Pluft em Coari e o mel da inteligência. Por José Ribamar Bessa Freire

No TaquiPraTi

Vem, minha amiga, vem comigo a Coari (AM), cidadezinha às margens do rio Solimões, onde atores amadores encenaram, em 1960, Pluf, o Fantasminha. Ouçamos o que naquela ocasião disse dona Higina sobre as abelhas. Quem sabe poderemos assim confrontar a peça montada no passado com o filme de agora, que será exibido a partir desta quinta-feira (21) nos principais cinemas das capitais brasileiras. Comecemos pela reação das crianças.  

Vitória, de 8 anos, queria ser enfermeira, mas fascinada pela tia Renata, de quem é aluna, escolheu ser professora. Descobriu que pode também ser atriz, depois da pré-estreia do Pluft no domingo (3), em 15 salas do Rio, para duas mil pessoas, entre elas este avô que vos fala e suas três netas de 5, 8 e 11 anos e alguns sobrinhos-netos. “Esse foi o melhor filme da minha vida” – desembuchou do alto dos seus 7 anos o Gui, futuro astrônomo, curioso pelos mistérios do céu. “Foi o melhor dia da minha existência”, disse o longevo Davi, de 11 anos.

As três crianças sobrinhas da amazonense Clélia Bessa, produtora da Raccord Filmes, foram convidadas por ela e sua sócia Rosane Svartman, a diretora, para verem em 3D a história escrita por Maria Clara Machado (1921-2001), autora de dezenas de peças infantis, incluindo Pluft, que estreou pela primeira vez, em 1955, no Teatro Tablado, no Rio, e cinco anos depois era encenado na remota Coari, sob a direção de uma freira, a irmã Matilde, “noviça rebelde” da Congregação do Preciosíssimo Sangue.  

Agora, na adaptação para o cinema, contou com elenco supimpa: Juliano Cazarré – o pirata Perna-de-Pau, Fabiula Nascimento – a mãe fantasma, e os jovens atores Nicolas Cruz (Pluft) e Lola Belli (Maribel), entre outros, com participação especial de Gregório Duvivier e homenagem póstuma a Hugo Carvana que, numa pintura no sótão da casa de Pluft, representa o capitão Bonança Arco-íris. Tudo repleto de magia.

O poder de um filme

Um dos cenários do filme é Sibaúma, Praia da Pipa, no Rio Grande do Norte, dotada de fenomenais falésias e penhascos. Mas o universo fantástico dos fantasmas foi filmado dentro de uma piscina, com falas de textos curtos para evitar as bolhas e com caixas submersas para obter boa iluminação, segundo a Assessoria de Imprensa Palavra.  

– Adorei fazer o Pluft embaixo d´água, encantado por estar livre da gravidade. Submerso na piscina, consegui voar, dançar, brincar, naquele ritmo natural de fantasma, sem o efeito “fake” de cabos de aço – disse Nicolas Cruz, o Pluft. Sobre o conteúdo, ele manifesta que “as diferenças causam divisões, preconceitos e medo de gostar do diferente, as pessoas se fecham dentro de suas próprias bolhas e ideias, mas o filme enfrenta o medo, que aprisiona, e se abre para o novo e o inesperado, que liberta”.  

Ele reforça assim a fala da diretora Rosane, para quem o filme é dirigido também aos adultos: “Pluft é uma obra que atravessa gerações, com mensagem linda sobre o medo do diferente e que nos ensina como o afeto pode vencer o medo” – noção cada vez mais necessária no Brasil de hoje. Ela encomendou o roteiro a José Lavigne e Cacá Mourthé, sobrinha de Maria Clara Machado.

A trilha sonora original é de Tim Rescala, que regravou canções originais da peça, uma delas na voz do cantor Frejat e do coral infantil da UFRJ, que antes do início da projeção, tocou “ao infinito”, segundo Maia, 5 anos, ou 893 vezes na contagem de Ana, 11 anos. A repetição quase exaustiva acabou contagiando as crianças, que quando foram tirar fotos com os atores, cantarolavam:

– Pluft e Maribel, são diferentes, mas são amigos feito o mar e o céu. Pluft e Maribel, fantasma e gente que se completam feito tinta e papel.

Esse é o poder de um filme excepcional: sacudir a vida das pessoas, abrir-lhes novos horizontes. Rosane e Maria Clara Machado penetraram no coração da Vivi e das crianças, da mesma forma que há mais de 60 anos Pluft tocou a alma do avô delas, quando viu a peça encenada em Coari, município produtor de banana e goiaba, então com 8.800 habitantes.

O interior do Brasil

Como é que os marinheiros do barco Maria Clara, que aparecem remando no último plano filmado em Sibaúma, navegaram 60 anos antes até o lago Mamiá, distante 370 km de Manaus? Peço ajuda ao Chicó, no Auto da Compadecida, para dizer que “não sei como foi, só sei que foi assim”. Quem me socorre também é “Exu, que matou um pássaro ontem com uma pedra que atirou hoje”, oriki citado por Pierre Verger em Orixás.

Tudo aconteceu quando a irrequieta irmã Matilde, nascida em Manaus com o nome leigo de Glória Bezerra, foi transferida pela madre Superiora para dar aulas na Escola Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Coari, antigo território dos povos Yurimagua e Miranha. Ela levava em sua bagagem cópia mimeografada da peça Pluft, o Fantasminha e um exemplar da revista Cadernos de Teatro, editado em 1956 por Maria Clara Machado, que já na apresentação do primeiro número lança um brado a quem fazia teatro:

– Não se esqueçam do interior do Brasil.

Era uma espécie de cartilha de como fazer um espetáculo, de como “chegar àquele rapaz ou àquela moça do interior que deseja fazer teatro e não sabe como fazê-lo”, com orientações para a descoberta de “peças fáceis e boas de serem montadas por um grupo inexperiente”. Os Cadernos, com apoio da UNESCO, tinham uma seção de repertório, disponibilizando para todo o Brasil textos sobre as artes cênicas, além de material para grupos amadores e atores iniciantes, “principalmente aqueles distantes das capitais”.

Com esse material na mão, a irmã Matilde lavou a égua. Formou um grupo de teatro amador com alunos adolescentes e mostrou aos coarienses o Fantasminha, numa versão que não tinha o personagem do senhor Flatus, peidando em 3D, mas fazia referência ao pescador no barco do Perna-de-Pau, atravessando o igarapé Chagas Aguiar até o castanhal na outra margem. Não lembro do personagem do tio Gerúndio. 

Alvíssaras, dona Higina

Meninas, eu tinha 12 ou 13 anos na estreia da peça abrilhantada com a presença do prefeito Alexandre Montoril. Creio que foi no 26 de julho, festa de Sant`Ana, pois no final os atores cantaram não Pluft e Maribel, mas o hino da padroeira de Coari(Clique aqui para ouvir)   

– Sant´Ana é a maior santa que no céu já temos oh visto, é a mãe da mãe, é a mãe da mãe, é a mãe e avó de oh Cristo

Nós, os seminaristas redentoristas, assistimos várias vezes o espetáculo, único divertimento local, sempre aberto por dona Higina, poeta, dona de castanhais e intelectual orgânica de igarapé, que nunca falava, declamava. Nem dava bom dia, irradiava alvíssaras. Com a voz tremelicando e lambendo os beiços, ela repetia nas solenidades e eventos a mesma frase, que ouvi pela primeira vez na inauguração da biblioteca do seminário e foi tão martelada, que ficou gravada para sempre em minha memória:

– Oh, é aqui neste recinto que vós vindes sorver, qual sagazes abelhas, o mel da inteligência.

Bendita e abençoada Maria Clara Machado, que foi professora no Conservatório de Teatro (hoje Unirio). Confesso que quando vi Pluft, tomei no passado a mesma decisão sonhada agora por Vivi, minha neta:

 – Vou ser ator.

Sou, embora canhestro e mambembe. Meu palco é a sala de aula, onde qual abelha tento me lambuzar com o mel da inteligência.

P.S. Pessoas, levem [email protected] e [email protected] para ver o filme. Isso não é um comercial, apenas um convite para que as crianças possam sorver o mel da inteligência. Dona Higina dixit.  

FOTOS: Acervo O Tablado, PALAVRA – Assessoria em Comunicação e Renata Respeita

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