Para combater nuvem de gafanhotos, governo libera mais usos para agrotóxicos

Ministério da Agricultura autorizou a importação de agrotóxicos não aprovados para certas culturas, mas ainda não definiu quais. Inseticidas usados por outros países para combater os gafanhotos também são fatais para abelhas e outros insetos

Por Pedro Grigori, Agência Pública/Repórter Brasil

Na última semana, uma grande nuvem de gafanhotos vinda da Argentina causou apreensão entre os produtores do sul do Brasil. De acordo com o Ministério da Agricultura da Argentina, os gafanhotos são da espécie Schistocerca cancellata. Eles não oferecem risco aos humanos, não são venenosos e nem transmitem doenças, mas são uma forte ameaça à atividade agrícola.

O inseto se alimenta de material vegetal, e pode comer diariamente uma quantidade maior que o seu próprio peso, o que faz com que as nuvens de gafanhoto consigam destruir plantações inteiras em apenas algumas horas. Segundo projeção do coordenador do Programa Nacional de Gafanhotos do Serviço Nacional de Saúde da Argentina (Senasa), Héctor Medina à agência de notícias Reuters, a nuvem de cerca de 1km² deve conter mais de 40 milhões de gafanhotos, que podem devorar em um só dia o consumo alimentar de 2 mil vacas ou 350 mil pessoas.

Com a proximidade da nuvem de gafanhotos da fronteira brasileira na semana passada, o Ministério da Agricultura do Brasil publicou na quinta-feira uma portaria declarando estado de emergência fitossanitária nos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. A medida, que tem duração de um ano, permite temporariamente a contratação de pessoal, autoriza importação de agrotóxicos para conter a praga e flexibiliza o uso dos produtos já autorizados para novas culturas. Com isso, pode ser aprovado o uso de agrotóxicos que não estariam autorizados para o controle de gafanhotos.

Antes disso, o Ministério precisa publicar atos adicionais à portaria divulgando os produtos liberados temporariamente. A reportagem questionou quais agrotóxicos serão utilizados, mas o Ministério informou que essas informações só estarão disponíveis quando o ato for publicado.

O Ministério da Agricultura consultou as empresas produtoras de agrotóxicos para identificar quais produtos poderiam ser utilizados no combate às pragas. A CropLife, entidade que representa as empresas produtoras de pesticidas, informou que atualmente não existe defensivo, químico nem biológico, registrado no Ministério da Agricultura para controlar especificamente essa espécie de gafanhoto.

Em 30 de junho o Ministério da Agricultura publicou uma portaria estabelecendo as diretrizes de controle a serem aplicadas caso a nuvem de gafanhotos chistocerca cancellata entre nos estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Fica autorizado o uso emergencial dos inseticidas biológicos à base de Beauveria bassiana e Metarhizium anisopliae, que pertencem ao grupo de fungos entomopatogênicos, como os indicados por especialistas na reportagem.

Além deles, a portaria aprova também o uso de produtos a base dos ingredientes ativos acefato, cipermetrina, deltametrina, diflubenzuron, lambda-cialotrina e malationa. Os seis são inseticidas. O acefato é proibido na União Europeia e está relacionado com o surgimento de doenças no sistema nervoso central, como mostrou um artigo de 2014 publicado pela Escola de Medicina da Universidade de Louisville, nos EUA. E os inseticidas cipermetrina e diflubenzuron são considerados tóxicos para abelhas. As culturas e dosagens são indicados na portaria.

Em entrevista ao jornal Valor Econômico, Andreza Martinez, gerente regulatório de defensivos químicos da Croplife, disse que como a espécie de gafanhotos Schistocerca cancellata não é normalmente encontrada em altas populações no Brasil, não há no mercado um produto que tenha sido especialmente formulado para combater a praga. Mas que há alternativas para o uso em caráter emergencial.

Segundo ela, estudos realizados ao longo do desenvolvimento de alguns agrotóxicos mostraram que eles podem apresentar eficácia no controle dessa espécie de gafanhotos. Agora, técnicos devem identificar qual dose seria recomendada e qual o momento adequado para a pulverização. A reportagem entrou em contato com a CropLife e questionou quais são os agrotóxicos que podem apresentar eficácia contra o Schistocerca cancellata, mas não obteve retorno até a publicação da reportagem.

O Ministério da Agricultura informou que identificou produtos registrados no Brasil para combater a espécie de gafanhotos, mas que até então o agrotóxico é liberado para cultura de soja. Segundo o órgão, a portaria que instaurou o estado de emergência fitossanitária flexibiliza utilizar esse produto em outras culturas.

Junto ao governo do Rio Grande do Sul, o Ministério elaborou um protocolo sanitário para conter o avanço dos insetos, se entrarem no país. O protocolo prevê identificar quais agrotóxicos devem ser utilizados no combate às pragas. “Se eventualmente (a nuvem) ingressar em território brasileiro, é previsto usar controle químico. São diferentes tipos de procedimentos de controle químico, dependendo da estratégia de ataque a nuvem. Toda essa ação se dará por meio de um monitoramento dentro do nosso país para o acompanhamento da evolução”, informou a pasta, por meio da assessoria de imprensa.

Entidades e sindicatos que fazem parte do setor agroquímico estão envolvidas. O Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag) colocou à disposição ao governo aeronaves para ajudar em um possível controle das pragas. “Reforçamos que o Rio Grande do Sul possui uma frota de 426 aeronaves agrícolas, equipadas e preparadas para atuar em eventual necessidade de controle da infestação, porém entendemos ser essa uma ação de governo”, disse o Sindicato em nota.

“A luta integrada combina meios físicos, biológicos e químicos. Existem novos produtos, desde hormônios específicos pulverizados em faixas de vegetação até pesticidas de contato distribuídos por drones, aviação agrícola e etc. Isso varia ao longo do tempo e das fases encontradas”, explica Evaristo de Miranda, pesquisador da Embrapa Territorial e doutor em Ecologia.

“Nesse enfrentamento, geralmente se espera chegar o final do dia, quando os gafanhotos se acomodam em um local, e nesse momento se faz a pulverização aérea com inseticida para reduzir a população”, explica a pós-doutoranda em manejo integrado de pragas e professora de Entomologia Agrícola do Centro Universitário Araguaia, Karin Collier.

Aplicações na Argentina não atingiram o resultado esperado

Na última semana esperava-se que os insetos seguiriam em direção ao Uruguai. Mas, ontem (28/6), atualização do Senasa mostrou que a nuvem de gafanhotos estava a 63 km da cidade argentina de Curuzú Cuatiá, que fica 113 quilômetros ao norte de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul — município com forte atividade agrícola, principalmente na produção de arroz.

Durante todo final de semana, a Senasa, a Confederação Rural da Argentina (CRA) e o Governo da Província de Corrientes fizeram pulverizações aéreas e terrestres para deter o avanço dos insetos. A última atualização é que apenas cerca de 15% da nuvem teria sido eliminada.

Novas ações continuarão a ser tomadas nos próximos dias. A Senasa não divulgou em seu site quais agrotóxicos estão sendo utilizados nas pulverizações. A reportagem questionou por e-mail o órgão, mas não recebeu retorno até a publicação desta reportagem.

O professor Marcos Lhano, do Centro de Ciências da Natureza da Universidade Federal de São Carlos explica que, além de extrema, a resposta por pulverização de inseticida só resolve o problema emergencial. “É uma solução pontual. A Índia, Egito, Marrocos e outros países da África enfrentam esses problemas há décadas. Quando chega a nuvem ela é recebida com pulverização de inseticidas por aviões, carros adaptados e até manualmente, mas o problema nunca é erradicado. No ano seguinte ele volta” explica.

Outros especialistas alertam que, embora seja o método mais usado em situações de emergência, o uso de agrotóxicos no combate as nuvens de gafanhotos pode causar grandes danos. “É um ato bastante extremo, pois também mata as abelhas e todos os demais inimigos naturais dos gafanhotos, mas acaba sendo a única maneira de reduzir a nuvem de maneira rápida”, diz a professora Karin Collier.

Os inseticidas Cipermetrina, Fipronil e Tiametoxam estão entre os mais usados no combate a nuvens de gafanhotos, conta o engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo, vice-presidente da regional sul da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA). Ele acredita que o uso dos produtos seria uma atividade bruta e fatal para abelhas. Os três agrotóxicos são letais para esses polinizadores. Entre 2018 e 2019, 500 milhões de abelhas foram encontradas mortas em quatro estados brasileiros no intervalo de três meses. Os apicultores apontaram o inseticida Fipronil como principal responsável.

Um estudo de 2004 da Embrapa mostrou que 19% do agrotóxico usado através do método de pulverização aérea é dispersado para áreas fora da plantação. O relatório, chamado de “Tecnologia de Aplicação de Agrotóxicos: Fatores que afetam a eficiência e o impacto ambiental” mostrou também que 49% do agrotóxico manejado por via aérea é retido pelo solo, podendo afetar a saúde da população e contaminar o lençol freático. Além do impacto na biodiversidade da região e da quantidade de produto que fica no solo, há também diversos casos no Brasil em que parte do veneno pulverizado acabou atingindo escolas e comunidades indígenas próximos à área da aplicação.

O professor Marcos Lhano conta que há ações de prevenção de longo prazo, que além de não serem tão agressivas, podem resolver a situação antes da formação de uma nuvem. “Uma vez que o produtor vê que está aparecendo muitas ninfas (gafanhotos novos) em uma quantidade maior que o normal, ele deve fazer o controle biológico. Temos uma série de produtos baseados em fungos entomopatogênico, que causam doença nos gafanhotos. Esse fungo demora um pouco para agir, mas elimina os indivíduos antes que eles atinjam a idade adulta, que é quando eles conseguem formar nuvens”, conta.

O consumo de agrotóxico no Brasil dobrou nos últimos 10 anos. De acordo com o último boletim anual de comercialização de agrotóxicos no Brasil, feito pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) com dados de 2018, foram vendidos 549 mil toneladas em um ano — em 2008, o número era de 204 mil toneladas.

Desde o começo do mandato, o governo de Jair Bolsonaro tem apostado na aprovação recorde de novos produtos agrotóxicos como maneira de ampliar a oferta e reduzir o custo. Em dezoito meses, já foram aprovados 634 novos produtos.

Agrotóxicos também podem influenciar na criação de nuvens, dizem especialistas

Descrita na Bíblia como uma das 10 pragas que castigaram o Egito, as nuvens de gafanhotos deixam rastro de destruição por onde passam. Há registros do fenômeno há milênios e em quase todos os cantos do planeta. Mas a motivação está longe de ser um castigo celestial.

Além de questões biológicas dos insetos e do clima da região, fatores como o uso excessivo de agrotóxicos, a expansão de monoculturas e o aquecimento da temperatura do planeta podem estar criando o cenário ideal para o surgimento e o deslocamento das nuvens de gafanhotos, dizem especialistas.

Agência Pública e a Repórter Brasil ouviram cinco pesquisadores em entomologia – o estudo dos insetos -, manejo de pragas e agronomia, para entender como a ação humana influencia esse fenômeno.

Durante os últimos 60 anos os Schistocerca cancellata estavam “sumidos”, vivendo principalmente de maneira isolada, sem formar grandes nuvens. O motivo desse retorno e a causa da grande nuvem de gafanhotos ainda é incerta, mas especialistas enxergam no uso excessivo de agrotóxicos um dos fatores que pode ter contribuído, pois pode causar a diminuição dos predadores naturais do gafanhoto.

Karin Collier explica que um desses agentes é um fungo. “Os fungos entomopatogênico ajudam a reduzir a população dos gafanhotos, acontece o que chamamos no campo de epizootia, epidemias fatais a um inseto ou espécie específico, o que ajuda no controle populacional”, explica. “Esses fungos acabam sendo eliminados quando o produtor aplica um fungicida na plantação”.

Já Evaristo de Miranda, da Embrapa, nega que haja relação com o uso de pesticidas. “Eu desconheço qualquer trabalho científico em acridologia, em todo o século 20 ou 21 e em qualquer continente, que tenha demonstrado que o uso excessivo de agrotóxicos ou a monocultura favoreceriam a formação de nuvens de gafanhotos”, diz.

O professor Osmar Malaspina, pesquisador do Centro de Estudos de Insetos Sociais do Instituto de Biociências da Universidade do Estado de São Paulo (Unesp), diz que o uso de agrotóxicos não pode ser considerado um fator determinante para a criação de uma nuvem de gafanhotos. Mas ele pode, sim, exercer influência.

“É algo que ocorre não só com gafanhotos, mas com qualquer espécie. O agrotóxico pode diminuir agentes controladores naturais do gafanhoto, e quando se diminui os agentes controladores de uma determinada espécie é possível que cause um desequilíbrio”, explica. “Porém, isso não quer dizer que o agrotóxico causem de algum modo as nuvens, tanto que temos registros de nuvens de gafanhotos no Egito há séculos atrás, antes da criação de qualquer agrotóxico”.

Além dos fungos, estão entre os predadores dos gafanhotos algumas espécies de aves, morcegos, pequenos mamíferos, roedores e outros insetos carnívoros, como o louva-a-deus — que também é atingido por inseticidas.

Por que os gafanhotos criam as nuvens?

Uma soma de fatores causam as nuvens, explica o professor Marcos Lhano, do Centro de Ciências da Natureza da Universidade Federal de São Carlos. O primeiro fator é biológico. “No Brasil temos mais ou menos 750 espécies de gafanhotos. Uns 25 têm capacidade de causar dano econômico em lavouras e, destes, no máximo cinco têm condições biológicas de formar nuvens”, conta.

Esses insetos costumam viver em grupos, para facilitar a reprodução. Quando encontram condições favoráveis, se agregam ainda mais. “O principal fator é o clima. Com tempo mais seco, eles acabam se reproduzindo mais rapidamente. O crescimento populacional faz com que tenha mais insetos disputando alimentos e formando nuvens para migrar atrás de comida”, explica.

As nuvens de gafanhotos podem percorrer mais de 100km por dia, e as monoculturas acabam facilitando o deslocamento, conta o professor Osmar Malaspina. “As monoculturas retiram os obstáculos do percurso dos insetos. Você tem grandes plantações de milho que os gafanhotos devoram, de uma vez, ao lado de mais plantações semelhantes. Se houvesse uma floresta no meio, por exemplo, ela poderia funcionar como uma barreira para os insetos”, explica.

E o problema da monocultura está diretamente ligado com os agrotóxicos, já que 82% dos pesticidas consumidos no Brasil são usado em soja, milho e cana-de-açúcar, segundo um estudo que mapeou o uso de agrotóxicos no Brasil.

Alterações climáticas pioram as crises com gafanhotos na África e Ásia

O relato mais antigo de nuvens de gafanhotos na América do Sul é de 1538, quando insetos atacaram cultivos de mandioca na províncias de Buenos Aires. Não é um fenômeno novo, mas que agora chama atenção pelo tamanho.

Grandes nuvens são mais comuns em regiões como no sul da Ásia, Oriente Médio e em grande parte do continente africano. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), uma das maiores infestações ocorreu entre 2003 e 2005, quando 20 países do norte africano perderam mais de US$ 2,5 bilhões em plantações destruídas. No começo de 2020, o Paquistão e a Somália declaram estado de emergência nacional devido às maiores infestações dos anos 2000.

O inseto que atinge esses países é de uma espécie que vive no deserto, tradicional das regiões semi-áridas e áridas. Eles colocam ovos em áreas úmidas, e a chuva aumenta a ocorrência de nascimentos. E o regime de chuvas na área vem crescendo: um estudo da Universidade de Princeton e da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) publicado em 2017 na revista Nature Climate Change mostrou que a formação de ciclones e tempestades na região são o resultado do aquecimento global, por isso, provavelmente serão cada vez mais frequentes.

Foto: Senasa/Divulgação

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