De Olho na História (II) — Elizabeth Teixeira, 95 anos, uma camponesa marcada pela resistência

Protagonista do documentário “Cabra Marcado para Morrer” foi líder nos anos 50, ao lado do marido João Pedro, das Ligas Camponesas; após o assassinato do marido por latifundiários, com onze filhos, não se curvou a ameaças, na luta pelo trabalho digno e pela reforma agrária

Por Maria Lígia Pagenotto, em De Olho nos Ruralistas

No ano do golpe militar, 1964, foi procurada pelo cineasta Eduardo Coutinho (1933-2014) para que sua vida e a do companheiro fossem registradas em um documentário. Com a chegada da ditadura, as filmagens foram interrompidas, sendo retomadas em 1981. O filme que conta a trajetória do casal, e no qual ela é protagonista, “Cabra Marcado para Morrer”, foi lançado em 1984, com muita repercussão — em 2015 foi reconhecido como um dos melhores documentários brasileiros por críticos de cinema. Para muitos, o melhor.

Elizabeth Teixeira é a segunda personagem retratada na série De Olho na História, que teve início com Margarida Maria Alves, sua conterrânea e a quem conheceu. Mora hoje em João Pessoa, em uma casa que ganhou de Eduardo Coutinho.

Nascimento: 13 de fevereiro de 1925, na fazenda Anta do Sono, em Sapé (PB), município distante cerca de 50 quilômetros da capital paraibana.

Família: filha de um fazendeiro e comerciante, Elizabeth, branca, não teve apoio da família quando decidiu se relacionar com João Pedro Teixeira, negro, operário e pobre. Aos 16 anos, saiu de casa para morar com ele. Grávida do segundo filho, foi para Jaboatão dos Guararapes (PE), onde ele ajudou a fundar o Sindicato dos Trabalhadores da Construção. Por conta de seu envolvimento com questões trabalhistas, João tinha dificuldade de arrumar emprego. Passando necessidade, a família voltou para a Paraíba, onde recebeu apoio de um irmão de Elizabeth. Foi lá que o casal liderou a Liga Camponesa do estado. Elizabeth e João Pedro tiveram onze filhos.

‘EU CONTINUO A LUTA’, DISSE APÓS A MORTE DE JOÃO PEDRO

Principal atividade: pouco depois do assassinato do marido, em 02 de abril de 1962, Elizabeth assumiu a presidência da Liga Camponesa de Sapé, originalmente conhecida como Associação dos Lavradores Agrícolas de Sapé. Em seguida, na trilha de João Pedro, passou a liderar a liga no estado. Como Margarida Maria Alves, enfrentou o machismo da época e abriu espaço para que outras mulheres aderissem à luta por seus direitos. Seu objetivo sempre foi o de dar continuidade às conquistas e metas do companheiro, defendendo os direitos dos camponeses, que viviam em regime praticamente de escravidão. “Eu continuo a luta”, disse quando ele foi assassinado.

Trajetória: nos estados de Pernambuco e Paraíba, a repressão contra a organização dos camponeses foi muito intensa, pois eram locais onde eles estavam mais organizados. Por conta disso, Elizabeth enfrentou diversos opositores e foi presa algumas vezes, além de sofrer outras perdas, como o suicídio de uma filha, deprimida com a morte do pai e as prisões da mãe; o assassinato de dois filhos (José Eudes Teixeira e João Pedro Teixeira Filho) por ordem de latifundiários e seguidas ameaças. Sem ter a quem recorrer contra toda essa violência — situação agravada pelo golpe de 1964 —, Elizabeth passou a viver na clandestinidade. Saiu de Sapé, foi para São Rafael,  no interior do Rio Grande do Norte, e adotou o nome falso de Marta Maria da Costa, onde permaneceu escondida por 17 anos, lavando roupa e lecionando. Chegaram a pensar que ela havia morrido. Foi o cineasta Eduardo Coutinho quem a reencontrou, depois de muita procura. Em 1979, Elizabeth foi beneficiada pela Lei da Anistia, mudando para a Paraíba novamente — para Sapé e depois João Pessoa. Mesmo na clandestinidade, dando aulas, ela conta que sempre dava um jeito de falar sobre a importância de uma reforma agrária no país. E até hoje se pronuncia sobre o tema: “Enquanto houver a fome e a miséria atingindo a classe trabalhadora, tem que haver luta dos camponeses, dos operários, das mulheres, dos estudantes e de todos aqueles que são oprimidos e explorados”, disse num encontro com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2017. “Não pode parar”.

‘IMPORTANTE É QUE O POVO SE UNA PELA REFORMA AGRÁRIA’

Assassinato do marido: vítima de uma trama, João Pedro Teixeira foi morto pelas costas, com três tiros de fuzil. Os disparos foram efetuados por policiais vestidos de vaqueiros, a mando de três proprietários rurais de Sapé: Antônio José Tavares, Aguinaldo Veloso Borges (avô do ex-deputado homônimo, ministro das Cidades durante o governo Dilma Rousseff) e Pedro Ramos Coutinho. Como líder camponês, João Pedro vivia sob ameaças constantes, que se tornaram mais presentes a partir de 1955, quando organizou o Encontro dos Camponeses de Sapé. Enfrentou várias situações de risco, como tiros contra sua casa, especialmente depois que passara a liderar reuniões de trabalhadores rurais que questionavam a prática do cambão — a obrigatoriedade de dias de trabalho sem remuneração nas terras dos proprietários. Elizabeth sempre deixou público o desejo do marido e o seu, a razão da luta do casal, como nesta entrevista, dada aos 81 anos, logo após ser homenageada pelo Senado:

— O que eu considero importante é que o nosso povo brasileiro se una, fiquem todos unidos, lutando por uma reforma agrária. A maior alegria da minha vida se eu tomasse conhecimento de que fosse implantada uma reforma agrária em nosso país, e que todos os homens do campo tivessem condições de sobreviver ali na terra, melhorar essas condições do trabalhador da terra, isso aí era o que eu tinha mais prazer na minha vida, e hoje, na idade em que estou, tomasse conhecimento de um movimento desses.

As Ligas Camponesas: segundo o relatório final da Comissão Estadual da Verdade e da Preservação da Memória do Estado da Paraíba, nenhum outro movimento popular retratou melhor o cenário do campo quanto as Ligas Camponesas. Durante a ditadura, de acordo com a comissão, catorze pessoas foram mortas ou desapareceram na Paraíba. As ligas e os sindicatos rurais nasceram dos movimentos de resistência dos camponeses. O espaço aberto pelas ligas, tendo à frente Elizabeth, incentivou outras mulheres a resistirem também, entre elas, Margarida Maria Alves e as que a sucederam.

SAIBA MAIS SOBRE ELIZABETH TEIXEIRA

Museu: Memorial das Ligas Camponesas, em Sapé (PB).

Trabalho acadêmico: “Latifundiários deixariam o universo às escuras se fossem proprietários do sol”, de Luiz Mário Dantas Burity, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

Livro: “Eu marcharei na tua luta: a vida de Elizabeth Teixeira”, organizado por Lourdes Bandeira; Rosa Maria Godoy Silveira; Neide Miele. João Pessoa, PB: UFPB, 1997.

Documentários: “Cabra Marcado para Morrer” (1984), de Eduardo Coutinho. A obra integra uma lista dos 100 melhores filmes brasileiros, elaborada em 2015 por críticos associados e convidados da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine); Uma Visita para Elizabeth Teixeira, curta de Susanna Lira (2001), um filme que homenageia a camponesa e o cineasta.

Foto principal: Elizabeth Teixeira ao lado dos filhos, logo após o assassinato de João Pedro. (Reprodução / “Cabra Marcado Para Morrer”)

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