Bolsonaro, generais e seguidores querem fazer do Brasil uma imensa Guayaquil

Por José R. da Silva Maramonhanga

No Equador, a cidade portuária de Guayaquil registra o maior crescimento exponencial dos contágios e mortes causadas por Covid-19. “Brasileiro no Equador relata urubus no céu de Guayaquil após acúmulo de corpos de vítimas do coronavírus pelas ruas”, publicava o G1, do monopólio Globo, no último dia 16/4.[1] Imagens correram o mundo mostrando cadáveres jogados nas ruas de Guayaquil e dentro das residências, sem recolhimento, além de cenas dos hospitais colapsados e das pessoas do lado de fora, passando mal, sem atendimento.

Sob o manto de “emergência sanitária” foram deslocados mais de 90.000 militares e policiais, emprego de quase todo o contingente das forças armadas e policia nacional do Equador. O governo fascista do presidente Lenin Moreno decretou “estado de excessão” e lançou mais carga de impostos sobre a população; ao mesmo tempo, entre outras medidas, emite convocatória de “unidade em meio da crise” e decreta censura – o acesso à página web institucional do “Serviço Nacional de Gestão de Riscos e Emergências” só pode ser feita através do recolhimento prévio de dados pessoais.[2]

No Brasil, no “dia do Exército” (19/4), o general Edson Leal Pujol, comandante da tropa, destaca em sua “ordem do dia”: “somos 220 mil combatentes prontos para lutar sem temor!” e conclui bradando a consigna “Brasil Acima de Tudo!” Esta consigna é o mesmo slogan adotado pelo governo Bolsonaro e cópia de um dos um dos bordões nazistas da Alemanha de Hitler – “Alemanha acima de tudo”. Ao invés de buscar salvar vidas com medidas, como, a construção de hospitais de campanha para o atendimento da população, aplicação de outras medidas sanitárias e distribuição de medicamentos e alimentos, principalmente nas imensas regiões miseráveis do país, o que o Exército faz é contabilizar cemitérios e capacidade de sepultamentos diários. O Comando Militar do Leste confirmou a autenticidade de documento[3] enviado a prefeitos solicitando informações quanto ao número de cemitérios, disponibilidade de sepulturas e capacidade de sepultamentos diários. De forma cínica, afirmaram que a medida faz parte do planejamento de sua atuação.

Instigado pelos monopólios empresariais, como a Federação Brasileira de Bancos e a Confederação Nacional do Comércio, Bolsonaro continua a defender o “isolamento vertical” e a reabertura do comércio. Em aglomeração de apoiadores em frente ao Palácio do Planalto, na tarde de sábado (18/4) afirmou: “70% vai ser contaminado. Se não for hoje, vai ser semana que vem, mês que vem, é uma realidade”. A cantilena fascista de Bolsonaro é que estaria preocupado com a economia, os empregos e as necessidades dos trabalhadores informais mas as medidas econômicas que seu governo edita são todas para massacrar os pobres e arrochar os trabalhadores em benefício dos bancos e monópolios empresariais. Comungando com a ideologia bolsonarista, o ministro da educação, Abraham Weintraub, atua para forçar a volta às aulas, o que expõem cerca de 53 milhões de crianças e jovens a infecção pelo coronavírus. Sobre o fim da quarentena, Weintraub afirmou à radio Jovem Pan: “vai morrer muito menos do que 40 mil brasileiros (…) sendo que as pessoas que vão morrer de coronavírus são mais idosas”.

Através do seu perfil pessoal no “twitter”, Jair Bolsonaro informou que revogou, na sexta-feira (17/4), as portarias do Comando Logístico (Colog), que tratam do acompanhamento e rastreamento, identificação e marcação de armas de fogo, embalagens e cartuchos de munição e demais produtos controlados. Essa decisão, além de propiciar mais armamento das milícias e facilitar o desvio de armas e munições, visa dificultar a investigação e elucidação de crimes.

Propagação do vírus aumenta, hospitais à beira do colapso, caminhões frigoríficos são instalados para armazenar corpos, retroescavadeiras abrem mais sepulturas e pobres favelados serão as grandes vítimas

Ao mesmo tempo, aumenta a propagação da epidemia. Hospitais das cidades de Manaus, Fortaleza, Rio de Janeiro, São Paulo, estão à beira do colapso. Aumenta o número de internados em UTIs e o índice de mortes. Containers ou caminhões frigorifícos são instalados para armazenar os corpos das vítimas do novo coronavírus, como nos casos dos hospitais Delphina Aziz, em Manaus, e do Hospital Regional Zilda Arns, em Volta Redonda. Dados divulgados pela Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo na sexta-feira (17) mostram que a epidemia de coronavírus torna ainda mais flagrantes os efeitos da desigualdade social na capital paulista. Os distritos que têm mais casos oficiais de covid-19 estão entre os mais ricos do município, enquanto as regiões periféricas lideram em número de óbitos. Retroescavadeiras já abrem sepulturas extras nos cemitérios da Vila Formosa, na zona leste, e do Jardim São Luiz, na zona sul da cidade de São Paulo. No Rio de Janeiro, a concessionária responsável pelo maior cemitério da cidade, o “São Francisco Xavier”, no Caju, zona portuária, está construindo estruturas que comportarão 12 mil novas gavetas para caixões.

Favelas serão as grandes vítimas do coronavírus no Brasil, disse líder de Paraisópolis, em entrevista a agência de notícias BBC [4] – “69% das pessoas que trabalham em Paraisópolis trabalham na área de serviços: babá, zelador, porteiro. São as pessoas que mais vão sofrer. Tem muita gente que trabalha com aplicativo, com Uber, e logo vão parar de circular. O que vai ser dessas pessoas?”, questiona Gilson Rodrigues. Os moradores das favelas e bairros pobres já estão sendo as principais vítimas do novo coronavírus. A opressão, concentração de riquezas nas mãos de poucos e a desigualdade que imperam no país obrigam esses irmãos brasileiros a viver em ambientes insalubres e superlotados, sem condições de seguir recomendações até de lavar as mãos pois convivem com constante falta de água; falta dinheiro para comprar sabão, quiça álcool em gel e sequer para garantir a alimentação diária ou estocar comida. A maioria também não pode trabalhar de casa. Quem permanece nas precárias moradias convive com os dramas e sofrimentos extremos provocados pelo confinamento, vendo as panelas vazias e a doença se alastrar pela comunidade. Também são bombardeados pelo obscurantismo religioso propagado por empresários donos de seitas e pelas mentiras e desinformação veiculadas pelas monopolizadas redes de televisão

A troca de ministro da saúde, serve a quem?

Substituto de Luiz Henrique Mandetta (DEM), o novo ministro da saúde de Bolsonaro, o médico oncologista e empresário Nelson Teich, fez fortuna no setor privado e não tem intimidade com a gestão do Sistema Único de Saúde. Teich tem relações com o maior monopólio ianque voltado para negócios na área da saúde, o “United Health Group”.[5] Segundo informou o site BBC Brasil, Nelson Teich, que atuou como consultor informal da campanha eleitoral de Bolsonaro em 2018, é sócio da Teich Health Care. Esta empresa é um dos braços do grupo financeiro “United Health Group”, cuja especialidade é a venda de coberturas de seguros e serviços médico-hospitalares. Outro braço, a “Optum Logo”, é voltada para venda de serviços de informação e tecnologia para o setor de saúde. A AMIL, maior operadora de planos privados de saúde do Brasil, pertence ao “United Health Group”. O gigante de seguros de saúde com fins lucrativos, registrou lucros crescendo mais de 160 milhões de dólares durante o primeiro trimestre de 2020, à medida que a demanda por tratamento médico não essencial despencou enquanto as hospitalizações por coronavírus aumentavam. Em meio a pandemia projetam lucros e novos faturamentos.[6]

Em seu discurso de posse, Teich destacou o seu “alinhamento completo” com Bolsonaro. Em um vídeo de abril de 2019, Teich declarava: “na saúde, o dinheiro é limitado e escolhas são inevitáveis”, sugerindo que jovens têm prioridade sobre idosos. O pensamento mercantilista do novo ministro bolsonarista, de tratar a saúde como uma transação comercial, é também completamente incompatível com os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS). Ecoa em meio à população uma “pergunta que não quer calar”: “E se for um adolescente favelado e um banqueiro idoso? O ministro ia escolher quem????”. O ministro Teich também comete demagogias e fala que seu objetivo é “cuidar das pessoas”, só não diz que as pessoas que tem em mente são os donos dos monopólios e investidores que lucram com a saúde privada.

Bolsonaro e generais seguem o “manual” e atuam para causar o caos social

Bolsonaro e os generais atuam no sentido do “Estado ter que assumir papel centralizador na condução da crise pandêmica que ainda não sabemos quanto vai durar. Superada esta fase, já na crise econômica em curso – que atingirá todo o planeta – nós voltaremos ao ciclo de rapinagem que estava em acelerado processo nesta quadra atual. É provável que a miséria se acelere muito, o que levará à revolta popular, que será tratada como sempre foi: na ponta das baionetas. E aí as FFAA assumirão o seu papel tradicional na história do Brasil: o de ‘capitães do mato’, de repressores dos seus mais diletos cidadãos” – é o que acertadamente assinala a cientista social, Suzeley Kalil Mathias, em entrevista dia 15/4, ao Instituto Humanitas Unisinos.[7]

Já assinalei que o “comportamento de Bolsonaro, pode parecer errático e irracional; entretanto persegue fins determinados. Para desviar a atenção, Bolsonaro, respaldado pelos generais, aplicam manobras ensinadas nos manuais militares, como “diversão”, “inquietação” e “guerra psicológica”.[8]
Em meio a essas manobras, os fascistas lobos do governo com a cumplicidade do Congresso Nacional, STF e também os partidos políticos e centrais sindicais (pelegos e lobos em pele de cordeiro) executam um grande ataque aos direitos trabalhistas, aumenta a exploração, promove e financia temporariamente as demissões, o corte brutal de salários, etc., enquanto beneficia as corporações monopolistas.”

A aplicação de métodos fascistas de governo, a cruzada anti-comunista, a guerra comercial entre EUA versus a China e outras, as intervenções militares do imperialismo contra diversos países, as ameaças contra a Venezuela, etc, são aspectos de um mesmo fenômeno: a preparação de uma nova guerra por uma nova repartição do mundo. Mais uma vez, “a burguesia não pode manter por muito tempo sob sua hegemonia de classe as massas populares e afrontar as tarefas da estabilização e racionalização do capitalismo mediante as velhas formas e métodos da democracia parlamentar. A saída para a burguesia é submeter as massas por meio do fascismo”.[9]

Vivandeiras do fascismo clamam pelos “botões dourados”

As vivandeiras do golpe (empresários, pastores, especuladores e desavisados) saíram às ruas em diversas cidades do país neste domingo (19/4) e se concentraram em frente às instalações militares e pontos centrais em algumas cidades do país clamando pela intervenção de militares denominados “botões dourados”. Em frente ao quartel general do exército, em Brasília, o fascista Jair Bolsonaro discursou em frente a aglomeração de militantes de extrema-direita que pediam o fechamento do Congresso e o retorno do Ato Institucional número 5 da ditadura militar. “Não queremos negociar nada”, afirmou ele, em cima de uma caminhonete. O discurso foi transmitido ao vivo por suas próprias redes sociais. Fez arengas contra a “velha política”, da qual se locupletou por 30 anos como parlamentar e continua a se locupletar. “Nós queremos é ação pelo Brasil. O que tinha de velho ficou para trás. Temos um novo Brasil pela frente. Todos, sem exceção, têm que ser patriotas. Acabou a época da patifaria. É agora o povo no poder (sic). Mais do que um direito, vocês têm obrigação de lutar pelo país de vocês. Contem com o seu presidente.” conclamou o golpista.[10]

Mostra a experiência histórica que os trabalhadores e o povo devem se preparar para responder com violência à violência; fazer todo o possível para impedir que a ordem agonizante os esmague, não permitir que algeme as suas mãos, estas mesmas mãos que irão demolir o sistema apodrecido. O fascismo apesar de sua ferocidade é frágil pois se sustenta em bases podres. A classe operária e o povo devem aumentar e elevar a sua organização para abater os lobos fascistas e sanguinários, combatendo todo tipo de oportunismo e tergiversação nesse grave momento da história nacional!!!

Quixeramobim, 19 de abril de 2020

José R. da Silva Maramonhanga

[1] https://g1.globo.com/mundo/noticia/2020/04/16/brasileiro-no-equador-relata-urubus-no-ceu-de-guayaquil-apos-acumulo-de-corpos-de-vitimas-do-coronavirus-pelas-ruas.ghtml

]2] https://www.gestionderiesgos.gob.ec/politica-datos-personales/

]3[ https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2020-04/comando-militar-do-pede-informacoes-sobre-capacidade-de-sepultamentos

[4] https://www.bbc.com/portuguese/brasil-51954958

[5] https://www.unitedhealthgroup.com/investors.html

[6] https://www.democracynow.org/2020/4/17/headlines/unitedhealth_group_profits_surge_as_coronavirus_spreads

[7] http://www.ihu.unisinos.br/598032-as-brigas-palacianas-sao-apenas-pela-forma-nao-pelo-conteudo-entrevista-especial-com-suzeley-kalil-mathias

[8] Quem manda no Bolsonaro? | Combate Racismo Ambiental

[9] Dimitrov – Sobre as medidas de luta contra o fascismo e os sindicatos amarelos

[10] https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/04/19/jair-bolsoanaro-nao-queremos-negociar-nada-manifestacao-anti-congresso

Destaque: Coppo di Marcovaldo, Inferno (1260-70). Fragmento de mosaico do teto do Batistério de Florença

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