Labirintos da razão de massa. Por Luiz Marques

A esquerda precisa fazer da razão de massa sujeito da história, não objeto da extrema direita

Em A Terra é Redonda

1.

Elias Canetti (1905, Bulgária – 1991, Suíça), prêmio Nobel de Literatura e trânsito em distintas áreas de saber, famoso pelo estudo sobre Massa e poder (1960), traz observações úteis acerca do que agora se chama “bolhas”. Na campanha eleitoral em marcha, correntes progressistas devem orientar-se por uma interpelação de persuasão, em vez de hostilidade às bases da intolerância. Devagar com o andor.

O ideário extremista de direita recusa o paradigma da verdade a partir da ciência e do conhecimento e prospecta uma narrativa que, à luz dos critérios tradicionais de averiguação da falseabilidade, soa um nonsense. Mas para quem está imerso em uma aglomeração fanatizada, a “razão de massa” pode substituir símbolos sacros por um pneu ou um celular na liturgia. É curioso ao revés de improvável.

Jean-Paul Sartre afirma que nunca se sentiu tão livre como durante a ocupação nazista na França. Na condição de homme de pensée mantém ativa a “autonomia de juízo”, apesar da terrível restrição às liberdades públicas. Nelson Mandela, nos vinte e sete anos nos cárceres do Apartheid, continuou “o soberano de seu destino”. Tais condutas compõem o repertório de resiliências subjetivas de qualquer humano.

No romance o Auto-da-fé (1935), de Elias Canetti, um erudito filólogo se refugia na biblioteca sem contato físico ou social com o mundo. Seu desfecho é trágico e surpreendente. O caminho até a realidade não passa pelos atalhos antissociais ou idiossincráticos que levam à loucura. Para o intelectual judeu sefardita, indivíduos temem a alteridade dos estranhos e se constituem em massa para afastar o medo do desconhecido – e não se perder na esquina que os isola de toda sociabilidade.

A massa surge “de forma aberta ou fechada”. Quando a opção é pelo crescimento sem fronteiras, começa com cinco ou dez pessoas e se expande em uma única direção. As pessoas têm uma meta, e ela se apresenta com uma antecedência à sua vocalização. Quando a escolha é por fronteiras de pedras ou alvenaria origina instituições totalitárias – conventos, hospícios, quartéis, penitenciárias, colégios internos. A renúncia ao expansionismo tem sempre em vista uma durabilidade e a domesticação do ímpeto de multiplicação das mentes e corações, nos eventos.

2.

Religiões formam comunidades de crenças compartilhadas para desenvolver o sentimento de identidade comum e igualdade coletiva. O “Sermão da Montanha”, no Novo Testamento, acontece em um espaço aberto no qual a multidão ouve a admoestação à cerimônia no templo oficial. O cristianismo paulino, idem, rompe as cercas do judaísmo enquanto nação e tribo para abraçar toda a humanidade. O budismo manifesta desdém pelo sistema de castas da antiga Índia, enquanto os cismas sintomatizam a pulsão para derrubar barreiras erguidas por convenções.

As despersonalizações massivas anseiam a destruição de vidraças, estátuas, quadros, vasos. Vide a invasão de trumpistas ao Capitólio em 6 de janeiro de 2018, em Washington, para impedir a diplomação presidencial de Joe Biden pela vitória na urna. Ou o vandalismo de bolsonaristas na Praça dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023, em Brasília, insatisfeitos com a votação que ungiu o presidente Lula da Silva. A Queda da Bastilha segue inspirando os atos de cólera incontida da grande massa, que ao protestar vivencia a sensação de força e paixão animais.

A massa incita a descarga das diferenças privadas que opõem os indivíduos – local de moradia, propriedade, posição social na hierarquia, cargo ocupado. Distâncias são suspensas na fusão emocional com o grupo. Pode-se tocar os torcedores do mesmo time ao vibrar com um gol; ou vingar a derrota com as brigas de desforra das torcidas ao deixar o estádio. Somente na massa é possível ao homem libertar-se de um temor do contato corporal. A descarga permite a comunhão de iguais.

Contudo, o fantasma da perseguição se instala na consciência dos que integram um fenômeno de massa. Não importa que os de fora da bolha portem-se com rispidez ou simpatia, são concebidos como inimigos com a intenção de cortar os laços de afinidades eletivas existentes. As estratégias de “desconstrução”, do filósofo argelino Jacques Derrida, ajudam na complexa tarefa para desmistificar e decompor as convicções e ilusões contrafactuais, tijolo por tijolo. Com paciência.

O programa subjacente à massa é crescer, adensar-se, fomentar igualdade, achar uma direção político-ideológica. Os afetos variam e se combinam, sendo que um prevalece como dominante. Jair Bolsonaro, apoiador das torturas sob a ditadura militar, estimula a “massa de acossamento” para atingir o objetivo de exterminar os opositores democráticos. O gesto da arminha é autoexplicativo, prenuncia uma execução das autoridades juradas pelo golpe frustrado. As digitais não mentem.

3.

No verbete incluído em Palavras-chave (1983), do crítico literário galês Raymond Williams, lê-se que o termo massa deriva do francês masse e do latim massa – conjunto de materiais que se molda ou funde. O significado vem de amassar a massa, algo amorfo e indistinguível ou agregado e denso. Nos séculos XVII e XVIII, indica a “massa corrompida”, a “massa do povo”. No séc. XIX, no plural, usa-se para depreciar as “manifestações de massas”. No séc. XX, rejeita a “sociedade de massas” e o “gosto das massas” para enxovalhar os ideais da democracia social.

A “massa de inversão” em que as ovelhas resolvem atacar os lobos, na metáfora que caracteriza a luta dos oprimidos para depor as classes dirigentes opressoras, é incorporada no Maio de 1968. No Brasil, as mobilizações populares forjam uma Constituição cidadã, em 1988. Frequentam greves e dissídios de trabalhadores, movimentos sociais pela terra e pelo teto, de mulheres, de antirracistas e LGBTs. Motivados por seus aguilhões, os revoltosos metabolizam por longo período o sofrimento até decidir-se pelas ações de rua. A esperança poupa para o futuro.

Elias Canetti elenca também a “massa festiva” regada a comes e bebes em um congraçamento pela colheita na agricultura. Momento em que os trabalhadores do campo descontraem com a breve fartura. A vida e o prazer têm a duração das festividades. O equivalente na cidade é o carnaval, que suspende proibições nos desfiles das escolas de samba. Danças e rituais convidam para o ano seguinte.

No duplo sentido de inversão e de festiva, o vocábulo massa possui conotação positiva no pensamento socialista, e negativa no conservador. Num, a massa incita a imaginação dos líderes políticos; e noutro, evoca uma “malta” traduzida do alemão Meute por “bando, corja ou matilha”. Nesta acepção, remonta aos caçadores da pré-história unidos para pegar uma presa ou fugir de um predador comum, movendo-se por emoções viscerais para a caça, a vingança ou a guerra.

A disputa atual opõe o projeto do direito a ter direitos em um país com soberania nacional ao retrocesso civilizacional em um regime de exceção contra o trabalho. Não à toa, apenas o candidato à presidência Luiz Inácio Lula da Silva defende o fim da escala 6×1; os demais rendem-se à ordem da superexploração.

O desafio da esquerda e dos democratas é fazer da razão de massa o sujeito da história, em vez de objeto da extrema direita, desconstruindo as manipulações da canalha. É o que Fernando Haddad protagonizou, com brilho, no debate da Rede Bandeirantes.

*Luiz Marques é professor de ciência política na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ex-Secretário de Estado da Cultura (Governo Olívio Dutra).

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