Jornalismo, autonomia universitária e a defesa democrática da UFRGS

Por Sandra Bitencourt*, no Sul21

Um dos grandes pesquisadores do jornalismo no mundo, Michael Schudson (2008), ao responder por que este é importante para a qualidade da democracia aponta entre os motivos a missão de investigar, analisar, favorecer a empatia social e mobilizar. Podemos acrescentar a capacidade de impulsionar virtudes para a vida pública.

A relevância e o poder do jornalismo em um cenário social cujas lutas políticas são desencadeadas no terreno simbólico midiático se dá pela construção social da realidade como um processo de produção, circulação e reconhecimento já que a atividade jornalística, como diria outro autor incontornável (Alsina, 2009), é uma manifestação socialmente compartilhada. Ou seja, cabe ao jornalismo orientado pelo interesse público, a verificação da verdade e a pluralidade de vozes, oferecer informação, análise e pontes para o conhecimento, nas diferentes posições e tomada de decisão que a cidadania precisa definir dentro de uma democracia. Significa dizer que o jornalismo declaratório que apenas descreve posições, as classifica de controversas, apresenta falsas simetrias e produz consensos artificiais, perde seu valor fundamental, abdica de sua autoridade numa esfera de visibilidade, onde firma seu poder pela capacidade simbólica de representar o mundo. Na condição de um qualificador da democracia, é o próprio sistema democrático que se vê ameaçado.

Isto parece ocorrer, com raras exceções, no modo como a cobertura jornalística está enquadrando o processo de escolha do reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A autonomia universitária é, igualmente, indicador de qualidade democrática. Ainda na Idade Média, o termo universitas, de onde deriva Universidade, era usado para designar o grupo de estudantes e professores que formavam os primeiros centros de ensino superior fora das ordens religiosas, não sujeitos a preceitos religiosos, ou seja, com liberdade de cátedra, único modo de garantir o avanço na construção do conhecimento e no investimento científico. A nomeação de um reitor que não foi escolhido pela comunidade não é apenas uma contrariedade pontual à escolha democrática, mas é um acontecimento material que paralisa, tensiona, atrapalha e, talvez, inviabilize as relações e ações de nossa maior Universidade. É uma condenação a quatro anos de conflito, não reconhecimento e, sabe-se lá, que intenções e projetos obscuros que não foram validados pela maioria. Um reitor sem legitimidade será um impostor, sem diálogo, foco permanente de questionamento e crise.

UFRGS é considerada a segunda melhor universidade federal do Brasil, de acordo com o ranking CWUR 2020-2021, que analisa como critério a qualidade da educação (número de egressos que receberam prêmios de alto nível); empregabilidade de alunos (número de egressos que possuem posições de destaque em grandes empresas); qualidade do corpo docente (número de professores que receberam prêmios de alto nível); e performance de pesquisa (dividida em produção de pesquisa,  publicações de alta qualidade, influência e citações). Anualmente, o levantamento avalia 2 mil universidades de todo o mundo. Não há dúvida que se trata de uma instituição que orgulha, representa e engrandece nosso Estado, a despeito dos argumentos indigentes e mal intencionados que buscam fraudar uma ideia de doutrinação ideológica, quando não complementam a tal acusação ofensas de toda ordem.

Portanto, não se trata de uma nomeação meramente formal, mas de um processo no qual a comunidade aponta quem devem ser seus gestores, legitimados para garantir autonomia e independência na condução do tripé ensino, pesquisa e extensão. Esta é uma conquista de toda a sociedade. Ainda que exista previsão legal para ignorar a vontade da comunidade, é uma agressão que repercute em toda a contribuição que a UFRGS fornece ao nosso desenvolvimento. Não é esse um interesse público suficiente para obrigar o jornalismo a se posicionar?

Aceitar que o jornalismo não faça análise precisa, não mobilize, não defenda valores fundamentais democráticos, não alerte para a agressão a um de nossos maiores patrimônios, ou, cinicamente recomende que a comunidade acadêmica se abstenha da discussão política, é empobrecer a função social deste ofício e desqualificar um pouco mais desta já abatida democracia que teimamos em manter.

A neutralidade diante do autoritarismo é na verdade autorização para a barbárie.

*Jornalista. Doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS.

Foto: Luiza Castro/Sul21

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