Jair, o bode: quem vai tirá-lo da sala? Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

“A democracia é um sistema que faz com que nunca tenhamos um governo melhor do que o que merecemos”. (Bernard Shaw)

Quem será a próxima vítima? Ontem foi Brigitte Macron, primeira dama da França. Agora foi a vez de Michelle Bachelet, alta Comissária de Direitos Humanos da ONU e de seu pai, o brigadeiro Alberto Bachelet, preso, torturado e assassinado na prisão pela ditadura Pinochet. Jair Bolsonaro os agrediu: elogiou a tortura e fez apologia do crime. Suas declarações públicas, especialmente contra mulheres, além de nos envergonharem diante do mundo, permitem desconfiar que ele é o bode colocado pelo capital financeiro no Palácio do Planalto.

Existe uma versão amazonense da velha e conhecida história do bode, criada no final de 1966, quando o então ditador Castelo Branco visitou as obras de casas populares da Companhia Habitacional do Amazonas (Cohab-Am) no Parque Dez. O marechal estranhou aquelas casinhas em construção com um quarto apenas, sem espaço para colocar camas. Olhou as paredes nuas e perguntou ao governador Arthur Reis:

– Onde estão os ganchos?

Ele era cearense e, como a maioria dos amazonenses, gostava de dormir em rede. Ordenou que fossem providenciados os armadores.

O bode amazonense

Os ganchos foram colocados, mas Castelo Branco não viu o resultado, pois morreu antes de 1969, quando foi inaugurado o bairro batizado com o seu nome. Foi aí que as redes de dormir com os locatários dentro começaram a cair, as paredes construídas com muita areia e pouco cimento não sustentavam os ganchos. Meu cunhado Bibi, morador da Rua 3, que nunca mentiu, contou chorando ao jornalista Nonato Garcia, o Nogar, que seu filho, Paulo Kokai, ainda bebé, fora uma das vítimas. Queria indenização.

Em sua coluna “Nogar – Tudo Vê, Tudo Informa” publicada em O Jornal, Nonato Garcia contou uma parábola com sabor local, tendo como cenário o conjunto habitacional do Parque Dez. As casas estavam caindo, as ruas com crateras enormes, muita lama e sujeira, lixo, urubus, tudo capturado pelas lentes do Pinducão, um dos maiores repórteres fotográficos do Amazonas, discípulo do finado Folhadela. Os moradores insatisfeitos reclamavam. Uma família exigiu indenização na Justiça e anexou ao processo as fotos e o texto de Irandy Ferreira.

O advogado da Cohab-Am invocou o parágrafo “d” de uma cláusula contratual que obrigava o morador a guardar em sua casa um animal por tempo indeterminado. Algemaram um bode na sala do reclamante. Chamá-lo-ei de Jair, embora esse não tenha sido o nome dado por Nogar. Jair quebrou móveis, fez cocô e xixi na sala e exalou uma catinga insuportável. A fedentina incomodou também a vizinhança. A reivindicação de todos passou a ser, então, retirar o Jair da sala. A Cohab-Am negociou: removeria o bode se a família desistisse da indenização, o que foi feito. Ninguém reclamou mais.      

Essa história é sempre narrada com o objetivo de ilustrar a melhor estratégia para solucionar um problema: criar outro ainda maior que, depois de resolvido, faz com que a gente esqueça o menor, embora o transtorno deste último permaneça insolúvel. O bode do Brasil, hoje, é Jair Bolsonaro.

Risco Bolsonaro

O Brasil está cheio de problemas: a economia caminhando a passo de cágado, o PIB anêmico, a estimativa de um crescimento pífio, o desemprego aumentando, a Previdência falida, as conquistas sociais em retrocesso, a violência e a insegurança crescente nas cidades e no campo, o corte brutal de verbas na educação inviabilizando as universidades, os hospitais desaparelhados e caindo de podre, a floresta pegando fogo, as terras dos índios invadidas.

As perspectivas são desanimadoras. O mercado financeiro já fala no chamado “risco Bolsonaro”, segundo o insuspeito Valor, o veículo mais importante de economia, finanças e negócios do país, que atribui às declarações públicas do presidente a responsabilidade por enxotar os investidores: “Comitês de investimento e conselhos de administração de grandes fundos estão cada vez mais resistentes a alocar no Brasil por causa do que chamam de ‘retrocesso civilizatório’. Querem passar uma camada de verniz sobre Bolsonaro para fingir que ele é refinado e educado.

Mas cada dia que passa, a incontinência verbal de Bolsonaro desgasta a imagem do Brasil e nos isola ainda mais do mundo. De forma alucinada, ele ataca seus próprios aliados externos, gente de direita, como é o caso de Emmanuel Macron, presidente da França, cuja esposa foi vítima de torpe comentário, e do presidente do Chile, Sebastián Piñera, que saiu publicamente na defesa de sua adversária, Michelle Bachellet, ex-presidente do Chile.

É certo que as falas chulas e truculentas do presidente desviam a atenção sobre a situação do senador Flávio Bolsonaro proprietário de 37 imóveis, segundo levantamento nos cartórios do Rio divulgado pelo Estadão. Ele e seu sócio Queiroz estão mais enlodaçados que a Cohab-Am do Parque Dez em 1969. Além de desviar a atenção com agressões gratuitas, o presidente intervém na Polícia Federal, no Coaf e no Ministério Público para proteger o filho, com cargas de kriptonita que deixam o ministro da Justiça, Sérgio Moro com cara de quem comeu e não gostou.

Perícia psicológica

As declarações de Bolsonaro foram avaliadas pelo colunista da Folha SP, Jânio de Freitas como as de “uma pessoa inculta, ignorante, violenta. A incompreensão dele para a função que lhe foi atribuída só se pode compreender como um traço de anormalidade mental, psíquica” – diz o jornalista que gostaria muito de ver Bolsonaro submetido “a um exame, a uma perícia psicológica”.

Nesta sexta (6) o advogado cearense Antonio Carlos Fernandes concretizou a proposta, com uma ação popular, que pede “pelo bem comum da nação brasileira a interdição do atual presidente da República” e que o juiz “determine a produção de prova pericial nomeando uma equipe de expertos para atestar ou não a sanidade mental” de Bolsonaro.

Independente da insanidade ou por isso mesmo, Jair Bolsonaro passou a ser usado como bode colocado no Palácio do Planalto, como já sugeriu a jornalista Eliane Brum. Quem colocou Bolsonaro lá está se aproveitando para implantar seu programa. Não sabemos ainda quem vai tirá-lo de lá, nem como. Mas ele faz tanta merda, tão insuportável, que muita gente vai aplaudir o general Mourão, quando e se ele assumir a presidência para implantar o mesmo programa antissocial que o bode não conseguiu. Livres, enfim, da fedentina.  

Da mesma forma que o Nonato Garcia (NOGAR) registrou a história do bode, também outro competente jornalista, Carlos Garcia, deveria ter uma coluna com a abreviatura de seu nome para comentar as declarações de Bolsonaro e de seus ministros que estão se “bodificando”, como Paulo Guedes, o chucro ministro da Economia, cujas declarações em Fortaleza (CE) enxovalharam o conceito de verdade: “É tudo verdade o que o presidente falou. A mulher do Macron é feia mesmo” disse, sob risos nojentos da plateia. Como pegou mal, ele disse que era uma brincadeirinha.

 Isso só mostra o quanto Bolsonaro é miserável – disse a senadora chilena Isabel Allende defendendo Brigitte Macron e a ex-presidente Michelle Bachelet da agressão de Bolsonaro e de seus ministros. Ela repetiu, com razão, o que outras personalidades de diferentes países já disseram: “O Brasil não merece esse presidente”. 

Bernard Shaw escreveu que numa democracia nunca temos um governo melhor do que o que merecemos. Tudo bem, mas precisava ser tão incrivelmente pior? 

P.S. – O Taquiprati deseja sucesso na cirurgia da hérnia que vai fazer amanhã. Longa vida para Bolsonaro para que pague todos os seus pecados aqui na terra.

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