O tão romantizado “home office”, novo fio invisível da exploração neoliberal, escancara a importância do serviço doméstico. É motor de pulsação do cotidiano. Mas, desvalorizado e sub-remunerado, expõe mais uma desigualdade de gênero
Por SOS Corpo, na coluna Baderna Feminista / Outras Palavras
A forma de desenvolvimento capitalista produziu historicamente uma vida cotidiana em que o tempo social que conta, ou seja, o tempo de trabalho que tem valor, é aquele empregado na produção de mercadoria, gerador de mais-valia. A apropriação do tempo de trabalho é uma dimensão fundante e permanente da organização social capitalista.
Neste sistema, que é consubstancialmente patriarcal e racista, o trabalho produtivo é uma dimensão central e determinante na organização e nas dinâmicas da vida cotidiana. A ideologia dominante construiu uma aparência da vida social na qual as necessidades humanas, concretas e diárias, não são levadas em consideração. É sempre, e cada vez mais, o lucro o que importa.
No atual tempo moderno influenciado pela pandemia do covid-19, o home office é o termo que está em voga nos principais sites, em propagandas de bancos e empresas de telefonia no Brasil. O tal do “escritório em casa” tem sido uma modalidade de trabalho romantizada há muito tempo, especialmente pela categoria de coachs que enriqueceram às custas de um discurso do “seja você seu empreendedor” — ou são eles(as) mesmos vítimas da armadilha. Porém, em tempos de crise social, econômica e sanitária provocada pelo novo coronavírus, essa romantização tem ajudado a aprofundar as desigualdades de gênero, de raça e de classe e é um artifício para precarizar e superexplorar o trabalho, principalmente das mulheres.
O que para alguns se apresenta como solução em tempos de confinamento, o home office, na verdade, esconde algumas realidades díspares e desiguais. Uma delas é de quem tem acesso, possibilidade e até mesmo as condições de trabalhar em casa, uma vez que nem toda classe trabalhadora está situada em empregos formais ou possuem uma estrutura doméstica que possibilite a reprodução de um “escritório em casa”. E, sobretudo, que estejam em um trabalho possível de ser executado remotamente. Mesmo nestes contextos, somos nós, mulheres, aquelas que mais têm sido alvo desta modalidade de trabalho, especialmente como forma de precarizar e promover a chamada conciliação entre trabalho remunerado e não remunerado.
Assim, o home office é uma forma de organização do mundo do trabalho que aprofunda a exploração e destituição da classe trabalhadora e de nossos direitos formais, como por exemplo, o direito ao tempo para ter uma vida para além do trabalho. Um exemplo disto são os serviços de internet banking, que substituem a prestação de serviços presenciais, e consequentemente, postos de trabalho, já que a automação transfere a responsabilidade do serviço para o próprio usuário. Temos o nosso tempo invadido, seja o tempo do almoço, do café da manhã, o tempo do lazer e até mesmo o tempo do sono, para realizar um serviço que é de responsabilidade dos bancos. Isso gera lucro para as instituições financeiras em cima da nossa exploração.
Dentro da perspectiva de trabalho neoliberal, o home office imprime um regime de trabalho que é intermitente, já que estamos, a todo momento, conectadas(os) a ele, ao alcance de uma notificação de email que chega na tela do seu celular. Isso acontece quando a fronteira temporal é rompida e tempo do privado, o direito a nossa vida individual e subjetiva, é roubado pela exploração continuada do trabalho. Se o aspecto temporal foi destituído com o avanço da tecnologia, e consequentemente, da expansão do sistema capitalista, é preciso salientar que esta ampliação também aprofunda as desigualdades de gênero, raça/etnia e classe que estruturam as relações sociais.
Se a base da exploração é a apropriação do tempo e da nossa capacidade de trabalho, as tecnologias da informação realizam um novo ardil do capital: estabelecer jornadas simultâneas (além de intensivas, extensivas e intermitentes). Vários tempos e habilidades são apropriados ao mesmo tempo! Podemos ser exploradas pelo banco enquanto colocamos a roupa para lavar no momento de intermitência na jornada profissional. Pela internet se reproduzem novos fios invisíveis da exploração, não muito diferentes do que o velho e atual Marx denunciou no trabalho em domicílio do século XIX… O trabalho aumenta enquanto quem nos explora (como os bancos que ofertam o home bank) parecem desaparecer…
A promessa de que a tecnologia liberaria tempo de trabalho mostra-se uma falácia. Trabalhamos muito mais, ao longo do dia e fazendo tarefas simultâneas. O que se disse do celular, foi dito outrora dos equipamentos domésticos. Nós, mulheres, não tivemos nosso tempo liberado pela máquina de lavar. Passamos a fazer outras tarefas, simultaneamente. No home office, as tecnologias do trabalho doméstico e profissional não nos livram do cansaço e estresse sentido no corpo, testemunha da conciliação impossível.
Uma outra questão por trás da “praticidade” desta nova forma de trabalho, é a realidade da grande parte da classe trabalhadora que não pode trabalhar em casa. Seja por estarem em serviços que precisam do esforço físico para serem realizados, como o das(os) trabalhadoras(es) domésticas(os), da limpeza urbana, trabalhadoras(es) informais, da construção civil, dos demais serviços tidos como essenciais e trabalhadores das linhas de produção das grandes indústrias, que ao contrário de seus chefes e CEOs, estão mantendo a máquina econômica em pleno funcionamento. Sejam aquelas e aqueles que só conseguem uma fonte de renda por venderem sua mão de obra em trabalhos extremamente precarizados e análogos à escravidão. Estes postos de trabalho têm gênero, raça/etnia e classe social definidos, sendo majoritariamente preenchidos por uma classe trabalhadora mais empobrecida, negra, periférica e migrante.
Em tempos de pandemia, a romantização de uma prática que já vinha sendo feita em cima de condições conflitantes com os direitos da classe trabalhadora precisa ser olhada com cuidado. A situação que estamos enfrentando atualmente com a crise do novo coronavírus, em relação ao trabalho, não é uma situação nova, mas que tem o poder de ampliar o cenário de desordem e destituição dos empregos com a naturalização da prática do home office e a construção discursiva por trás dela.
É só fazer uma pesquisa sobre o tema em sites de busca ou no youtube, que é possível perceber que a narrativa que tem enaltecido essa nova modalidade está voltada para o aprimoramento da produção, colocando o mundo privado, a casa, na cadeia do valor em escala global. A atual crise aprofunda um cenário que já vinha se alargando antes, provocando uma reestruturação do mundo do trabalho como o conhecemos, de empregos formais com carteira assinada.
A fórmula vendida agora são passos para tornar o trabalho em casa mais lucrativo e produtivo, porém, por trás disso, há uma agudização da divisão sexual e racial do trabalho, por exemplo. Esse discurso de que o trabalho precarizado em casa faz parte de um hábito que está sendo demandado pela própria sociedade, é, na verdade, exatamente ao contrário. Esta nova fase do trabalho neoliberal é uma demanda do próprio sistema e as transformações no mundo do trabalho já vinham caminhando para isso. As narrativas reforçadas pelas propagandas e discursos que romantizam o home office criam uma cultura que fortalece uma reestruturação do mundo do trabalho produtivo e reprodutivo. A condição de trabalho excepcional e necessária pode ser transformada em regra pelo capital 4.0 para exponenciar seus lucros.
A naturalização recai, mais uma vez, na divisão sexual do trabalho, questão que já vinha sendo denunciada ao longo da história recente pelo movimento feminista: o trabalho doméstico simultâneo entre o trabalho produtivo e reprodutivo das mulheres. Em situação de confinamento, a correlação de força entre homens e mulheres se agudiza para o lado desigual desta relação e há, mais uma vez, uma sobrecarga de trabalho para nós.
No coração do cotidiano, está o trabalho doméstico como um motor da sua pulsação, para dizer de forma metafórica, e como uma dimensão vital da reprodução humana, da força de trabalho e da reprodução social. Cabe às mulheres, como uma atribuição social e historicamente constituída, a responsabilidade prioritária com o trabalho doméstico, seja gratuito no interior da sua própria casa, seja remunerado, quando toma a forma de um emprego.
Em uma sociedade que se sedimenta em uma cultura patriarcal, racista e capitalista, o discurso de que é possível ser produtivo no trabalho em casa pode determinar a consolidação de estruturas de divisão do trabalho em nível internacional, a estrutura social do trabalho de forma mais ampla, de mais exploração de classe trabalhadora e que terá impactos substanciais no pós-pandemia, como o aumento da divisão sexual e racial do trabalho.
Esse modelo masculino e da branquitude do trabalho neoliberal, que reforça o lugar dos homens no mundo produtivo e das mulheres no reprodutivo amplia a divisão sexual e racial do trabalho, uma vez que, no contexto do home office ou não, o trabalho do cuidado continua recaindo nas costas das mulheres, e em alguns contextos, triplamente para as mulheres negras. O trabalho se reestrutura para manter o sistema intacto, com seus sustentáculos racistas e patriarcais a serviço da ordem capitalista. Neste contexto de pandemia e confinamento, essa dinâmica se estende para outras categorias de trabalhadoras. E leva a uma exploração do tempo de trabalho muito mais aguda.
Para aquelas em confinamento, a sobrecarga se intensifica junto ao aumento da violência doméstica, que cresce também com a violência que resulta na desigualdade entre trabalho produtivo e reprodutivo presente na relação entre mulheres e homens. Quando a sobrecarga do cuidado com os filhos recai sobre nós, que além de cuidar da casa, da alimentação e agora, também da educação de nossas crias, para os homens, o trabalho em casa é transformado em fuga para se abster da responsabilidade na divisão das tarefas domésticas e familiares. Há uma mudança na dinâmica social provocada pela pandemia, mas não da exploração de determinados corpos e subjetividades.
No contexto atual, as contradições engendradas pelo trabalho doméstico aumentam com a hegemonia das políticas neoliberais que desestruturam e/ou eliminam políticas sociais de apoio as necessidades e a reprodução da vida cotidiana. Enquanto movimento feminista, avançamos muito na crítica e na análise sobre os efeitos nocivos da divisão sexual do trabalho, mas o avanço, dentro de um contexto de constante tensionamento e disputa, ainda não se efetivou em mudança de patamar sobre as relações sociais de sexo. A divisão sexual do trabalho ainda continua sendo um dispositivo que produz as hierarquias baseadas em gênero.
Nos tempos “modernos” que estamos vivendo, em que o lugar da classe trabalhadora no mundo ainda é o da desumanização, é preciso estarmos atentas(os) aos novos termos e propostas vindas do sistema-mundo capitalista-racista-patriarcal. Pois os velhos paradigmas de exploração da classe dominante vão se recompondo, se reestruturando, tomando uma “nova” roupagem para continuar ampliando as velhas estruturas. Estamos em disputa, sobretudo das narrativas e práticas, do que vai ser o mundo depois da pandemia.

Grato por oferecer este belo discurso sobre “novos fios invisíveis de exploração” nestes dias das pandemias Corona e Neoliberalismo!
Não posso deixar, porém, fazer uma crítica. Alias, uma crítica que ando fazendo por três décadas e meia já. E que continuo fazendo ate hoje, como aqui mesmo. E temo que não haja perspectiva de sucesso desta minha crítica por muito tempo a vir ainda. Já que se trata de uma das mais exitosas e duradouras fake news da história: a invenção da existência contemporânea de raças humanas-plural.
Embora que temos nas mãos incontestáveis provas multidisciplinares da inexistência de raças humanas-plural, com as da genética preeminentes, graças aos trabalhos de Luigi Luca Cavalli-Sforza e dos pesquisadores do DNA nas mitocôndrias pela Universidade de Berkely, Califórnia, e tantos outros, a lenda e a crença em atuais raças-plural continuam vivas.
E em nenhuma parte do mundo são mais vivas que nas assim-chamadas “Américas”. Como consequência dos regimes racistas aqui instaladas com a escravização primeiro das gentes autóctones e, depois, a importação de gentes aprendidas na África. Precisavam aliviar a sua consciência os que lucravam com este sistema, inventaram raças e uma hierarquia de raças. Com a “branca” (os senhores escravocratas) no topo, e as outras antes como homens-besta, desprovidas ate de almas.
Quem hoje em dia acredita em ou fala de raças humanas a miúdo é racista que precisa desta afirmação porque não aguenta o fato de sermos todos uma única raça humana só. Estes doentes temos ainda em todo canto do mundo.
Mas nas “Américas” é diferente, pior. Aqui, devido a História acima tocada e a tradicional e geralmente péssima qualidade do ensino público, a crença está muito mais enraizada. Quer dizer, não “apenas” nos racistas-núcleo-duro, mas nas populações em geral. Até naqueles que através dos séculos são as vítimas principais do racismo e também entre esses que se entendem como antirracistas. Que ironica-mente lutam contra o racismo reforçando-o. Ao prorrogar a fake news que existem raças múltiplas através do uso de invenções semânticas como “raça negra” ou “raça indígena”. Em vez de aprender e assimilar que não existem e que conse-quentemente tampouco poder haver chão “racional” para o racismo.
Enfim, também a nossa conceituada autora do belo discurso anexado, é uma pessoa condicionada pela História e contemporaneidade “americanas” e ainda não consegue assimilar o fato de não existirem raças humanas-plural por no mínimo os últimos cinco mil anos em nossa Mãe Terra.
O texto dela demostra que é antirracista. Porém, sua insistência de falar em raças humanas-plural fortalece o ilusório (e risório) chão dos racistas.
Detalhe interessante que a autora manifesta inconscientemente sua má consciência ao falar (e assim afirmar o que é impossível de ser afirmado cientificamente, até porque foi confirmado o contrário) em raças humanas-plural. A primeira vez no seu discurso que se refere à raça deixa a palavra sozinha. Nas segunda e terceira vezes já coloca “raça/etnia”, como se quisesse dizer, sei que não tem raça, mas usa outra palavra, a palavra etnia, para teimar no mesmo erro da divisão “científica”.
Neste mesmíssimo sentido de não existirem raças humanas-plural e que o racismo se combate primeiro com o amplo entendimento deste fato, temos de deixar, também, criar expressões como “divisão racial” que a autora aplicou várias vezes na segunda metade de seu discurso. Primeiro porque esta “divisão racial” não é possível diante o fato de constituirmos uma só raça humana. E segundo porque fortalece, mesmo contra vontade, os racistas.
O que persiste, sim, são os frutos das fake news de outrora de haver raças humanas-plural, nomeadamente uma divisão racista da humanidade, baseada em nuances de cores.