Manuela Carneiro da Cunha: É preciso resistir em todos os níveis

Por Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena, no Tutameia

“É um momento como nunca vimos no Brasil. É a primeira vez que há um discurso tão agressivo contra o ambiente e os povos indígenas. Isso nunca foi apoiado explicitamente. Agora é incentivado, é explícito. É totalmente diferente de qualquer governo anterior, mesmo na ditadura militar. Mais de 200 povos, mais de 200 línguas estão sendo ameaçadíssimos”.

O alerta é da antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, em entrevista ao TUTAMÉIA (acompanhe no vídeo acima). “É uma festa para quem já fazia isso e está fazendo com muito mais ímpeto. É um equivalente da licença para matar no pacote proposto de combate ao crime. Faz parte do mesmo panorama e é muito, muito grave”, diz.

Graduada em matemática, Manuela é uma das cientistas mais importantes do país. Enveredou pela antropologia e se notabilizou pelos estudos dos povos indígenas. Fundou a Comissão Pró-Índio de São Paulo e presidiu a Associação Brasileira de Antropologia. Professora da USP e da Universidade de Chicago, publicou livros como “Direitos dos Índios” (Brasiliense, 1987). Participa da Comissão Arns e segue pesquisando sobre a riqueza da diversidade no país.

Na entrevista, ela trata muito de diversidade. Fala da agricultura, de batatas, de guaraná, de mandioca. Dos saberes indígenas, da filosofia dos povos, de jeitos originais de pensar o viver. Critica o acordo com os EUA sobre a base de Alcântara, em discussão no Senado, e as ofensivas de mineradores em terras indígenas. Pede a união dos democratas e, aos militares, faz um apelo à tradição de Cândido Rondon (1865-1955) no Exército.

“A tradição dos positivistas que ajudaram a República a nascer era de que os povos indígenas são parte importantíssima do Brasil e devem ser respeitados. A atitude geral de Rondon enobrece o Exército. Rondon aparece nas fotos demarcando as fronteiras do Brasil com os índios segurando os marcos e as bandeiras”, declara.

Manuela fala das “coisas absurdas” que estão acontecendo no país. Avalia que as declarações de Bolsonaro “foram entendidas como licença para invadir, grilar, para madeireiro tirar madeira ilegal. Botar fogo. O dia do fogo foi uma homenagem explícita ao Bolsonaro”.

Na sua visão, os ataques aos indígenas são parte do panorama geral no país.

“Há uma visão de que há uma licença geral para fazer o que já se fazia, mas agora com respaldo do governo. Há apoio explícito a invasores, garimpeiros, madeireiros. Isso é novidade. Há o esvaziamento de todas as agências de fiscalização. O Ibama, o ICMBio. A PF não acode bem. Há ataques diretos a servidores da Funai. É uma coisa assustadora. Os servidores dos órgãos de fiscalização estão com medo, com toda a razão. Estão sendo atacados fisicamente e estão numa situação de absoluto abandono do governo. Os novos dirigentes são mais hostis aos povos indígenas e ao ambiente. Estão esvaziando os orçamentos”.

Manuela desmonta o discurso que aponta os indígenas como obstáculos ao desenvolvimento e à segurança nacional. Trata da invasão de garimpeiros em terras indígenas, dos 20 mil que entraram em terras ianomâmis. “Inexplicavelmente tiraram os postos de fronteira”, diz.

“É um mundo ao contrário. É balela essa história de que índio ameaça as fronteiras e que estão sentados em cima das riquezas”, afirma. Elalembra dos debates na Constituinte, onde a questão da mineração em terras indígenas também foi discutida. Naquele momento, além dos índios e de seus tradicionais defensores, a causa foi defendida pelos geólogos:

“Eles diziam: ‘Em mineração não existe segunda safra; temos que ter reservas minerais para as próximas gerações’. Acho paradoxal que se fale dos estrangeiros de olho nos nossos minérios e que o ministro das Minas e Energia vá ao Canadá dizer que vamos abrir a mineração para estrangeiros em terras indígenas. Alguma coisa está errada aqui”.

A antropóloga fala da visão original que os indígenas têm em relação ao território que habitam:

“Eles têm uma visão anticolonial do território. Ser colonialista é submeter todo que está em volta aos interesses do mais poderoso, do colono. É ter o homem como centro, como mestre e dono de toda a natureza e tudo deve concorrer para o bem-estar humano. Isso leva a entender esse território como fonte de recursos para homens e mulheres. Os povos indígenas têm claramente a noção de que eles não são os únicos donos ali. Eles compartilham o território com outros seres, inclusive espíritos. Os bichos, as plantas, a água têm direitos sobre aquele mesmo território e têm direito a buscar o seu bem estar. Isso torna a exploração do território uma coisa completamente contraditória com o que o agronegócio faz, que é tirar o máximo”.

Manuela condena a intenção do governo Bolsonaro de contestar os efeitos da convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, que prevê a necessidade de consulta aos povos indígenas sobre medidas que os afetam, como grandes obras. A mesma questão, lembra, atinge os quilombolas, também implicados no projeto da Base de Alcântara, uma tradicional região de quilombos.

Sobre Alcântara, ela cita o documento lançado pela Comissão Arns e declara:

“O território está sendo cedido aos EUA sem nenhuma possibilidade de transferência de tecnologia, com os EUA tendo a prioridade e o poder de vetar terceiros, tendo controle de acesso. Que soberania é essa? É gravíssimo. E tem também a questão quilombola, irresolvida”.

E a resistência a tudo isso?

“Há muita gente alarmada e resistindo. Todo o dia tem uma nova bomba. Está todo mundo exausto com esse pesadelo. É uma vergonha porque o Brasil nunca foi assim. É preciso resistir em todos os níveis. É preciso fazer uma grande aliança de centro, democrática, para que isso não se perpetue”.

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