“Não passou [no Revalida] vai arranjar outra profissão ou então ficar como enfermeiro, ganhando menos”

Outra Saúde / IHU On-Line

“Não passou [no Revalida] vai arranjar outra profissão ou então ficar como enfermeiro, ganhando menos, é uma proposta pra eles”: o comentário de Bolsonaro em entrevista à Leda Nagle na semana passada não passou desapercebido e, ontem de manhã, o Coren-SP (Conselho Regional de Enfermagem de SP) publicou uma nota direcionada ao presidente para esclarecer “o verdadeiro valor e as competências” da profissão. “Também causa profunda indignação, junto à inferiorização da categoria, o presidente da República tratar a desvalorização como algo natural, ao citar os baixos salários da categoria, quando na verdade deveria combatê-la, na busca por mais justiça social”. Mais tarde, o Cofen (Conselho Federal) em conjunto com todos os conselhos regionais de enfermagem (Cofen e Coren) publicaram em conjunto uma carta aberta: “Vinda do mais alto mandatário da nação, [a declaração] é inaceitável”. Os profissionais da enfermagem são a maior força de trabalho na saúde no Brasil.

Aliás… O que aconteceu com a ideia do ‘Mais Saúde‘? Logo após sua indicação para o Ministério da Saúde, ainda no ano passado, Mandetta disse em entrevista ao Globo que este deveria ser o nome do Mais Médicos, justamente porque era preciso pensar nos outros profissionais. “Eu não gosto do nome do Mais Médicos. Prefiro Mais Saúde. Você negligencia enfermagem e está dizendo que não precisa de um fisioterapeuta, de terapeuta ocupacional, de nutricionista, de psicólogo, de odontólogos, de uma série de profissionais. Você precisa começar pelos essenciais: enfermeiro e médico”, disse, garantindo que haveria dinheiro. A responsável pelo Mais Médicos no governo BolsonaroMayra Pinheiro, disse o mesmo no El País. Meses depois, nasce o Médicos pelo Brasil

Uma análise

O médico e professor da UFRGS Alcides Miranda escreveu longamente na Carta Maior sobre o Médicos pelo Brasil, deixando um pouco de lado os discursos e promessas do governo para se concentrar na MP 890, que institui o programa. “Uma leitura atenta deste documento revela a iniciativa de reciclagem da estratégia programática anterior (PMM) sob nova “marca” e pela via de seu agenciamento em uma institucionalidade mais centralizada e vertical, sob a égide do Direito Privado“, afirma. Ele critica o recorte dos locais priorizados, enfatiza o caráter privatizante baseado em uma nova figura – a Agência para o Desenvolvimento da Atenção Primária à Saúde – e ainda fala da estratégia para a fixação de médicos: “A dinâmica mercantilpara o provimento e fixação de trabalho médico não observa e nem diminui iniquidades sociais e de acessibilidade aos serviços de saúde, pelo contrário, tende a exacerbá-las. Vincular organicamente uma política pública de provimento e fixação de trabalho médico a uma racionalidade empresarial ou a demandas corporativas de mercado, mesmo em se tratando de serviços de Atenção Primária à Saúde, não parece ser uma ideia responsável”.

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