Indígenas da Zona Sul de SP relatam ameaças para deixar suas terras; MPF investiga o caso

População de aldeias na terra Tenondé Porã, em Parelheiros, diz estar sendo ameaçada desde o final de novembro. Na segunda (13), um grupo de homens realizou disparos no local.

Por Walace Lara , SP2

Indígenas da aldeia Kuaray Oua, na terra Tenondé Porã, em Parelheiros, na Zona Sul de São Paulo, afirmam estar recebendo ameaças desde novembro por não indígenas que dizem ter comprado um terreno na região e tentam coagir a comunidade a deixar a área.

Eles relatam que já houve mais de cinco ações a mão armada no local. Em uma delas, uma casa foi destruída. Na tarde de segunda-feira (13), os invasores fizeram disparos para o alto, destruíram telhas e retiraram madeiras de uma moradia.

Segundo os Guaranis, na última ação os homens armados efetuaram cerca de seis disparos. Eles estavam em duas caminhonetes e levaram parte da madeira que estava sendo usada para a construção de uma casa.

No sábado (18), os homens voltaram ao local, desta vez com um drone para filmar a área, além de uma escolta de policiais militares. Os indígenas contam que o grupo dizia que estava cumprindo uma ordem judicial, mas que os PMs, que estavam sem máscaras, não mostraram o documento.

Segundo os indígenas, as ameaças são de pessoas contratadas por um homem chamado Cícero Ferreira. Ele teria comprado o terreno do Sítio Colina Verde, de propriedade de João Peralto.

O sitio fica dentro da Terra Indígena, segundo o relatório de delimitação da Fundação Nacional do Índio (Funai) feito em 2012. A Tenondé já foi delimitada e declarada, por isso, somente esta compra já configuraria crime. Mas, além disso, Cícero teria contratado homens para ocupar o espaço e extrair ilegalmente madeira da área.

No fim de novembro, uma família foi expulsa da aldeia pelos invasores – tiveram as casa destruídas e, depois, queimadas. Vários objetos pessoais foram deixados para trás.

“Eles voltaram e falaram que, se a gente não sair, vai acontecer a mesma coisa com a gente. Disseram que vão nos tirar mesmo à força. Estamos com medo, eles aparecem de noite ou de dia. Esse último ataque foi durante o dia”, afirma Maurílio Tibes, líder indígena e sobrinho de um pajé que precisou abandonar o local.

A Comissão Guarani Yvyrupa informou que acionou o Ministério Público Federal e que já está com um processo aberto sobre o caso, logo após o ataque de 13 de dezembro.

Um Relatório de Identificação e Delimitação da Terra Indígena Tenondé Porã, publicado pela Funai em 2012, identificou 149 ocupantes não indígenas na terra.

“A situação é bastante grave, foram diversos crimes envolvidos nessas ocorrências. Ameaças, subtração dos materiais, destruição dos matérias da comunidade, danos a esses materiais. É uma terra indígena declarada e essa série de episódios de ameaças à mão armada estão colocando em risco a vida e a segurança de uma comunidade indígena inteira. Esses episódios foram feitos na presença de senhores, senhoras, crianças, mulheres”, afirma a advogada Luisa Cytrynowicz.

“É uma violência muito grande na comunidade que coloca em risco a vida da comunidade indígena, da aldeia guarani yvyrupa, que está vivendo dentro do seu território”, completa.

Terra demarcada

A Terra Indígena Tenondé Porã possui 14 aldeias, habitada aproximadamente por 2.200 pessoas. Ela está na terceira fase de demarcação do território, ou seja, a terra já foi declarada, mas ainda falta retirar os ocupantes não indígenas do espaço. No entanto, como a terra já foi delimitada, estes ocupantes não poderiam vender ou alugar o espaço que, segundo a União, é de domínio indígena.

A área de quase 16 mil hectares foi demarcada em 2016.

“O que a gente faz é ocupar as áreas que não tem ninguém morando, quando sabemos e temos certeza que essa área faz parte do nosso território. Não temos muita história de incidentes como esse que está acontecendo e propriamente com os não indígenas do nosso bairro sempre tivemos uma relação harmoniosa”, afirma o líder indígena Jera Guarani.

A Polícia Federal instaurou um inquérito para apurar a autoria dos fatos. A investigação está em andamento.

A Polícia Militar informou que foi ao local, após ser acionada, visando garantir a integridade física dos envolvidos e impedir conflito. Afirmou que não houve uso de força nem utilização de arma de fogo por parte da polícia.

Delimitação de terra indígena na Zona Sul de SP — Foto: Reprodução/TV Globo

Enviada para Combate Racismo Ambiental por Isabel Carmi Trajber.

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