ONG lança plataforma on-line com dados sobre covid-19 entre indígenas

Primeira morte de indígena por coronavírus no Brasil não foi registrada pela Sesai por ocorrer fora de aldeia, no Pará

por Catarina Barbosa, em Brasil de Fato 

O Instituto Socioambiental (ISA) lançou, na última sexta-feira (3), uma plataforma que acompanha o avanço do novo coronavírus entre os povos indígenas. Apesar de a covid-19 ser um perigo tanto para indígenas quanto para não indígenas, dados históricos apontam que etnias foram dizimadas por conta de doenças virais, sobretudo, as respiratórias.

Pesquisador do Programa de Monitoramento de Áreas Protegidas do ISA, o antropólogo Tiago Moreira explica que, além do mapa dos municípios atingidos pela pandemia, o site traz também dados sobre a organização da saúde indígena, a exemplo dos distritos sanitários indígenas e dos pólos-base. 

Até o momento, em todo o Brasil, foi confirmado um óbito por coronavírus entre indígenas. Falecida em 19 de março, a mulher de 87 anos era da etnia Borari, de Alter do Chão, distrito de Santarém, no Pará. Por ser de uma indígena não aldeada, a morte não foi contabilizada pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), órgão federal responsável por apresentar os dados oficiais que a ONG traz em sua plataforma on-line. 

“A Sesai só realiza o atendimento à população indígena que vive na zona rural. A gente não tem um jeito de monitorar os casos da população indígena que vive nas cidades, que são atendidos pelo SUS [Sistema Único de Saúde] e no dado dos boletins das secretarias estaduais de saúde não tem a discriminação se é indígena ou não indígena. Então, logo depois, lá no site, a gente colocou um bloquinho sobre os indígenas nas cidades”, explica Moreira.   

A morte da indígena foi a primeira registrada no Pará, estado que, nesta segunda-feira (6), contabilizou mais três óbitos, todos em Belém: duas mulheres de 50 e 100 anos de idade e um homem de 41 anos.

Vulnerabilidade indígena

Ao defender um monitoramento cuidadoso dos casos de coronavírus entre os povos tradicionais, o antropólogo Tiago Moreira destaca a vulnerabilidade dos indígenas a doenças infectocontagiosas.

“Os indígenas são uma população bastante vulnerável a esse tipo de doença infectocontagiosa e é uma vulnerabilidade que não vem tanto da suscetibilidade imunológica dessas populações, já que esse é um vírus novo e qualquer pessoa é tão vulnerável quanto eles, mas por condições socioculturais específicas que esses povos vivem. Você tem a realidade de boa parte da população indígena que vive em locais bastante afastados. A estrutura de atendimento de saúde preparada para essas populações é bastante precária. A gente resolveu criar essa plataforma para poder colocar tudo isso em perspectiva para poder acompanhar de perto como a epidemia está evoluindo e também ter um uma plataforma articulada para poder, a partir da constatação da situação, fazer pressão para que essas populações sejam atendidas de uma melhor maneira”.

Além dos dados de monitoramento, o site reúne ações voltadas para os povos indígenas, estimulando ações solidárias. Em Roraima, o Conselho Indígena (CIR) iniciou uma campanha para arrecadar doações como forma de auxílio durante a pandemia do novo coronavírus. Por sua vez, os povos indígenas do Sudeste brasileiro também estão arrecadando alimentos. A doação pode ser feita nos pontos de coleta.

“Tem também uma parte (do site) em que as pessoas podem conhecer iniciativas indígenas e colaborar com essas iniciativas, já que muitas delas são voltadas paro o recolhimento de dinheiro, de doações, para garantir que essas populações possam ter mantimentos e recursos para poder lidar com esse isolamento”, explica Moreira. 

Risco de dispersão

Comumente, mesmo fora de epidemia, boa parte dos indígenas mantém pouco contato com as populações urbanas. O antropólogo Tiago Moreira lembra que viver em isolamento não é algo novo para os povos, uma vez que vários viveram situações graves de epidemias, o que os levaram a se isolarem para sobreviverem. Contudo, o isolamento poderá provocar a dispersão dos grupos indígenas na floresta.

“Ao longo da história, uma das estratégias adotadas foi a do isolamento e a de abandonar aldeias, aldeamentos. Então, a gente tem ao longo do Brasil colonial muitas mortes com dados de populações inteiras sendo dizimadas por gripe, varíola, mas tem também uma estratégia de dispersão dessas populações. Então, agora a gente acredita que, além dessas iniciativas de fortalecer as comunidade através de doações e de recursos para manter o isolamento, a gente acredita que, nesse momento, têm muitas populações indígenas que estão procurando fazer essa dispersão, estão voltando para a floresta para poder se proteger em relação a essas epidemias”, explica.

Edição: Camila Maciel

Indígena com hori, instrumento kanamari, na Terra Indígena Vale do Javari, no Amazonas – Marcos Wesley de Oliveira/ISA

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