Ambev diz que vai “fazer chover” fora da cidade para não molhar foliões em SP

Empresa contratou para o carnaval a ModClima, que prestou sem concorrência serviços para a Sabesp, entre 2007 e 2016; técnica utilizada na agricultura foi questionada por especialistas e levanta questão ética: setor privado tem poder sobre as nuvens?

Por Alceu Luís Castilho, em De Olho nos Ruralistas

A notícia apareceu em três veículos de marketing e passou um tanto despercebida: a Ambev quer fazer chover. Ou, mais precisamente, evitar chuvas durante a folia em São Paulo, do ponto de vista mercadológico o maior carnaval do Brasil. Para isso, simples assim: fazer chover fora do centro. Como? Induzindo chuva em nuvens. Pode isso, Arnaldo? Do ponto de vista técnico, a polêmica está no ar: a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) utilizou, entre 2007 e 2016, o mesmo sistema a ser adotado pela cervejaria. E ele não é um consenso.

Do ponto de vista ético, a pergunta ainda não foi feita: pode uma cervejaria — com interesses diretos em gestão das águas — fazer marketing nas nuvens e desviar o curso natural das chuvas? A empresa responsável pela indução das chuvas, a ModClima, disse ao De Olho nos Ruralistas que isso pode ser positivo e até ajudar a salvar florestas.

O anúncio de que a Ambev quer fazer chover para beneficiar foliões foi publicado na sexta-feira em três veículos especializados em publicidade. Um deles, o tradicional Meio&Mensagem: “Skol desloca chuva e mantém sol no Carnaval paulistano“. O texto informa que a agência Gut foi responsável pela ação de marketing chamada Giro na Chuva. A notícia tinha sido divulgada antes pelo Propmark: “Skol usa tecnologia para evitar chuvas no Carnaval de São Paulo“.

O Propmark traz informações minuciosas a respeito da campanha publicitária, segundo a Ambev “uma parada digna de ficção científica”. “Um avião vai tentar fazer de tudo para a chuva cair antes de chegar no bloco”, anuncia o primeiro teaser da Gut para a cervejaria. Um dos proprietários da empresa ModClima explica rapidamente a técnica, entra no aviãozinho da Skol com a repórter e diz: “Vamos fazer uma chuva”. Ela informa: “Parece que é a maior viagem, mas a gente jura que é viável”.

A notícia também foi publicada pelo canal Geek Publicitário: “Para salvar o Carnaval, Skol vai utilizar tecnologia que induz chuvas para locais específicos“. O texto diz que a tecnologia empregada nesta ação é praticada há pelo menos doze anos no Sistema Cantareira, para a Sabesp, “e em mais de vinte projetos para agricultura no Brasil e até mesmo no Gabão”. Ou seja: a ModClima — que diz ter feito um trabalho voluntário na Chapada Diamantina, na Bahia — já desembarcou na África.

Segundo o canal, o método utiliza apenas água potável, em forma de gotículas, a imitar o processo natural de crescimento da nuvem. “O avião lança no interior de nuvens cumulus, com correntes ascendentes, gotículas de tamanho controlado, promovendo mais colisões e aglutinações para formar então as gotas de chuva”, informa o Geek Publicitário. “A ação é localizada, trabalhando em nuvens de 1 a 6 km de diâmetro que, após o período de 15 a 20 minutos de semeação, induz a chuva no local”.

Uma das sócias da ModClima, Majory Miei Imai, atendeu a reportagem por telefone. Ela disse inicialmente que a ação da Ambev era uma “brincadeira”, por ser uma campanha publicitária, mas depois ressaltou que a parte relativa à sua empresa é bastante séria: “Conceito da campanha foi questionar as chuvas no carnaval e a Ambev quis gerar um material sobre gerar chuvas em um lugar que precisa, a Cantareira. E é o que a gente faz. Comunicação não é nossa área. Fomos contratados para fazer chuva durante alguns dias durante o carnaval, em uma área que tem essa necessidade”.

Confira o teaser divulgado pela Ambev:

EMPRESA FOI CONTRATADA ANOS ANTES DA CRISE DE 2014

Com sede em Bragança Paulista (SP), a ModClima Serviços Aéreos Especializados, Pesquisa e Desenvolvimento Ltda, a detentora da patente, é pilotada hoje pelo engenheiro Ricardo Raiji Imai e pela administradora administradora Majory Mie Imai. Eles são filhos do inventor do método, o engenheiro mecânico Takeshi Imai, falecido em 2013. No ano seguinte o Fantástico veiculou reportagem sobre os filhos do homem-que-fazia-chover, que em meio a uma homenagem estavam a transformar “as cinzas do pai em chuva”. O patriarca foi descrito como “um homem com poderes sobre o tempo”.

A empresa criada em setembro de 2007 está registrada no nome de Ricardo e Majory, ambos sócios-administradores, e de Lucas Yuto Noguchi Suzuki, sócio residente nos Estados Unidos. Atividade principal, “pesquisa e desenvolvimento experimental em ciências físicas e naturais”. Entre as sete atividades secundárias estão itens relacionados ao comércio, ao desenvolvimento de programas de computador, o apoio à agricultura e a “gestão de ativos intangíveis não-financeiros”.

Takeshi, Majory e Ricardo motivaram reportagens elogiosas, em 2010, em veículos como o portal Terra e Época Negócios. A empresa fazia parte, na época, do Centro Incubador de Empresas Tecnológicas (Cietec), em São Paulo. Depois, recebeu incentivo da própria Ambev: a cervejaria investiu R$ 1 milhão, em dezembro de 2018, na aceleração de dezoito startups, ou empresas emergentes. Oito delas na categoria Agricultura Inteligente. Seis delas, entre elas a ModClima, na categoria Gestão de Água.

“Mas a ação durante o carnaval não tem a ver com esse incentivo”, informa Majory. “Em função de conhecerem melhor nosso trabalho, deve ter despertado no marketing vontade de fazer algo com isso”.

O texto de Época Negócios dizia em 2010 que a ModClima “fez chover no Sistema Cantareira e no Alto Tietê”. “Dados da empresa mostram que a ModClima foi responsável por 31% das chuvas nos reservatórios da região entre outubro de 2003 e fevereiro de 2004”, informava o repórter. Um consultor ambiental da Sabesp afirmou à revista que, de 200 nuvens semeadas, 160 precipitaram.

A companhia foi contratada pela primeira vez pela Sabesp em 2005. Em 2008 a parceria foi suspensa: “São Pedro já estava fazendo sua parte, até demais”, dizia a Época Negócios. Mas depois foi retomada, entre 2009 e 2013. No ano seguinte, em 2014, o estado de São Paulo enfrentava sua principal crise hídrica. O Sistema Cantareira, um dos principais da região metropolitana da capital, chegou ao volume morto. Municípios e bairros afastados ficaram sem água, na medida em que a companhia mista reduzia a pressão nas tubulações. Entenda nesta reportagem do Nexo como a crise foi, antes de mais nada, um problema de gestão hídrica.

‘RELATOS DESCABIDOS DO PONTO DE VISTA CIENTÍFICO’

Em maio de 2015, o portal UOL noticiava: “Sabesp faz investimento milionário em questionada técnica para fazer chover”. Era a tecnologia da ModClima. Segundo o portal, a empresa tinha sido contratada algumas vezes, sem licitação, por valores que somavam R$ 12,5 milhões. Nos dois contratos de 2014, a Sabesp já tinha pago R$ 2,4 milhões de um total de R$ 8,1 milhões previstos para fazer chover nos sistemas Cantareira e Alto Tietê. Não houve licitação porque a empresa era a única detentora da tecnologia.

Em dezembro daquele ano, as tentativas de fazer chuva no sistema Alto Tietê foram suspensas pela própria Sabesp, informava o Estadão.

Ao UOL, o professor livre-docente Augusto Jose Pereira Filho, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP), disse na ocasião que a Sabesp contratou a ModClima para não ser acusada de não fazer nada diante da crise: “Foi dinheiro jogado fora. Era melhor utilizar essa verba para outros objetivos, como campanhas de conscientização e redução de perda de água, do que usar em técnicas que ainda não têm comprovação científica”.

O professor Carlos Augusto Morales Rodriguez, do Departamento de Ciências Atmosféricas do IAG-USP, avaliou que o radar meteorológico utilizado pela empresa não era capaz de identificar a nuvem em processo de precipitação, e sim aquelas onde já estava chovendo. “Em uma avaliação de 2003/2004 constatamos que a técnica não funcionou, mas mesmo assim a Sabesp contratou a empresa novamente”, completou Pereira Filho. “Fui convidado pelo diretor da Sabesp para conversar com os representantes da ModClima e, durante a reunião, os relatos eram descabidos do ponto de vista científico”.

Sócia da ModClima, Majory Imai disse que respeita a opinião dos colegas, mas que a empresa já possui uma série estatística a respeito: “Não está sendo mais questionado porque a gente tem mais de mil voos. A Sabesp nos avalia com nota cem. A gente respeita a opinião de outros meteorologistas, mas tem uma estatística, toda uma metodologia de registros. A cada dez voos a gente volta com sete chuvas”.

GOVERNO DA BAHIA ESTEVE ENTRE CLIENTES DA MODCLIMA

A ModClima informa em seu site que a tecnologia de indução de chuvas localizadas “já contabiliza sete contratos com a Sabesp, doze anos de experiência, mil horas de voo”, com cerca de 600 chuvas realizadas para a companhia paulista. Segundo Majory, já são nove contratos. “Este processo é aplicado na Sabesp sobre os mananciais dos Sistemas Cantareira e Alto Tietê”, diz a empresa. A utilização na agricultura vem desde 2009 em seis estados: Bahia, Goiás, Maranhão, Paraná, Pernambuco e São Paulo. A ModClima diz que a técnica pode ser utilizada para evitar incêndios florestais.

Entre os clientes da empresa estiveram o governo da Bahia e a Associação dos Produtores de Soja do Meio-Norte, braço da Aprosoja na sub-região nordestina. No caso da agricultura, a área mínima a ser atingida é de 30 mil hectares. Mas o próprio site da ModClima informa que as experiências no setor agrícola ocorreram entre 2009 e 2012. À Scientific American Brasil, em 2009, Takeshi, Ricardo e Majory — cujo discurso é marcado por posições idealistas — escreveram que poderiam “fazer chover no sertão”.

A Sabesp é uma empresa controlada pelo governo estadual, que detém 50,3% das ações. As demais estão distribuídas por acionistas em todo o mundo, a partir das bolsas paulista e novaiorquina. A assembleia geral extraordinária realizada em março de 2019, por exemplo, teve entre os acionistas minoritários presentes representantes do Itaú Unibanco, The Bank of New York Mellon, Banco BNP Paribas Brasil e J. P. Morgan S.A. Distribuidora de Títulos e Valores Imobiliários, representando fundos de pelo menos três continentes.

Quando investiu na ModClima como startup, no fim de 2018, a Ambev informou que os resultados seriam apresentados a “fundos de investidores de alto impacto”, com chance de contratação pela própria companhia. A Ambev é controlada pelos bilionários brasileiros Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira. Lemann é o segundo brasileiro mais rico, atrás do banqueiro Joseph Safra.

Mayory Imai, da ModClima, acredita nas boas intenções da empresa e do setor privado como um todo:

— Se a iniciativa privada pudesse adotar bacias hidrográficas, florestas que estão pegando fogo, e o fruto dessas ações tivesse um retorno, seria positivo. Tem meteorologista que diz que é impossível fazer chuva sem iodeto de prata, um metal pesado. Nossa patente consiste em semear nuvem com gotas d’água, a nuvem vai carregar e chover. A gente está diante de mudanças climáticas e tem tecnologia brasileira, limpa, para fazer nuvem com grande potencial de água. Se a gente conseguisse sensibilizar iniciativa privada para atuar em áreas que sofrem com o clima seria fantástico. Pensar em governo para tocar isso é difícil. Uma bacia hidrográfica com maior volume de água não seria bom para todo mundo? 

Ela não informa o valor do contrato com a cervejaria.

Imagem principal: teaser da Skol sobre campanha que desviará a chuva. (Reprodução/Youtube)

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