Hora de combater o nazismo da prática

por Fausto Salvadori, em Ponte Jornalismo

Policias militares abordaram uma turma de amigos em um bar de Jundiaí, na Grande SP, e levaram o único rapaz negro do grupo, Carlos Eduardo dos Santos Nascimento, o Cadu, que nunca mais foi visto desde então – mas isso não é nazismo.

Duas vítimas brancas de um roubo disseram ter reconhecido a dançarina negra Bárbara Querino como autora do crime “por causa dos cabelos” e isso bastou para ela ser denunciada, presa e condenada – mas isso não é nazismo.

Também negro, Rafael Braga se tornou o primeiro condenado nas manifestações de junho de 2013, por portar um litro de Pinho Sol confundido com explosivo, e depois disso foi condenado a 11 anos de prisão por uma acusação sem provas de tráfico de drogas – mas isso não é nazismo.

De todos as 6.220 pessoas mortas pela polícia em 2018, 75,4% eram negros, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública – mas isso não é nazismo.

Jair Bolsonaro afirma que a cavalaria dos EUA foi “competente” por ter dizimado a população indígena local, livrando os norte-americanos desse “problema”, e anos depois compara quilombolas a animais em pleno Clube Hebraica do Rio de Janeiro.

Mas nada disso é nazismo.

Para ser considerado nazismo, só mesmo se tiver na trilha sonora a ópera de Richard Wagner que foi usada por Charlie Chaplin em O Grande Ditador e uma citação textual aos discursos do ministro da propaganda de Hitler, Joseph Goebbels, como fez o ex-secretário da cultura Roberto Alvim. O engraçado é que Alvim nem precisou atacar, ferir, prender ou matar qualquer pessoa para ser considerado nazista. Bastou usar a simbologia e a indumentária.

Mas é isso o que pega. Porque a opinião pública brasileira parece tratar o nazismo como uma questão de adereços, não de práticas e ideias.

O que não faz o menor sentido. Se a gente resolver olhar para o nazismo e perguntar o que fazia dele algo tão horrendo, ninguém vai dizer que eram as suásticas ou a música de Wagner. A essência do horror nazista é a noção de que algumas pessoas são menos humanas do que outras e de que basta pertencer a um grupo errado para perder o direito à dignidade, à liberdade e à vida (nada muito diferente, afinal, do que o colonialismo e a escravidão haviam feito por séculos antes de Hitler, mas essa é outra história). O nazismo fazia algo muito parecido com o que o Brasil fez com Cadu, Rafael e Bárbara. Algo muito parecido com o que fez com as 4.634 pessoas negras assassinadas em 2018. E que está fazendo agora, e vai fazer amanhã.

O nazismo se parece muito, enfim, com muita coisa que Jair Bolsonaro, Olavo de Carvalho, Wilson Witzel e João Doria costumam defender e praticar, mesmo que não façam nada disso ao som de Wagner nem com citações a Goebbels.

Bem que o Brasil podia começar a sentir pelo nazismo da prática a mesma indignação que manifestou, na semana passada, por uma performance de nazismo na teoria.

Imagem: Justificando

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