Semente Crioula: sobrevivência e resistência para o campesinato

Duas experiências da base do MPA colocam a ciência e a tradição de mãos dadas

Marcos Corbari, Brasil de Fato

Uma equipe da Rede Soberania e do Jornal Brasil de Fato foi convidada no final do mês de março a conhecer algumas experiências de camponeses que integram a base do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) a respeito da utilização e multiplicação das sementes crioulas. Nessa viagem visitamos – acompanhados de técnicos da Cooperfumos e de Pesquisadores da Embrapa Clima Temperado convidados – duas unidades produtivas. Uma delas onde encontramos um legítimo guardião de sementes, camponês que planta e multiplica sementes crioulas e varietais resultantes de processo de seleção massal; na outra, conversamos com um camponês que já ascendeu a uma categoria mais avançada no processo, utilizando o espaço da sua unidade produtiva para experiências de melhoria e seleção genética, sendo já considerado um guardião melhorista pelo movimento, uma espécie de “cientista camponês.

Antes de sair a campo, o técnico Josuan Schiavon, vinculado à Cooperfumos – cooperativa camponesa composta que dedica seus esforços a projetos que priorizam a mudança de matriz produtiva nas regiões de produção do tabaco, inserindo possibilidades de diversificação ao modelo hegemônico que ainda impera –, explicou que a relação entre o camponês e a semente crioula está na base dos princípios do MPA: “Trata-se de uma estratégia do movimento fomentar a semente crioula através do programa camponês, que é o nosso instrumento político norteador, que propõe uma agricultura ambientalmente responsável e economicamente sustentável”, explica. A relação de proximidade entre o camponês e a sua semente está alinhada ao surgimento da agricultura, ao que Schiavon cita como marco inicial, “berço da civilização”.

“Eu planto primeiro pensando no alimento, em produzir o que vai na mesa da minha família”

O primeiro destino da viagem nos remeteu ao município de General Câmara, localizado no ponto culminante onde encerra a região do Vale do Rio Pardo e inicia a região Metropolitana de Porto Alegre. Ali, na comunidade de Boqueirão, no início do ano, o camponês José Carlos Lucas plantou em sua Unidade Produtiva, cerca de 8 quilos de sementes de milho crioulo em uma lavoura de aproximadamente meio hectare. Aplicando pequena quantidade de adubo e ureia – em torno de 100 quilos, segundo o camponês – obteve no final do processo 130 cestos colhidos no espaço, projetando um número em torno de 120 sacos por hectare se implementada uma área maior. Tratava-se de milho derivado de um varietal produzido pela Oestebio (cooperativa camponesa de Santa Catarina) que foi trazido à região na primeira edição do PAA/Sementes, em 2010, tendo se adaptado muito bem na região. Daquele primeiro lote de semente “Catarina” um camponês de Encruzilhada do Sul plantou novamente e multiplicou as sementes, fazendo a seleção tradicional direto na lavoura, aprimorando ainda mais a genética da semente pelo método de seleção massal.

A alimentação animal na propriedade é outro fator que levou José Carlos a deixar de lado as sementes geneticamente modificadas e priorizar as crioulas. “Os animais não gostam de comer (o milho transgênico). Comem se não tem outra coisa. Mas aí tem que colocar algum concentrado junto, porque não se nutre o bichinho”, explica. Dois casos são utilizados como exemplos pelo camponês, demonstrando a sabedoria que reside na simplicidade: na primeira experiência “apartou” 9 frangos para engordar e abater, deixando sob alimentação baseada no milho transgênico, enquanto na segunda deixou outros 9 animais tratados somente com milho crioulo, observando que enquanto esse segundo grupo “pegou peso” e desenvolveu mais gordura – o que valoriza a peça e dá sabor à carne -, o primeiro grupo continuou até o fim do experimento com praticamente no mesmo peso que possuía antes.

José Carlos estima que 90% dos vizinhos estão plantando transgênicos, mas destaca que os relatos de animais que ficam doentes ao se alimentar desse tipo de produto só vem aumentando. Outra referência é a necessidade cada vez maior de utilizar produtos químicos na lavoura para manter o nível da produção, porque “o transgênico invés de aumentar está produzindo menos, ficando muito dependente de grandes quantidades de produto químico para manter o volume de produção”, afirma. “Eu não planto mais milho transgênico, de jeito nenhum, mas tem gente que planta só pra fazer dinheiro, não se interessa com a qualidade do que as pessoas ou os animais vão comer”, finaliza, com o semblante sério, contrariado pela resistência de amigos e vizinhos em retornar aos métodos tradicionais de produção que priorizam a qualidade de vida, a saúde, a preservação da vida no solo e a sustentabilidade do meio ambiente.

Antes de convidar a sentar à mesa para almoçar – onde o único alimento que foi servido e não era produzido pelo próprio camponês e sua família era o arroz – José Carlos nos leva até as ovelhas que são criadas pelo filho e compartilha com elas algumas tigelas de milho. “Olha só o gosto com que o bicho come desse milho”, afirma, sorrindo, numa perfeita cena de integração entre ser humano e a natureza a sua volta.

“Com a seleção buscamos atender as necessidades da terra, do clima, das nossas condições de produção”

Seguindo em direção à região central do RS, chegamos à Arroio do Tigre, mais precisamente no Sítio Baixo, onde reside Leomar Guerino Fiuza e sua família. Há mais de uma década dedica-se a plantar, selecionar, melhorar e compartilhar sementes de milho crioulo junto à base do MPA. Tornou-se uma espécie de “cientista camponês”. Utilizando varietais produzidos pela Embrapa e também aqueles que vem das unidades de beneficiamento de sementes vinculadas às cooperativas camponesas no RS e SC, destaca a importância para o pequeno produtor em manter a autonomia em relação à produção de sementes: “Não é só a questão de utilizar (as sementes crioulas) na propriedade, é ter a compreensão de que ao fazer a seleção e buscar a melhoria nós vamos buscando uma variedade que atenda melhor as nossas necessidades, as particularidades do nosso clima, a geografia da nossa área de plantio”, explica, mostrando uma lavoura de milho próxima de sua casa, em terreno pedregoso, acidentado, em aclive. “Uma grande empresa vai produzir uma semente adequada para condições gerais, vai levar em conta as necessidades dos grandes produtores, e não as demandas específicas dos pequenos, de gente como nós, que tem como prioridade as necessidades da nossa unidade produtiva, que busca plantar para produzir alimento e não as comodities que convertem a semente em moeda financeira”, explica o camponês.

A dedicação de Fiuza e sua família em relação do Milho Crioulo surgiu da necessidade de conseguir selecionar semente de melhor qualidade para compartilhar com os demais camponeses da região. O que no início foi uma ação natural, dando continuidade a uma tradição milenar desempenhada pelos camponeses desde os primórdios da agricultura, logo iria ganhando status de ciência: “Tivemos a oportunidade de buscar variedades de milho da Embrapa, de fazer o cultivo dentro de experiências orientadas e também fomos aprendendo e melhorando os nossos procedimentos”, contou ao mostrar uma carroçada de milho onde estão presentes espigas resultantes de diferentes cultivares, – – que na sequência passarão pelo processo de seleção – e também sementes crioulas que são utilizadas tradicionalmente pelos camponeses da base do MPA.

“Selecionamos nos últimos tempos entre 10 e 12 variedades e estamos buscando apurar a variedade ideal, o que ainda deve demorar uns três anos para alcançar”, explica, ao mostrar como procede a seleção e os critérios que leva em conta para levar de volta ao solo, onde acontece de fato o encontro entre a alta ciência representada pela semente que vem da Embrapa e a tradição milenar camponesa representada pela semente legitimamente crioula.

O cuidado ao preparar a terra, a semente, o tempo certo para o plantio, até a fase da lua é levada em consideração, ando um status de arte para a produção camponesa: “Não podemos estar plantando de qualquer jeito, tem que cuidar a polinização, o cruzamento, a questão da época do plantio, a lua para a colheita”, explica Fiuza, para justificar os índices de produtividade em uma lavoura camponesa que bate de frente com qualquer grande produtor. “Nossa amostragem por mil plantas e peso de semente pode chegar em condições adequadas de lavoura e adensamento de plantas a padrões bem elevados, até 160 sacas por hectare”, garante.

A transição para a agroecologia ainda é um desafio a ser enfrentado. Atualmente Fiuza ainda utiliza cerca de 4 sacas de adubo químico e de ureia por hectare: “Para um pequeno produtor ainda está no limite aceitável, a pequena propriedade ainda consegue suportar isso, porque para um terreno como o nosso (pedregoso em aclive) a produção 100% orgânica ainda é difícil, mas com o tempo vamos chegar lá também. A transição agroecológica é um dos objetivos do Programa Camponês, que incentiva a substituição gradual de todos os insumos químicos utilizados no plantio e venenos empregados no manejo da lavoura por opções ecologicamente adequadas, que não agridem o meio-ambiente, nem a saúde do produtor ou de quem vai se alimentar da produção.

A respeito dos pequenos que insistem em manter o plantio de transgênicos nas suas propriedades, tentando imitar o modelo do agronegócio, o dirigente camponês é assertivo e busca no exemplo dos animais domésticos a resposta que a vida dá em relação à violação do ciclo natural: “Um vizinho resolveu plantar um pedaço de terra perto de casa com semente transgênica. Ele tinha um grupo de gansos no terreno, que atravessava o milharal transgênico e seguia até o outro lado da unidade produtiva onde estava plantado o milho crioulo”, relata. “Se os bichos preferem comer do milho crioulo ao transgênico, porque nós seres humanos devemos optar por esse milho na nossa alimentação? Isso é uma coisa que se nós pudermos olhar para a natureza a fundo, vamos compreender situações e obter resultados que estão ao nosso alcance no dia a dia”, completa.

“A história mostra que as sementes crioulas sustentaram o mundo”

Três pesquisadores da Embrapa Clima Temperado, sediada no município de Pelotas, na região Sul do RS, acompanharam as visitas, conheceram as unidades produtivas e compartilharam saberes com os camponeses. Irajá Ferreira Antunes, Eberson Diedrich Eicholz e Gilberto Peripolli Bevilaqua, embora estejam vinculados a diferentes campos de pesquisa, são unânimes em reconhecer a importância dos trabalhos desenvolvidos pelos camponeses em relação às sementes e à defesa de sua autonomia, com especial atenção ao milho – semente tão simbólica ao continente americano – e frisaram a beleza da tarefa executada pelos denominados “guardiões e guardiãs de sementes”.

“Historicamente o mundo sempre teve como sustentação o que chamamos de variedades crioulas e, por isso, a humanidade sempre dependeu de alguns agricultores que hoje chamamos de ‘guardiões de sementes’”, pontua Antunes. Para ele, até mesmo a indústria – se observada a fundo – tem na sua base as sementes crioulas e o trabalho dos guardiões. “Na propriedade do senhor José Carlos Lucas nós observamos uma semente que está sendo utilizada a relativamente a pouco tempo, mas é certo que ele está fazendo parte desse processo de sustentação ao utilizar uma variedade crioula”, comenta, remetendo a primeira experiência camponesa visitada. “Já quando visitamos o Leomar Guerino Fiuza, nós encontramos alguém que está desenvolvendo um milho novo, e com isso está atingindo um determinado nível de autonomia”, ressalta, justificando a valorização da figura do camponês melhorista e do trabalho que ele realiza há mais de década na sua unidade produtiva.

Antunes propõe ainda a reflexão a respeito da instabilidade climática tem se notado de forma mais incisiva nas últimas duas décadas: “A gente deve lembrar que nesse momento estamos passando por um período de grandes mudanças climáticas e, historicamente, na medida que as variedades crioulas vão se adaptando às mudanças que sofre o ambiente, prospectam uma maneira que nós – seres humanos – temos de contornar, que são muito sérias”, alerta o pesquisador. “A gente conhece várias histórias de variedades que foram perdidas por conta dos problemas de clima, então, na Embrapa, nós podemos ser uma forma de reserva dessas sementes crioulas”, apontou.

Para Antunes, a oportunidade de acompanhar as visitas às unidades produtivas e conhecer o trabalho dos camponeses os desafia enquanto pesquisadores à “pensar numa forma de poder ajudar no processo todo e também mostrar como esse trabalho está sendo feito ali com resultados muito positivos”. Indagado a respeito da importância do legado que os camponeses deixam para a ciência, não titubeia: “Eles desenvolveram muito do que utilizamos; se hoje temos todo um aspecto técnico por trás da pesquisa, é importante levar em conta que o que realmente vale é o momento em que a semente chega no campo, ali que vai se comprovar o tipo de comportamento que ela vai ter e o que tipo de utilidade o agricultor vai ter com ela”.

“É preciso ter um respeito muito grande pelo trabalho do camponês para com suas sementes”

Eberson Diedrich Eicholz – que dedica-se à pesquisa de grãos no sistema orgânico e mais recentemente tem trabalhado com recursos genéticos do Milho – relembra que dentre as mais de 150 variedades que integram a coleção de milho subtropical, localizada na Embrapa Clima Temperado, grande parte foi obtida diretamente com os camponeses. O trabalho é conjunto, tendo caminho de ida e volta, o que resulta no chamado “melhoramento participativo”, onde o agricultor que cedeu sementes para as pesquisas da Embrapa depois recebe de volta amostragens desse material para voltar a plantar e multiplicar.

“Nós temos um respeito muito grande pelo trabalho que os agricultores desenvolvem nas suas propriedades, selecionando de acordo com as necessidades específicas da sua localidade -, explica o pesquisador. O milho ganha um importante suporte ao receber a intervenção do camponês melhorista, “que vai sempre selecionar a semente que melhor se adapta a sua propriedade, desenvolvendo características específicas que são mais importantes para aquela região”, explica Eicholz, “constituindo uma série de características como porte, duração do ciclo, resistência ao fatores climáticos, demanda de insumos, entre outras”.

Um aspecto que é destacado na cadeia participativa que coloca lado a lado o trabalho dos pesquisadores da Embrapa e as ações do Guardiões de Sementes é a verificação que a instituição faz a respeito dos valores e referências nutricionais que desenvolvidos em cada variedade, voltada tanto para a alimentação animal quanto para a alimentação humana. Assim se tem a possibilidade de estimar não apenas a melhor forma de cultivo, mas também os meios mais adequados de utilização do produto depois de colhido.

“Podemos pensar em um programa de semente forjado em elos que se sustentam e se complementam”

“Hoje as condições estão dadas para organizar um programa de sementes a partir das variedades crioulas, como por exemplo no caso do milho, sobre o qual nós mais conversamos hoje durante as visitas realizadas”, aponta Bevilaqua. Na exemplificação proposta pelo pesquisador, um programa assim deve se estabelecer como uma corrente que se forma por muitos elos que se reforçam entre si: “Para que um programa de sementes funcione, temos que contemplar várias questões com um cuidado todo especial para que os elos trabalhem em harmonia e possam funcionar em conjunto”, explica. “Na medida que algum elo dessa corrente se rompa, todo o programa de sementes corre risco de não funcionar”, completa.

O trabalho do camponês que se propõe a cultivar e multiplicar as sementes que recebe – como José Carlos Lucas – representa um primeiro elo, enquanto o trabalho de um guardião melhorista – como Leomar Guerino Fiuza – representa um segundo elo no programa. “O guardião é aquele sujeito que produz a semente, é o responsável pela conservação da genética, mas sozinho acaba não tendo o devido reconhecimento em relação ao que significa um programa no todo”, acrescenta. Um novo elo na cadeia é representado pelo produtor de sementes, que no caso dos camponeses e camponesas assistidos pelo MPA, são contemplados pela Unidade de Beneficiamento de Sementes Crioulas Jose Gilberto de Oliveira Tuhtenhagem, localizada em Encruzilhada do Sul.

“A UBS vai ter a responsabilidade de beneficiar a semente, transformar a semente genética em semente comercial”, comenta o pesquisador. Uma vez beneficiada, a semente se torna passível de ser compartilhada com a base do movimento, chegando novamente às mãos de camponeses e camponesas que – já em um novo elo da corrente – vão renovar o processo através do plantio, cultivo e colheita. Para Bevilaqua, é possível visualizar todos esses elos funcionando de forma integrada em um programa, assim viabilizando um volume de produção grande, com qualidade e ao alcance de muitas famílias camponesas.

“Estamos envolvidos nesse trabalho, junto com o MPA, reconhecendo que já vem sendo realizado há alguns anos e assim organizando um programa de sementes com o qual pretendemos suprir essa demanda”, relata Bevilaqua, citando as variedades crioulas de milho como o melhor exemplo, porém deixando em aberto ainda a possibilidade de que se contemplem também as variedades resultantes da pesquisa que estejam aptas a preservar a autonomia do camponês para reproduzir a sua própria semente, diferente do que acontece com as sementes comerciais, transgênicas e híbridas que impõem impeditivos ao agricultor de exercer essa autonomia. “Nós temos como marca em nosso trabalho na Embrapa Clima Temperado o reconhecimento aos saberes tradicionais, a valorização do conhecimento dos camponeses”, finaliza o pesquisador.

“Produzir sementes com autonomia, visando qualidade com alta produtividade e baixo custo”

Outro dirigente do MPA que se dedica ao programa das sementes, através das atividades da Cooperfumos, é Miqueli Schiavon, que das visitas realizadas destaca o aspecto central que o movimento dá em relação a essa pauta: “Essa é uma questão prioritária para nós: como podemos notar ao visitar uma unidade produtiva camponesa, se não existir a semente não existe a produção de comida, tampouco a produção animal”. Para ele a semente está muito ligada ao íntimo dos camponeses, o que levou o MPA desde a sua fundação a discutir meios de acesso à semente para os pequenos. “Uma das estratégias centrais do nosso plano camponês – que é a síntese política que estamos desenvolvendo – é a agrobiodiversidade e dentro dela o tema das sementes crioulas”, explica.

“No RS, o MPA confiou à Cooperfumos a tarefa de desenvolver o trabalho com as sementes, preocupado em desenvolver variedades junto com os camponeses e junto com a pesquisa pública da Embrapa, levando em conta a adaptação ideal aos seus locais e viabilizando produtividade que esteja a contento das características de cada unidade produtiva”, explicou o dirigente, afirmando ainda que “Não adianta nós termos sementes de alta tecnologia se os agricultores não tiverem condições de implementá-las”. O objetivo é facilitar o acesso dos pequenos agricultores às sementes, de modo que permaneçam com elas, que desenvolvam autonomia em relação a genética, que sejam empoderados ao longo do processo. Quanto àqueles que por qualquer motivo não estejam dispostos à participar do processo das sementes, Miquéli garante que outro objetivo é ter volume suficiente a disposição para que também possam ser atendidos acessando de forma justa a sementes de qualidade com alta produtividade e baixo custo de produção.

“A semente é um bem comum, não deve se transformar em moeda”

Entre os camponeses e camponesas a relação com a terra e a semente remetem a ancestralidade, aos costumes e tradições que desenvolveram a agricultura como fonte de alimento para a humanidade e não como lastro econômico. “Hoje, para o pequeno está ficando muito difícil comprar um saco de milho em uma agropecuária, o valor está muito alto”, reclama Fiuza. A saída para essa situação é a produção e a partilha de sementes livres por parte da ação dos guardiões e melhoristas camponeses: “A semente é um patrimônio da humanidade que está sob a guarda do camponês, é um bem coletivo, não é justo que seja considerada propriedade de uma empresa”, esclarece.

José Carlos também faz raciocínio semelhante: “Aqui a gente pensa primeiro em produzir o alimento que vai pra nossa mesa, o excedente é que vai para ser trocado ou vendido”, conta com orgulho mostrando a autonomia que se pode alcançar dentro de uma pequena unidade produtiva gerida pelos métodos do campesinato. Trata-se do princípio da soberania alimentar, que parte da unidade produtiva camponesa e vai se estabelecer através do trabalho coletivo enquanto classe para atender as próprias necessidades e na sequência as necessidades da classe trabalhadora urbana. “Não é certo produzir pensando primeiro no dinheiro, o certo é pensar primeiro em produzir um alimento puro, bom. Depois sim, o lucro vai ser uma consequência”, ensina com sabedoria e simplicidade.

O milho é um exemplo citado por Eicholz, uma vez que é produzido em praticamente todas as propriedades. “Mas se você comprar a semente no mercado o custo é bastante elevado, então quando o agricultor produz a própria semente ele tem benefícios práticos tanto no custo, quanto na quantidade de insumos que precisa aplicar no cultivo”. E o benefício simbólico? Este remete a uma palavra decisiva: autonomia: “O agricultor tem que tentar se manter o mais autônomo possível, porque isso possibilita que tenha mais estabilidade na propriedade, mantenha a viabilidade das culturas com que trabalha e, quanto menor custo a tendência é que tenha mais independência em relação a interferência de elementos externos”, completa.

Beviláqua reafirma o testemunho por parte da Embrapa sobre o trabalho que vem sendo desenvolvido há muitos anos com os guardiões e as sementes crioulas, apontando para um futuro promissor: “Este segmento vem crescendo, tomando corpo e ganhando muita importância, já se pode notar uma demanda crescente por sementes crioulas”, aponta o pesquisador, citando como fontes de informação o que se percebe através das feiras de sementes, das feiras de consumo, bem como pelo contato com outras organizações e segmentos voltados à pesquisa desse tema.

No mesmo sentido, Antunes cita os momentos em que o grupo de pesquisadores tem tido a oportunidade e percorrer diferentes pontos no estado onde as iniciativas de preservação e multiplicação das sementes crioulas tem sido efetivadas, seja através de coletivos camponeses, associações e instituições vinculadas a setores públicos. “É muito importante esse reconhecimento ao trabalho diário do camponês junto das sementes que compõem o cotidiano de produção na pequena propriedade”, finalizou.

Schiavon, no final do dia, reafirmou a visão do campesinato a respeito da interpretação do valor simbólico da semente: “Assim como o meio ambiente como um todo, ao semente não pode ser considerada uma moeda simplesmente, ela não é um lastro monetário, ao contrário ela deve ser considerada como um bem comum da humanidade”. Partindo desse princípio o dirigente do MPA justifica todo o esforço desenvolvido em relação ao tema das sementes, não apenas no aspecto formal que se refere à produção como instrumento jurídico, mas construindo condições de empoderamento para o agricultor camponês a partir da sua própria realidade “onde se possa comungar da semente como um bem comum, partilhado por todos”, arrematou.

Edição: Marcelo Ferreira

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