Pandemia e governantes colocam escolas do campo em risco e expõem professores à fome

Com o pretexto do coronavírus, prefeitos fazem dispensas sem justificativa e encampam projetos em favor do lucro

Erick Gimenes, Brasil de Fato

disseminação do novo coronavírus deu a governantes o impulso para desatar anos de desenvolvimento educacional no campo. Com a doença como desculpa, vários prefeitos e governadores promovem demissões, mudanças estruturais e dão respaldo a projetos de domínio econômico, pouco importantes ao ensino.

À medida em que as mortes pela covid-19 se amontoam cada dia mais no Brasil, sem expectativa de que a pandemia seja controlada, educadores, alunos e pais se viram como podem para dar conta de cumprir um calendário escolar que não foi suspenso na maioria dos locais.

Em alguns casos, o conteúdo ainda é ministrado como se não houvesse vírus fora das casas e escolas, por meio do Ensino a Distância (EaD), com uso de internet não raramente de sinal fraco.

A substituição do método presencial, no entanto, vai contra a concepção de educação forjada nas comunidades rurais, segundo Manuela Aquino, do Coletivo Nacional de Educação do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST).

“O desenvolvimento do ser humano abrange várias questões, desde você pensar na educação infantil, do contato com o outro, estabelecer limites, conhecer o outro. A escola não é só o conteúdo escolar. É toda uma vivência – você saber conviver em sociedade, você desenvolver suas habilidades. Qual tipo de ser humano a gente quer forjar? Quando a gente pensa nas nossas escolas, a gente quer uma educação crítica. Isso já acaba com a questão do EaD”, afirma a educadora.

Para ela, o EaD é um projeto econômico que o governo tenta implementar desde antes da pandemia, com o objetivo de atender a interesses de grandes conglomerados – Elizabeth Guedes, irmã do ministro da Economia, Paulo Guedes, por exemplo, é presidente da Associação Nacional de Universidades Privadas (Anup), que representa monopólios educacionais, como Anhanguera, Estácio, Kroton, Uninove e Pitágoras.

“Não é de hoje a questão do EaD. Já existe há muito tempo e já existe todo um monopólio desses grandes conglomerados. Agora, pela questão da pandemia, só veio se agravar e acelerar esse processo. Se você for ver, o que está acontece são grandes acordos: com a Google, com grandes redes de tevê, com as empresas de telefonia. Sempre se discute que a educação pública não tem recurso, não tem recurso, e agora tem uma transferência que cada estado está fazendo por conta, com essas grandes corporações midiáticas”, relata Manuela.

A educadora salienta que, mais uma vez, a condição social é critério para saber quem mais vai ser prejudicado com a crise. “É o que o pessoal agora está chamando de ‘apagão da educação’. Porque, de fato, ela não está acontecendo e não vai acontecer. Olha a vulnerabilidade, olha a desigualdade social que existe em nosso país. Você fingir que as medidas são para todos iguais, não são. E ela vem cada vez mais, a EaD, excluir uma parcela que já era excluída”, ressalta.

Demissão e fome

A professora Joelma Araujo Silva, assentada no município de Santo Amaro, no Recôncavo baiano, é parte de uma estatística ainda não computada pelo governo: ela foi demitida sem justificativa logo que a pandemia chegou. Sem nenhuma formalidade, recebeu a notícia em uma ligação rápida da diretora.

“No começo de abril, a diretora ligou pra gente, disse que o prefeito falou que era para fazer esse comunicado [da demissão] via ligação, que não era para mandar mensagem de forma alguma, falando que todas estariam demitidas e só retornaríamos para a folha de pagamento quando acabasse essa pandemia”. Ela diz acreditar que a ordem do chefe municipal é para não deixar provas da dispensa.

Trancada em casa com dois filhos, a educadora se viu perdida em dívidas, contas que não deixam de chegar e na impossibilidade de encontrar um novo trabalho.

“Para mim, está sendo muito difícil, porque eu só tinha essa renda. Eu não tenho condições nem de procurar outros meios, devido ao fica em casa. Hoje estou vivendo, praticamente, de doação. Não sei o que fazer, não sei como vai ser daqui para frente. Estou vendo que vou até precisar fazer uma terapia para ter como digerir essa situação”, relata.

Joelma diz viver de ausências. “Falta tudo, falta tudo. Estou no SPC [Serviço de Proteção ao Crédito], Serasa, devo cartão. Não sei nem como comer. Hoje e amanhã, não sei de onde vou tirar”, desespera-se.

Há algo, porém, que não deixou de existir: a solidariedade de vizinhos de assentamento. “Amigos, pessoas vizinhas que sabem da nossa situação de vez em quando dão uma ajuda. Convite de almoço, de vez em quando, porque eu tenho um pouco de dificuldade de pedir ajuda. Aí as pessoas me convidam para almoçar na casa delas”, relata.

A professora conta que nunca viveu situação tão humilhante na vida e afirma se sentir um “lixo jogado fora”. Mesmo assim, questionada se pensa em abandonar a profissão, ela não titubeia.

“Não é difícil responder quando você tem alunos que lhe amam, que lhe respeitam, que acreditam que você pode ajudar ele, transformá-lo. Acaba que você não tem vontade de sair, embora tenhamos todos os motivos do mundo para não querer estar nessa profissão. É uma profissão que requer muito amor, e a gente é muito amada. É gratificante você ver um aluno sonhar, acreditar, às vezes querer ser como você”, ressalta.

A situação de Joelma se assemelha a de outras dezenas de professoras da Bahia. De acordo com a educadora Sintia Palma Carvalho, do Coletivo de Educação do MST do estado, mais de 50 profissionais foram dispensados por administrações municipais.

Em todos os casos, a justificativa foi a crise econômica causada pelo coronavírus, embora o dinheiro da educação siga sendo destinado normalmente pelo governo federal aos municípios.

“As secretarias de educação não estão preocupadas com as famílias, não estão preocupadas com as crianças. Não sei como eles fazem, porque a gente sabe que o dinheiro da escola vem, o dinheiro do Fundeb [Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica] é um dinheiro certo. Eles usaram outros critérios, dizendo que a prefeitura está em dificuldade, não tem condições de fazer contrato”, suspeita.

Sintia teme pelo fechamento de escolas. “Depois dessa pandemia, a gente não sabe se essas turmas vão continuar. É uma perda muito grande para todos nós que lutamos pela educação pública de qualidade. Neste período de pandemia, a gente percebe que vão ficar muitas interrogações”.

Empatia no caos

Izélia da Silva trabalhava na secretaria de uma escola no assentamento Paulo Kageyama, no município de Eunápolis, no extremo sul da Bahia, antes de também ser dispensada pela prefeitura, em abril. O contrato dela foi suspenso por tempo indeterminado, sem obrigatoriedade de ser restabelecido.

“Quando o prefeito faz isso, ele acaba dizendo para a sociedade que ela não tem valor, que a educação não é prioridade em tempo de pandemia e que a gente tem que engolir, sabendo que esse dinheiro, todo mês, entra no cofre público do município”, julga Izélia.

A secretária afirma ter várias dívidas acumuladas, feitas antes de saber que perderia o emprego, mas agradece por morar com os pais, que são agricultores. “Como meus pais são produtores, são sem-terra, agricultores, a gente tá buscando outros meios de sobrevivência, através da agricultura familiar, produzindo e revendendo”.

Em meio à angústia de não ter mais emprego, Izélia achou espaço para se solidarizar com quem não tem a mesma sorte dela. Ela e a família decidiram doar alimentos que produzem – mandioca, feijão, milho, quiabo – para professores do município que não têm o que comer. 

“Para mim, me colocar em um momento de solidariedade, estar ajudando as pessoas, é muito importante. Apesar de estarmos no mesmo barco, na mesma navegação, em qual posição estamos na navegação? É se pensar nisso, se colocar no lugar do outro”, reflete. “Fazer o bem é receber o bem também. Quanto mais a gente ajuda, mais gratificante é”.

Edição: Leandro Melito

Imagem: ARQUIVO MST

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