O Feminismo Camponês e Popular, a identidade da mulher rural e mundo operário

Dirigentes Sem Terra apresentam reflexões sobre a construção do Feminismo Camponês Popular, o processo histórico desta construção e perspectivas para o próximo período

Por Viviana Rojas, em Via Campesina / MST

“O feminismo camponês e popular e a reforma agrária popular” foi tema da mesa que contou com a participação das companheiras Itelvina Massioli e Debora Nunes e apresentou reflexões sobre as linhas políticas construídas pelas mulheres Sem Terra. A mesa aconteceu no último dia 7, durante o I Encontro Nacional das Mulheres Sem Terra.

Itelvina fez um relato histórico da acumulação política que as mulheres desenvolveram na Coordenação Latino-americana de Organizações Rurais e que inspirou o movimento global La Via Campesina em todos os cantos do mundo, destacando assim sua relevância na luta política e na defesa da vida das mulheres. Ela afirmou que o compromisso do Feminismo Camponês e Popular tem uma identidade evidente porque nasce da relação profunda das mulheres camponesas com a terra e a Soberania Alimentar. E é popular porque emerge de uma perspectiva de classe, dentro da luta de classes. 

“A construção e ousadia do Feminismo Camponês e Popular está fortemente ligada às lutas de resistência das mulheres rurais articuladas na CLOC – Via Campesina num contexto de resistência e confronto ao capitalismo colonial e extrativista que há séculos vem pilhando nossas terras, territórios e riquezas naturais”, explica.

Durante anos, devido à contínua demonização do movimento feminista pelas sociedades patriarcais e machistas, o campesinato não reconheceu como feminista a luta pela terra, a soberania alimentar ou a agroecologia. Por outro lado, a luta pelos direitos das mulheres à terra, a produção de alimentos, a defesa e recuperação de sementes e as lutas contra a violência, por exemplo, também não foram identificadas como lutas feministas.

A resistência das mulheres rurais se mantém viva a partir das lutas concretas, dos processos de formação e da participação política nos movimentos populares, diante dos ataques do sistema capitalista, patriarcal e racista, que as torna invisíveis diariamente, apesar do papel fundamental que desempenham na alimentação, na luta contra a fome e na subsistência na vida dos povos do mundo.

“Entendemos que a luta pela emancipação das mulheres deve estar ao lado da luta pelo fim da propriedade privada, pelo direito à terra e aos territórios, pela Reforma Agrária Popular, contra as transnacionais, contra o agronegócio, contra os transgênicos, contra os agrotóxicos e contra todas as formas de exploração do ser humano e da natureza. Então é uma luta anti-sistema”, diz Itelvina.

Esta concepção do feminismo baseia-se na análise de que as mulheres camponesas estão dentro de uma sociedade de classes, que é a origem da sua exploração, dominação e opressão, e que é sustentada por uma sociedade capitalista baseada no colonialismo, no patriarcado e no racismo.  E, portanto, esta construção do feminismo luta contra este modelo econômico, social e cultural e seus não valores.

Durante estes anos o movimento camponês a nível internacional tem reforçado a idéia de que este processo de construção do Feminismo Camponês e Popular, por um lado é de ação e lutas concretas contra os inimigos comuns que este setor identifica, é por outro lado, uma luta em defesa da vida, dos bens naturais, das sementes camponesas, pela igualdade de direitos à terra, contra a exploração, a violência, por salários justos e iguais, por um outro modelo de sociedade e agricultura.  Da mesma forma, esta reflexão coletiva deu unidade e solidariedade com outros setores e tornou visíveis todas as lutas das mulheres rurais como sujeitos de transformação social.

“Desta forma, a concepção feminista que estamos construindo como MST e como CLOC – Via Campesina está fortemente ligada aos processos políticos e organizacionais, à formação política e às lutas concretas e permanentes que alteram a vida social, econômica e política da classe trabalhadora, e particularmente das mulheres trabalhadoras”, acrescenta. 

Itelvina terminou citando uma frase da referente alemão Rosa Luxemburgo, que sintetizou o debate: “Devemos lutar por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres”.

Reforma Agrária Popular “Nada nos é dado sem organização e sem luta”

Débora Nunes trouxe à discussão vários elementos fundamentais da proposta de Reforma Agrária Popular que o MST vem construindo desde seu último Congresso, em 2014, e que nasceu como uma forma de diálogo com a sociedade e de atingir seus objetivos políticos atuais. Para ela, este momento histórico traz novos desafios, novas tarefas e até novos inimigos para o campesinato.  

Nesse sentido, a Reforma Agrária Popular nasce como um amplo processo de discussão dentro do Movimento que veio para ressignificar a ideia tradicional da reforma agrária, cujo inimigo histórico era o latifúndio, e propõe outra forma de organização do campo e da agricultura, que precisa resistir e enfrentar o modelo de agronegócio que é a expressão do capital no campo que se desdobra de forma alarmante no campo brasileiro e no mundo.

Dentro da proposta de Reforma Agrária Popular, vários elementos centrais são identificados como: a democratização da terra, a produção agroecológica, a preservação dos bens naturais, a educação e a formação, a relação com a sociedade e uma forte dimensão de luta. 

“Não é possível avançar, se não entendermos que a terra é central, continuamos lutando pela terra, ocupando, a ocupação permanece como há 36 anos, como instrumento fundamental da nossa luta, mas a terra precisa ser democratizada, compartilhada. Portanto, se o agronegócio, o hidro-negócio, se a mineração quer privatizar, devemos criar condições para resistir em nossos campos, devemos rejeitar qualquer tentativa de titularizar nossas terras.  Porque o MST entende a terra como parte da natureza e não mercadoria e lucro, como o capital a define”, diz.  

O modo de produção agroecológico é outro elemento que aparece como uma forma real de dar uso social e ambiental à terra, que garante a Soberania Alimentar dos povos, e que se opõe à produção do agronegócio que envenena e usa agrotóxicos indiscriminadamente, e mata a natureza e as populações, tanto no campo como nas cidades. A agroecologia é entendida como um modelo de vida, por isso não é compatível com a opressão e a violência. A agroecologia hoje exige mudanças profundas no comportamento e nas relações, e portanto deve ser entendida em todas as dimensões, da produção à comercialização.

Quanto à preservação dos bens naturais, ela afirmou que “hoje, defender a natureza, conservar rios, fauna, flora e florestas é uma tarefa essencial, não só para enfrentar o agronegócio, mas é uma tarefa fundamental para a subsistência da humanidade, por isso devemos nos comprometer com isso”. Para dar materialidade a isto, o MST lançou este ano nosso plano nacional “Plantar Árvores e Produzir Alimentos Saudáveis”. Para semear 100 milhões de árvores em 10 anos, definindo metas nos estados, regiões, assentamentos e acampamentos, uma construção concreta para afirmar este modelo de Reforma Agrária Popular. 

Ela também mencionou a Educação e Formação, tanto técnica como política, o movimento avançou na compreensão da educação como um direito, com escolas, cursos, graduações, pós-graduações, mas também é estratégico continuar elevando o nível de conscientização das bases, para isso eles chamaram o Dia Nacional do Trabalho de Base. Por outro lado, ela mencionou o diálogo com a sociedade, a sociedade precisa entender qual é o nosso projeto para que eles possam assumir este projeto de Reforma Agrária Popular, para que a produção de alimentos saudáveis possa ser um elo importante, pois alimentos saudáveis não podem ser um privilégio de poucos, mas um direito de toda a classe trabalhadora do campo e da cidade de uma forma justa. 

Finalmente, para concluir, ela insistiu na necessidade de organização e luta “precisamos manter um processo permanente de luta, nestes 36 anos o MST nos ensinou que nada é dado sem organização e sem luta, e para alcançar a Reforma Agrária Popular este é o único caminho. Juntos, homens e mulheres devem caminhar e viver o socialismo como uma antecipação da sociedade que queremos. E o papel da mulher é fundamental neste processo. Devemos continuar a construir e fortalecer a Reforma Agrária Popular como um exercício prático de amor ao povo, sonhando e construindo outro mundo possível.

Reprodução: MST

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