Pandemia de coronavírus: O Sindicato dos Trabalhadores da Fiocruz se posiciona

ASFOC – Sindicato Nacional

A Asfoc-SN, Sindicato dos Trabalhadores da Fiocruz, vem a público manifestar a sua posição diante da terrível ameaça da pandemia de coronavírus para a saúde e bem-estar da população brasileira e dos lamentáveis pronunciamentos do presidente da República em um dos momentos mais graves de nossa história.

O mundo inteiro trava uma batalha ferrenha contra o avanço do coronavírus e seus trágicos efeitos. No Japão, a Olimpíada foi cancelada; na Índia, um bilhão de pessoas está em isolamento. O mesmo acontece na Europa, e demais continentes. Em todo o mundo a quarentena e a paralisação das atividades não essenciais são utilizadas como forma de deter a propagação do vírus, evitar o colapso dos sistemas de saúde e ganhar tempo para melhorar a estrutura de atendimento à população e para que a ciência encontre medicamentos ou vacinas capazes de eliminar ou reduzir de modo expressivo os malefícios da Covid-19.

No Brasil, o presidente da República ocupa as redes sociais, a TV e outros órgãos de comunicação para dizer que a pandemia não passa de uma “gripezinha”, um “resfriadinho”. Contrariando as evidências científicas e procurando inimigos, Bolsonaro acusa a mídia e organismos como a Organização Mundial de Saúde de divulgarem notícias falsas e alarmistas. Para Bolsonaro, que não reúne qualificação alguma para lidar com essa situação, tudo não passa de histeria.

No momento em que mais precisamos de lucidez, nos vemos nas mãos de um presidente voluntarioso, inconsequente e distante em tudo das necessidades e desafios do país. Precisamos de um governo competente, sereno, firme e articulado. Um governo solidário com preocupações humanitárias, capaz de unir o país na luta contra a Covid-19 e contra a estagnação econômica que já se coloca no horizonte. Um governo capaz de articular as duas frentes de combate em favor da ampla maioria de nosso povo. Características que, infelizmente, faltam a Bolsonaro e à boa parte de sua equipe, excetuando-se, para nossa sorte, o consequente trabalho realizado até aqui pelo Ministério da Saúde.

Estamos diante de uma situação que requer coesão, articulação, desprendimento e empatia. Uma situação que demonstra que não há saída individual e que somos todos interdependentes e responsáveis pelo enfrentamento dessa temível pandemia que a todos ameaça. Vamos experimentar tempos duros e sem uma pactuação solidária associadas a ações minimamente alinhadas vai ser mais difícil enfrentar essa crise.

Nesse sentido, a falta de preparo, de altruísmo e o destempero demostrado pelo presidente da República se mostram altamente prejudiciais às necessidades de coordenação dos três poderes e dos três níveis de governo (federal, estadual e municipal), e destes com a sociedade e com os setores produtivos.

A Covid-19 chega ao país após a aprovação da Emenda Constitucional 95 – que congela gastos e investimentos estatais por 20 anos – e da realização das reformas Trabalhista e da Previdência. Medidas que integram o arsenal da política econômica neoliberal implementada por Paulo Guedes e Bolsonaro. Medidas que reduzem a capacidade do Estado reagir a crises. Medidas que, ao reduzir a capacidade de consumo das famílias, se caracterizam como recessivas e que desamparam boa parte da população brasileira.

O resultado de um ano de governo de Bolsonaro não se fez esperar: verificou-se a intensificação do subfinanciamento e da precarização do SUS; o país voltou ao mapa da fome; aumentou a população que mora nas ruas; o desemprego alcançou índices elevadíssimos; cresceu o número de desalentados e de trabalhadores informais; o PIB encolheu e, ao lado de outras doenças, epidemias como as de dengue e sarampo voltaram a castigar a população. Uma situação que a pandemia veio agravar e, ao mesmo tempo, denunciar, de forma contundente, a fragilidade de uma economia excludente e de um Estado para poucos.

Alertado pela inteligência militar sobre a possibilidade da eclosão da pandemia, Bolsonaro não se preparou para o seu enfrentamento. A prioridade do governo era a Reforma Administrativa e o combate à oposição e à toda a forma de ativismo. Estava preocupado em extinguir fundos e reduzir recursos para a educação, ciência e tecnologia. Estava ocupado, implementando medidas que contribuem para a destruição das bases produtivas e dos elos solidários do país.

Considerado mito pelos seus seguidores, Bolsonaro não está à altura dos desafios que temos pela frente e parece não estar nem um pouco preocupado com o destino daqueles que o elegeram. Na verdade, não parece estar preocupado com ninguém. Sua preocupação, ao que tudo indica, parece se resumir em se manter no poder a qualquer custo. Como um afogado que se debate no caos que ele mesmo criou, Bolsonaro se desespera. Sua aposta é alta e faz apelo a um eleitorado composto em grande parte por iludidos, cativados por falsos afagos emocionais ao abandono e ao ressentimento que marcam uma parcela expressiva de seus seguidores.

Para ele não importa a orientação da Organização Mundial de Saúde e de demais autoridades sanitárias. Não importa a ciência ou os apelos por considerações de ordem humanitária. Não importam as nossas vidas. Somos apenas números em uma linha narrativa composta de argumentos equivocados, falsos e dissimuladores, destinados a reduzir a gravidade da crise e manter tudo como antes. Não há preocupação real com a vida de ninguém, com nossos empregos ou mesmo com uma economia que sirva a todos. O cálculo frio que ele faz não considera o sofrimento humano. Na verdade, seu comportamento parece indicar um raciocínio descompromissado que aponta para constatação de que existe gente demais e falta emprego e Estado para atender a todos.

Diante da chegada do coronavírus no país, Bolsonaro, ao contrário das diretrizes defendidas pelo Ministério da Saúde, buscou adotar a chamada “imunidade de grupo” como forma de lidar com o avanço da pandemia. Uma estratégia que a Inglaterra abandonou ao perceber as consequências desastrosas de sua adoção tanto para a vida das pessoas como para economia.

Também conhecida como “imunidade de rebanho”, tal estratégia parte do pressuposto de que a pessoa curada adquire imunidade e dificulta a propagação do vírus. Assim sendo, a imunidade adquirida por parte da população e a eliminação de parcelas consideráveis dos vulneráveis acabariam por dificultar, ou mesmo impedir, a circulação do vírus.

Vale ressaltar que não temos ainda um conhecimento sólido e plenamente estabelecido sobre o vírus, sua capacidade de se adaptar ou mesmo sobre quem está, de fato, exposto ao risco de morte. Não há certeza, por exemplo, sobre seus reais efeitos em jovens e crianças. Já foram registradas mortes nesses dois grupos que não estavam associadas a comorbidades. Por outro lado, embora se divulgue que é possível obter imunização após a cura, o tema ainda é controverso e não se pode afirmar, sem margens para dúvidas, que isso corresponda à verdade. Em casos como o da dengue, por exemplo, um indivíduo infectado pela segunda vez corre um risco significativamente maior de desenvolver novamente a doença em sua forma mais grave. Além disso, quanto mais o vírus se propagar maiores serão as chances de que sofra mutações ainda mais nocivas à nossa saúde ou que se torne mais difícil de combater.

Desse modo, ao custo incalculável de milhares de vidas e alicerçado em ações com bases científicas ainda não completamente consolidadas, se respeitaria a política de austeridade e não seria preciso parar a economia do país. Passado o sacrifício a ser enfrentado, rapidamente as coisas voltariam ao normal. Ricos e pobres poderiam voltar a ocupar os lugares que lhes foram reservados na história nacional e no projeto econômico em curso no país.

Buscando mostrar que está atento às necessidades do momento, Bolsonaro, que até o momento não mostrou ter planos robustos para enfrentar a crise, procurou, de forma um tanto quanto infantil, saídas mágicas. Em um vídeo caseiro que não citava o Ministério da Saúde (a sua pedra no sapato), irresponsavelmente acabou por estimular, mesmo de forma não intencional, uma corrida para aquisição da cloroquina, medicamento importante para outro grupo de doenças, mas que, contraindicado e mal administrado, pode levar à morte como já ocorreu nos EUA. Teme-se que tal atitude do ocupante do maior cargo da República possa prejudicar aqueles que realmente dependem do medicamento e, ao mesmo tempo, abrir uma caminho perigoso para o seu uso indiscriminado.

O presidente alega que é preciso manter a economia funcionando para evitar o colapso social e o sacrifício de trabalhadores e de suas famílias que, sem emprego ou renda, não teriam como sobreviver. Afirma proteger os mesmos que as reformas que ele apoiou e patrocinou deixaram ao desamparo. Os mesmos que já eram vítimas do desemprego recorde antes da chegada da pandemia. Na sua concepção, a morte de uma parcela da população (na sua imensa maioria composta de pobres) é, infelizmente, o preço para que a economia continue funcionando. “Alguns vão morrer. Paciência”, disse o presidente mais de uma vez.

Não lhe ocorreu apresentar um plano de amparo à essa imensa parcela da população que não simplesmente a indicação da volta ao trabalho. Algo como dizer que pobres não tem direito a se defender. Não lhe ocorreu, desde o primeiro momento, propor um amplo programa de renda mínima, por exemplo. Não lhe ocorreu implementar planos específicos para favelas e comunidades carentes. Não lhe ocorreu garantir o fornecimento de alimentos, material de higiene e medicamentos para essa fração da população. O fato é que Bolsonaro é um presidente cada vez mais isolado e apegado a uma nota só.

Bolsonaro foge das suas obrigações de defender a saúde de todos e de procurar gerir a crise considerando todas as suas implicações, sendo a maior delas a preservação de vidas. Não lhe ocorre cuidar ao mesmo tempo das duas frentes de batalha que ele, pelo menos no discurso, julga importantes. Sua estratégia é cruel, covarde, excludente e equivocada. Um raciocínio simplista que tenta justificar o abandono da população carente mais vulnerável e mais exposta aos efeitos da pandemia, sejam esses efeitos relacionados à saúde ou à economia. O raciocínio é simplista porque, nesses momentos, a economia para mesmo que o governo não adote o isolamento compulsório. É dissimulador porque faz crer que a redução radical e temporária da economia inclui setores essenciais como abastecimento, segurança, comunicações, energia, produção de medicamentos, entre outros. É parcial e diversionista porque ao alardear a sua preocupação com a paralisação da economia e seus efeitos, esconde a sua incompetência e inoperância para combater a crise em seus múltiplos aspectos. Como interpretar, por exemplo, a cena recente do silêncio eloquente de ministros perfilados diante da imprensa sem ter o que dizer?

Novamente se tenta instalar a polarização como as únicas opções postas na mesa. Assim como já se disse que ao trabalhador caberia escolher entre trabalhar e ter direitos, estamos diante da tentativa de salvar a economia em detrimento das pessoas. Economia, é bom frisar, que não inclui. É, portanto, mais do que nunca, necessário reafirmar que o Brasil merece bem mais do que isso.

Bolsonaro apostou alto e irresponsavelmente em uma passagem rápida e de baixo impacto da “gripezinha” pelo país. Delirante e pouco preparado, pensou em comandar a sociedade no rumo suicida e de consequências desconhecidas por ele traçado.

Como era de se esperar, a sociedade reagiu e as coisas não saíram como o presidente da República queria. O Ministério da Saúde, governadores e prefeitos apontaram para caminhos diferentes, mais sintonizados com as escolhas feitas no restante do mundo e distante do Darwinismo social que a proposta do núcleo radical do governo defende. O avanço da pandemia deflagrou ações em todos os cantos do país, unindo autoridades, universidades, institutos de pesquisa, cientistas, comunicadores, artistas, intelectuais, sindicatos, movimentos sociais, donas de casa, síndicos e condôminos, associação de moradores e cooperação internacional.

A guerra contra a pandemia está longe de terminar. A situação é mais complexa que a lógica de um presidente totalmente despreparado cumprir o papel de articulador das nossas defesas. A economia do mundo está irremediavelmente em crise e tudo o que conhecemos vai ter que ser reconstruído em outras bases. Teremos que lutar para que a proteção à vida e a dignidade de todos tenham prioridade nesse momento de enfrentamento da crise e também no processo de reconstrução do país que se seguirá à tormenta.

É preciso, mais do que nunca, reafirmar o papel do Estado na proteção à vida, na promoção da saúde e na garantia de dignidade para todos. É preciso defender o SUS. É preciso aprender e exercitar o caminho da empatia e de uma economia que não abandone as pessoas. É preciso reafirmar que a primeira e principal função do Estado deve ser cuidar das pessoas e do bem-estar social.

A persistência velada na estratégia de “imunização de rebanho” e a manipulação da ansiedade e do desconhecimento popular com acenos de uma saída milagrosa, como o uso indiscriminado de medicamentos como a hidroxicloroqunina, certamente vão cobrar um preço mais alto do que o imaginado por Bolsonaro e será perdido um número incalculável de vidas.

É lamentável que em uma hora tão grave o presidente se porte como elemento desestabilizador e desarticulador de um combate a uma pandemia que ameaça a todos. Estamos lutando por nossas vidas e de nossos parentes e amigos. Estamos lutando pela vida da população brasileira.

A pandemia vai passar e, apesar dos muitos sacrifícios que teremos que enfrentar, vamos vencer essa guerra e buscar reerguer o país em outras bases, apoiado em alicerces que não tenham a mesma fragilidade de uma economia para poucos e de um Estado ausente e inoperante. Na construção desse novo mundo, esperamos, não exista mais lugar para governantes sem preparo como Bolsonaro.

É preciso cuidar e cuidar de quem cuida. Somos a Asfoc-SN. Somos Fiocruz. Somos SUS!

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