mãos ou as passava no cabelo com vigor. Só se animou ao acenar para a delegação de Mato Grosso do Sul, seu estado. À certa altura, seguranças cercaram o palco para fazer uma barreira humana entre o ministro e o povo, deixando a cena ainda mais estranha já que ao fundo se lia “Democracia e Saúde” – tema da conferência. 

Ao longo de maisde uma hora, os variados discursos das autoridades presentes só faziam adensar a tensão. Quando finalmente a hora de o ministro falar chegou, durante aproximadamente 13 minutos, Mandetta hostilizou e foi hostilizado. Começou falando que democracia significava ouvir e debater o contraditório, para chegar rapidamente ao… mensalão. Destacou que o relacionamento entre Executivo e Legislativo já se pautou por uma mesada. “A compra do parlamento é a compra do espírito da democracia”, disse, completando que o parlamentarismo de coalizão teve como consequência uma base que entregava o discurso contraditório em troca das benesses do poder, resultando na maior crise política da história do país. De acordo com ele, só agora o país chegou “ao momento da democracia”, e “pela primeira vez o Ministério se faz sem toma lá, dá cá”. Mandetta disse isso com três ex-ministros de saúde – Agenor Álvares, Artur Chioro e Saraiva Felipe – sentados ao lado do lugar onde discursava.

Depois emendou na Venezuela: disse que doenças como difteria e sarampo “nascem da maior ditadura da América do Sul”, deixando de lado as amplas evidências de que, por aqui, os brasileiros não estavam vacinados a taxas adequadas para enfrentar o sarampo, por exemplo. Depois disso, as vaias foram tantas que o presidente do Conselho Nacional de Saúde, Fernando Pigatto, interviu para tentar acalmar o público – mas Mandetta dispensou a interferência, dizendo que “há uma diferença entre escutar e ouvir, entre ver e enxergar”. “O século 21 vai ser fantástico em saúde”, disse Mandetta sobre os avanços tecnológicos, dizendo que diante das “armas” que a ciência apresenta, teremos duas escolhas: olhar para trás e se utilizar do sistema de saúde e dos espaços que ele oferece para “pequeno, míope, tacanho remoermos os nossos ódios” ou “gigantes, altruístas” ser defensores de uma história.

Nesta hora, o ministro citou um dos patronos da ciência brasileira – Carlos Chagas – e disse que o país não poder apontar o dedo para “aqueles que procuram soluções para os seus problemas”; segundo Mandetta, o fato de uma doença ser negligenciada parece não ter nada a ver com a indústria farmacêutica; as doenças são negligenciadas pelo próprio Brasil. Disse que o Ministério optou pela atenção primária – contra “devaneios”. E, claro, mencionou indiretamente Cuba, dizendo que ‘não mais os trabalhadores serão explorados’. “Os princípios de universalidade, integralidade tão alentados aqui, tão facilmente apropriados por todos, questiona a todos com equidade. Como fazer equidade num país assimétrico? Trazer da letra morta, do grito histérico, da comoção pequena da política para a realidade? É preciso fazer com que a nossa atenção primária possa levar para o Nordeste e a região Norte os maiores investimentos”, afirmou. Prometeu que não vai fazer política de saúde olhando as próprias eleições, mas as próximas gerações. “As urnas nas últimas eleições são aquelas a quem nos devemos a nossa satisfação”, disse. Terminou o discurso lembrando aos participantes que sua vinda à etapa nacional da 16ª Conferência tinha sido custeada com recursos públicos. “Procurem ser técnicos”, afirmou. “Aqueles que fizerem mau uso da coisa pública que sejam recebidos na suíte Moro imperial de Curitiba” foi a última coisa que Mandetta disse aos mais de três mil delegados em Brasília, que se reúnem até a quarta-feira, sem cobrar nenhum centavo, para debater e fiscalizar os rumos do SUS. 

NENHUMA SEGURANÇA

Uma pesquisa encomendada pelo Ministério da Saúde e realizada pelo Instituto Butantã mostrou que agrotóxicos são tóxicos ao meio ambiente e à vida em qualquer concentração – mesmo quando usados em doses muitíssimo mais baixas do que as recomendadas pela Anvisa. Foram examinados 10 pesticidas largamente usados no Brasil: glifosato, malathion, abamectina, acefato, alfacipermetrina, bendiocarb, carbofurano, diazinon, etofenprox e piripoxifem. 

Os agrotóxicos foram diluídos em água contendo ovas fertilizadas de peixes-zebra (que são 70% similares genetigamente aos seres humanos), e em seguida e os embriões foram analisados. Três dos dez pesticidas (glifosato, melathion e piriproxifem) causaram a morte de todos os embriões em apenas 24 horas de exposição, independentemente da concentração do produto utilizada. Os outros sete pesticidas causaram mortes em maior ou menor porcentagem, também em todas as concentrações testadas. E mesmo entre os que sobreviveram houve malformações o problemas neuromotores. O Ministério da Saúde não comentou os resultados.

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A SAÚDE DOS DEPUTADOS

Um levantamento do Estadão mostra que a Câmara já gastou R$ 93 milhões com assistência médica e odontológica de deputados e servidores, só entre janeiro e junho deste ano. É quase o mesmo que se gastou durante todo o ano passado (R$ 100 milhões). Mas esse valor não inclui os planos de saúde, e sim o que os planos não cobrem. Como o tratamento dentário do deputado Marco Feliciano (Podemos-SP), que custou R$ 157 mil.

Já a assistência dos planos é uma das despesas fixas mais altas da Câmara. O último contrato, assinado em 2017, custa R$ 445 milhões por dois anos de vigência. Também há um mini-hospital na Casa, com 70 médicos. 

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A SAÚDE DOS DEPUTADOS

Um levantamento do Estadão mostra que a Câmara já gastou R$ 93 milhões com assistência médica e odontológica de deputados e servidores, só entre janeiro e junho deste ano. É quase o mesmo que se gastou durante todo o ano passado (R$ 100 milhões). Mas esse valor não inclui os planos de saúde, e sim o que os planos não cobrem. Como o tratamento dentário do deputado Marco Feliciano (Podemos-SP), que custou R$ 157 mil.

Já a assistência dos planos é uma das despesas fixas mais altas da Câmara. O último contrato, assinado em 2017, custa R$ 445 milhões por dois anos de vigência. Também há um mini-hospital na Casa, com 70 médicos. 

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PROIBICIONISMO

A capa do Le Monde Diplomatique este mês é sobre a proibição de drogas no Brasil. O jornalista Júlio Delmanto escreve que o principal risco atual no que diz respeito às políticas de drogas é o próprio governo federal, “como um todo”. Não só pelo que prega e defende como, principalmente, pelas suas origens e bases de sustentação política e econômica: “Milicianos, indústria das armas e da segurança, traficantes de armas, religiosos gestores de comunidades terapêuticas, policiais e militares (39 kg!) corruptos: esses setores sustentam tanto o governo quanto a proibição, por motivos sobretudo econômicos”. Há vários outros textos. Como este, que fala de criminalização e racismo.

“SUS BRITÂNICO”

“Todo mundo, rico ou pobre, mulher ou criança, poderá usar este serviço. Não se cobrará por nada, salvo algumas exceções. Não se exigirá nenhum tipo de seguro. Mas não se trata de uma instituição de caridade. Todos vocês estão pagando, como contribuintes, e servirá para acabar com as preocupações econômicas em tempos de doença”. Esses dizeres estamparam milhões de panfletos distribuídos em 1948 para explicar o que era o recém-criado NHS, o sistema público de saúde britânico, que inspirou a criação do SUS. A matéria do El País foca em como, 70 anos depois, o sistema é defendido com unhas e dentes pela população. Tanto, que mesmo  políticos de extrema-direita estão conscientes “de que flertar com a ideia de introduzir um elemento de gestão privada no NHS equivale a dar um tiro no pé”.

RECONHECIMENTO

A FAO publicou na sexta um documento inédito que reúne todas as evidências científicas contrárias a produtos comestíveis ultraprocessados, endossando a associação entre doenças crônicas e o consumo de produtos como biscoitos, salgadinhos e refrigerantes e mostrando suas deficiências nutricionais

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