Após apoiar revolta contra Carrefour, jornalista é alvo de ameaças do ‘gabinete do ódio’

Maria Teresa Cruz, ex-diretora da Ponte Jornalismo, passou a receber até ameaças de morte, por demonstrar apoio à revolta por crime de racismo
contra unidade do Carrefour, em São Paulo, que terminou com vidros quebrados e nenhum ferido

Por Redação RBA

A jornalista Maria Teresa Cruz, ex-diretora da Ponte Jornalismo, passou a ser alvo do chamado gabinete do ódio, formado por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, após ter publicado opinião favorável à revolta contra a rede de supermercados Carrefour, na semana passada, pelo assassinato brutal de um homem negro numa unidade de Porto Alegre. Internautas já denunciados pela Justiça por ataques de difamação e por propagação de fake news passaram a atacá-la, com ofensas que incluem até mesmo ameaças de morte.

“Lembre-se: tu vais morrer. Talvez hoje ainda seja jogado(sic) numa vala aos vermes”, postou um perfil no Twitter identificado como “Escravo de Jesus Cristo por Maria Santíssima”. “Pessoas como você são as que morrem no morro do baiano, dentro de um pneu de caminhão, jornalistinha de Leblon”, disse outro perfil, identificado como “Fascisto Cloroquino”.

Além dos ataques de anônimos e perfis falsos de bolsonaristas, figuras diretamente ligadas ao governo também partiram para o ataque e aprofundaram a ofensiva do gabinete do ódio. A deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) disse que entrou com representação na Procuradoria-Geral da República (PGR) contra a jornalista. “Comente se concorda”, completou a deputada, instigando seu fã clube de radicais de extrema direita.

As ofensivas também partiram de supostos jornalistas do Jornal da Cidade On Line, veículo conhecido da Justiça e denunciado na CPMI das Fake News. Indícios apontam para a ligação deste esquema de intimidação a integrantes do Planalto e de gabinetes de parlamentares ligados ao bolsonarismo.

Maria Teresa foi atacada também pelo jornalista Rodrigo Constantino, que no mês passado, ao comentar um caso de violência sexual, disse que, se sua filha fosse estuprada, ele não denunciaria o agressor. “Eu vou dar um esporro na minha filha, que alguma coisa ali ela errou feio.” As declarações lhe custaram alguns empregos.

Entenda

A perseguição contra Maria Teresa Cruz começou na sexta-feira (20). A jornalista publicou um apoio aos atos de revolta pelo assassinato racista de João Alberto Silveira Freitas, espancado até a morte por seguranças de um supermercado Carrefour. “Quando o diálogo não é possível, tem que quebrar tudo”, desabafou Maria Teresa.

Na manifestação por um assassinato brutal, o supermercado teve algumas vidraças da fachada quebradas, além de alguns produtos jogados ao chão e um princípio de incêndio rapidamente debelado. Ninguém ficou ferido.

Maria Teresa disse estar abalada e ainda estuda ações de defesa. À Ponte, ela afirmou: “Imaginei que alguém com bastante seguidores deve ter retuitado e, de repente, notificações começaram a subir rápido. Abri para ver e já tinham os primeiros xingamentos”. “As ofensas fazem mal, mas não me tocam tanto. O problema são as ameaças de morte, incitação de algum crime quando estava apenas manifestando a minha opinião pessoal”, completou.

A carreira da jornalista se destaca pela ligação com temas sociais e reportagens denunciando injustiças estruturais do país, como racismo, violência policial e contra a mulher. Atualmente, Maria Teresa, que teve passagem pela Rádio Brasil Atual, exerce suas atividades como freelancer.

Imagem: “Lembre-se: tu vais morrer. Talvez hoje ainda seja jogado numa vala aos vermes”, disse um perfil no Twitter

Enviada para Combate Racismo Ambiental por Amyra El Khalili

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