Um governo fatiado, mas ainda comandado pelo capitão “desfardado”. Por Roberto Liebgott

Por Roberto Antonio Liebgott*, para Desacato. info.

Aos que pensavam que os militares seriam o alicerce de Bolsonaro no governo, enganaram-se. Na prática cotidiana, eles são usados para protege-lo. Aos que apostavam no Centrão, avaliando que este domaria o governo, equivocaram-se. Os políticos não são fiéis aos mandatos e ao povo, pensam nos seus interesses particulares. E aqueles que ainda acreditam que haverá renúncia ou afastamento do presidente, ao que tudo indica, alimentam apenas um desejo, já que não se vislumbram condições políticas para isso.

Estamos em meio a maior mortalidade da história do Brasil. Segundo reportagem publicada pelo site da BBC News (aqui), é possível afirmar, neste momento, que o Brasil concentra um terço das mortes diárias por Covid-19 no mundo, mesmo com 3% da população mundial. Além disso, morreu mais gente em março, no Brasil, do que na pandemia inteira em 109 países, que somam 1,6 bilhão de habitantes. Além disso, dados oficiais de hospitais brasileiros apontam que o número de mortes por covid-19 já pode ter passado de 443 mil, quase 120 mil a mais que as estatísticas divulgadas pelo governo federal. A mesma estimativa aponta que morrem cerca de 4.000 pessoas por dia no país.

Os dados oficias indicam que passamos de 330 mil mortos por Covid-19, dado alarmante, porém o inquilino do Planalto tem conseguido desviar a atenção da população criando uma pseudocrise política, envolvendo militares e parlamentares do Centrão. Bolsonaro e sua equipe transformaram o Palácio do Planalto num palco de teatro onde encenam uma peça de ilusionismo, sugerindo para a plateia que estaria em curso um motim contra o governo, mas que acabou debelado pela força e coragem do capitão.

A crise teatralizada oportunizou variadas manchetes nos telejornais, nas revistas, nas análises políticas derradeiras, ou seja, davam-se opiniões de que parecia ter chegado ao fim a era Bolsonaro, para tanto faltavam apenas detalhes.

Mas nada disso se confirmou no mundo real da republiqueta. Bolsonaro e sua equipe controlam os generais e os políticos, concedendo cargos e injetando dinheiro através de emendas parlamentares. Além do Congresso Nacional, trabalha no aliciamento de policiais, milicianos e sinalizam com a possibilidade de um golpe militar para, com isso, alimentar a radicalidade da massa bolsonarista nas redes sociais. Uma massa que se constitui numa minoria da população, mas armada, é perigosa.

Ao que parece, pelos próximos dois anos, o governo vai – na ausência de uma oposição firme, seja ela parlamentar, social ou econômica – administrar as críticas cotidianas, em geral, expressadas através de mídias alternativas, e canalizará os esforços e um bom aporte de dinheiro público – destinado a propaganda oficial – em outras redes de comunicação, prioritariamente aquelas gerenciadas por empresários que exploram a fé dos pobres.

Bolsonaro tem culpado governadores e prefeitos pelo total fracasso de seu governo, especialmente o caos na economia. Na sua visão genocida, as pessoas estão impedidas de trabalhar pelas medidas de isolamento social. Afirma que a expansão do coronavírus e suas cepas – as que intensificam o contágio e as mortes –  relacionam-se a má gestão da saúde nos estados. Em relação a falta de vacina, o governo federal responsabiliza as indústrias e os laboratórios, que, de acordo com os discursos do presidente da República, superfaturam os preços, inviabilizando as negociações de compras.

No ambiente político, para se proteger de um processo de impeachment, Bolsonaro oferece os cofres públicos aos deputados do Centrão e sinaliza para que usem o dinheiro como melhor convier aos seus interesses partidários ou individuais. As oposições, além de não terem força política, ainda não descobriram uma maneira de enfrentar os desmandos do governo. Como alternativa, canalizam suas articulações em vista das eleições de 2022. Ou seja, elas repetem a estratégia errada – dos dois últimos anos – imaginando que o bolsonarismo seria suplantado nas eleições municipais. Enquanto isso, as mortes se avolumam. Em São Paulo, vans escolares estão sendo utilizadas para transportar corpos.

Na sociedade o ambiente é de incertezas, porque as pessoas estão preocupadas em comer e se proteger para estarem vivas no dia de amanhã. Não há horizonte seguro, todos, de modo geral, não sabem como será o país, já que não existe um programa de vacinação para todos e, muito menos, orientações quanto a formas de proteção, já que os políticos – de modo premeditado – têm atitudes e ações dúbias quanto ao enfrentamento da crise sanitária.

Neste contexto de mortes e de colapso social as vítimas são, em geral, as pessoas que compõem os grupos vulneráveis, os pobres das periferias, os quilombolas, os moradores de rua, os ribeirinhos e os povos indígenas. Para estes não há mais lugar no sistema hospitalar, na economia, segurança, emprego e educação. Os pobres são os diretamente impactados pelo caos governamental. Para eles não há reserva financeira, não há saneamento básico, não há emprego, não há tecnologia, só há angústias, dúvidas, doenças, sofrimentos e mortes.

As demais estruturas sociais e de poder estatal legitimam a omissão ou propagam o conformismo. Isso se percebe nos espaços das igrejas, onde, com raras exceções, conduzem o “rebanho” pela oração, culto e doutrinação – sem engajamento na vida dos que sofrem – sem cobrar medidas que assegurem a promoção do bem comum para todos. O Judiciário segue julgando sem uma efetiva percepção da realidade. Julga, nas ações relativas às demandas sociais, direcionado por medidas assistências paliativas, aquelas que quando se destinam aos que precisam, chegam atrasadas e não compõem uma solução dos problemas nutricionais, de saúde, renda, habitação, saneamento e higiene.

O desgoverno de Bolsonaro gerencia o país pelo caos e o desmantelamento. Não há, por outro lado, forças políticas, jurídicas e econômicas que possam colocar um fim a essa tragédia. Ao contrário, as pessoas que compõem os grupos de poder, ou que o disputam, articulam-se e aproximam-se para planejar estratégias de continuidade ou de troca de lugares. Não parecem interessados em agirem pelas pessoas, pois estas tornam-se cada vez mais objetos do que sujeitos de direitos.

Quem se faz feliz, neste ambiente de mortes e desesperanças, é o capitão desfardado, porque ele se mantém articulado com uma base popular que lhe assegurará a disputa eleitoral em 2022, podendo chegar ao segundo turno e, inclusive, vir a ser reeleito em função da descrença na política, da polarização entre direita-esquerda. E, em meio a desinformação, que propicia uma grotesca confusão ideológica, tendera a levar vantagem se, nesse contexto, houver adesão das elites – sempre bem protegidas em suas mansões e condomínios de luxo – e elas optarem pelo continuísmo da tragédia, tendo, por óbvio, garantias de que auferirão fartos lucros.

Porto Alegre, 06 de abril de 2021.

*Missionário do Conselho Indigenista Missionário/CIMI. Formado em Filosofia e Direito.

Imagem: Latuff

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