Prisão de Fabrício Queiroz reorganiza o tabuleiro do xadrez político e pressiona o poder central. Entrevista especial com José Cláudio Alves

Por: João Vitor Santos e Ricardo Machado, em IHU On-Line

A última aparição pública de Fabrício Queiroz havia sido, até ontem, no dia 12 de janeiro de 2019, quando gravou um vídeo dançando num quarto de hospital, que acabou viralizando nas redes sociais. Desaparecido há um ano e meio, foi encontrado e preso ontem, em Atibaia, no litoral paulista. O impacto repercutiu imediatamente em Brasília, tanto que o presidente Bolsonaro, que costuma dar atenção à claque que diariamente se instala na frente do Alvorada, passou direto e não deu nenhuma declaração.

A prisão de Queiroz se dá em um momento de absoluta crise política, em meio às mais de 47 mil mortes por coronavírus no Brasil e no mesmo dia que Weintraub deixa o Ministério da Educação. As tensões ligadas ao amigo íntimo da família Bolsonaro se dão porque ele pode ser o elo principal entre dois crimes, em investigação, dos quais são suspeitos de envolvimento: as “rachadinhas” da Alerj e o assassinato de Marielle Franco.

“Esse é um elemento novo, que acrescenta uma diferenciação e pode trazer uma precipitação desse quadro político que estamos vivendo. De que forma essa precipitação vai ser construída, quais as reações, como a Justiça de fato vai se posicionar diante de informações que possam apontar o comprometimento dos Bolsonaro com a estrutura miliciana, ainda não se sabe claramente”, pondera José Cláudio Alves em entrevista por telefone à IHU On-Line.

O momento de caos vivido no país, segundo o entrevistado, acaba favorecendo o poder central, especialmente o presidente Jair Bolsonaro, que parece se favorecer desse cenário para se manter, ainda que sobre a corda bamba. “Esse cenário e todas essas crises em si mesmas acabam não solucionando essas questões, pelo contrário. Toda essa dissimulação, dispersão, todo esse cenário incontrolável, assustador, acaba fortalecendo e beneficiando a estrutura do poder que está no Planalto Central”, complementa.

José Cláudio Alves é graduado em Estudos Sociais pela Fundação Educacional de Brusque. É mestre em Sociologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio e doutor, na mesma área, pela Universidade de São Paulo – USP. É professor na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que significa a prisão de Fabrício Queiroz? Quais as repercussões políticas desse fato?

José Claudio Alves – A prisão de Fabrício Queiroz era uma questão já dimensionada há muito tempo como determinante nas investigações em duas grandes questões no Rio de Janeiro: na operação que envolve as investigações relacionadas ao comprometimento de verbas de gabinetes parlamentares de deputados estaduais do Rio de Janeiro, entre eles o próprio Flávio Bolsonaro, com o esquema de construção e venda de imóveis ilegais pela milícia na zona oeste do Rio de Janeiro; e nas investigações sobre o crime de assassinato de Marielle Franco. Fabrício Queiroz era um elemento de ligação, por conta do relacionamento próximo que mantinha com Adriano Magalhães da Nóbrega, assassinado pela polícia numa operação na Bahia em fevereiro deste ano, como também era próximo ao Ronnie Lessa, que está preso como um dos envolvidos no assassinato da Marielle. Parece que havia uma proximidade entre esses personagens vinculados à milícia de Rio das Pedras e, assim, Fabrício Queiroz era uma figura chave, porque com a morte de Adriano Magalhães da Nóbrega, houve uma perda significativa de, talvez, um dos nomes mais importantes envolvidos nesses crimes que comentei.

Queiroz também participava de um esquema de altíssima movimentação financeira, que foi identificado na época pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras – Coaf. O Coaf identificou essas movimentações de milhões, que estavam completamente fora do padrão de rendimentos que Fabrício Queiroz possuía. Assim ele se tornou uma figura chave vinculada à família Bolsonaro, especialmente a Flávio, um dos filhos de Jair Bolsonaro. E, além disso, a prisão se deu no sítio do advogado que está atuando tanto para Flávio como para Jair Bolsonaro. Há uma conexão entre esses elementos.

Claro, não sabemos se, de fato, as investigações, os depoimentos, o processo judicial chegarão a ampliar e aprofundar todos esses elementos de unidade. Seria determinante para o Rio de Janeiro, para o Brasil e para o mundo trazer à baila os crimes que envolvem as milícias e que as fazem muito próximas da estrutura do poder central hoje no Brasil. Até agora, essas investigações não avançaram, pois houve muita obstrução judicial. Pode ser que agora o momento político faça com que o Judiciário efetivamente cumpra seu papel, o qual não vem cumprindo e que vem tratando de uma forma escamoteada e distendida.

Tudo isso leva a crer que a prisão dele é determinante, fundamental, e a obtenção de informações, talvez não tanto dele próprio, mas de celulares, dos computadores, dos arquivos, do material que foi apreendido, possa trazer elucidações importantes para a compreensão de tudo isso que estamos vivendo. De fato, percebo isso como muito muito importante. Vamos ver, agora, os desdobramentos dessa operação.

Comprometimento do poder central

Sobre as repercussões políticas, penso que podem ocasionar um comprometimento da estrutura do poder central – ou mais um, porque são vários – chefiada por Jair Bolsonaro, pelos filhos e toda essa política que se instalou no poder central do Brasil. E as repercussões vão, também, depender das informações fornecidas por Fabrício Queiroz. Ele até agora tem, de forma absolutamente dissimulada e furtiva, ocultado essas informações. Obtendo-se as informações e comprovando a aproximação real entre a estrutura dos Bolsonaro e a dimensão miliciana de Rio das Pedras – e também na zona oeste do Rio de Janeiro de uma forma mais ampla a partir de mercados ilegais ou mesmo se houver comprovação da aproximação desse grupo com o assassinato de Marielle Franco – se tem, assim, um impacto significativo.

A estrutura política do Congresso vem se mantendo atada e prisioneira do poder central a partir do interesse na distribuição de emendas parlamentares, de negociações com o Centrão para a manutenção de Bolsonaro, no toma lá dá cá da velha política clientelista, fisiológica, absolutamente tomada e hoje comprometida com Bolsonaro. Aliás, ele negou que faria isso, mas está fazendo de uma forma muito intensa. A prisão do Queiroz e as informações decorrentes dessa prisão podem trazer um elemento que fuja a esse jogo do poder político central junto ao Centrão, que é a base fisiológica conservadora no Congresso Nacional, e possa permitir, então, um elemento outro, uma variável sem muito controle por parte do jogo político, uma variável já dada na mão da própria dimensão da Justiça Criminal.

Esse é um elemento novo, que acrescenta uma diferenciação e pode trazer uma precipitação desse quadro político que estamos vivendo. De que forma essa precipitação vai ser construída, quais as reações, como a Justiça de fato vai se posicionar diante de informações que possam apontar o comprometimento dos Bolsonaro com a estrutura miliciana, ainda não se vê claramente. Mas há uma hipótese, que se levanta no horizonte com muita intensidade, de que a morte de Adriano Magalhães da Nóbrega, em fevereiro, foi cronometrada para um ano eleitoral. Isso porque nesse contexto se permitiu o esquecimento de tudo, o apagamento de provas e evidências que poderiam estar com ele – estão com os três celulares que foram capturados com Adriano, mas essas informações não vieram à baila e penso que isso seja parte de uma negociação entre os Bolsonaro e o [Wilson] Witzel [governador do estado] no Rio de Janeiro.

Esse fato da prisão do Fabrício pode contornar tudo isso e trazer uma dimensão incontrolável e imponderável até o presente momento. Se ficar meramente num jogo de tensões, de informações ocultadas, de um jogo político baixo no submundo da política – o que é o mais comum no Brasil – tudo isso pode ficar apagado. Isso é mais comum no perfil do Judiciário e na relação e comprometimento dele com a política nos dias de hoje. Não é algo tão simples como possa parecer. Vai entrar agora em cena toda uma movimentação dos setores políticos, econômicos, tendo em vista o grande cenário deste ano que é o processo eleitoral municipal, localizada na capilaridade dessa estrutura de organização de poder que levou Bolsonaro ao governo central do país. Toda essa estrutura é importante e determinante para sua sobrevivência e aprofundamento das conexões dentro do espaço local para poder, em 2022, lutar pela manutenção, pela continuidade do aprofundamento desse projeto.

IHU On-Line – Além da prisão de Queiroz, o governo também está envolto em uma conjuntura de muita instabilidade, brigas e disputas políticas e, ainda, de pandemia e crise econômica. Como o senhor lê esse cenário?

José Claudio Alves – Esse cenário e todas essas crises em si acabam não solucionando essas questões, pelo contrário. Toda essa dissimulação, dispersão, todo esse cenário incontrolável, assustador, acaba fortalecendo e beneficiando a estrutura do poder que está no Planalto Central. Eles tem à frente do processo o caos, a confusão, o conflito, as ações na Justiça, as prisões, as mortes pelo novo coronavírus. Tudo isso são materiais, combustíveis, alimentos fornecidos para a estrutura que levou Jair Bolsonaro ao poder.

Nessa estrutura, as Forças Armadas têm papel determinante e vêm sendo o grande fiador desse processo na sua dimensão de poder de sustentação. Também têm influência todas as dimensões religiosas, as não religiosas mas conservadoras, toda essa dimensão branca de poder racista, do poder homofóbico, LGBTfóbico, de grupos econômicos fortalecidos nessa lógica conservadora e que se apoiam. São também os grupos que estão destruindo a Amazônia, como o agronegócio, mineradores, grandes projetos que estão também sustentando essa estrutura de poder. E, por fim, ainda dão sustentação as camadas populares que se viram absolutamente deserdadas, abandonadas ao longo do tempo, mesmo com a estrutura de poder antiga do PT e da dita esquerda, que de certa forma não permitiu que essas camadas avançassem em termos de mobilidade social ascendente e que nada mais é do que o prolongamento do fosso econômico e social que o Brasil vive.

Até agora, o que vimos é que esses grupos se alimentam desses confrontos e se consolidam cada vez mais, ampliam sua força. Essa dimensão ilegal das milícias tem se expandido aqui no Rio de Janeiro e em todo o Brasil. Não vejo uma saída que se aproxime ou algo que seja mais fácil de resolver. É claro que provoca óbices, desistência, mas não percebo que isso ainda chegou a um momento decisivo e, pior, num ano eleitoral, isso pode se arrastar bastante.

Imagem: Reprodução Veja

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