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Mike Davis (1946-2022). Por Ivana Jinkings

Mike Davis nos deixou ontem, aos 76 anos, após longa batalha contra o câncer. Uma perda gigante. Mike Davis presente, sempre!

No blog da Boitempo

Mike Davis nos deixou ontem, aos 76 anos, após longa batalha contra o câncer. Há meses decidiu suspender o tratamento quimioterápico para passar seus últimos dias em casa, com a família. Um dos mais importantes autores da tradição marxista, foi açougueiro, motorista de caminhão, atuou em sindicatos e movimentos pelos direitos civis dos Estados Unidos. Participou do Congress of Racial Equality (Core), reunião de jovens pacifistas que se opunham à Guerra do Vietnã e filiou-se ao Partido Comunista da Califórnia do Sul.

Em 1973, aos 28 anos, ingressou na Universidade da Califórnia com uma bolsa do sindicato dos açougueiros, fundado por seu pai, para estudar economia e história. Até então, jamais havia cogitado ser escritor.

Agora, deixa o legado de uma obra imensa e muito nos honra ter publicado, pela Boitempo, alguns de seus principais livros:  Planeta favela  (2006),  Apologia dos bárbaros (2008) e Cidade de quartzo: escavando o futuro em Los Angeles (2009). Publicamos ainda uma longa entrevista sua na revista Margem Esquerda – concedida a Otília Arantes, Ermínia Maricato, Mariana Fix e Michael Löwy –, na qual fala sobre sua trajetória, seu encontro com o marxismo, sobre a “urbanização sem urbanidade” e sobre projetos para o futuro. Em 2020 lançamos em e-book A peste do capitalismo: coronavírus e a luta de classes, na coleção Pandemia Capital. Nessa época, trocamos muitas mensagens. Mike criou uma lista de transmissão de e-mails, na qual enviava notícias e reflexões diárias sobre a pandemia e seus efeitos nos EUA e outros países.

Foi um desses intelectuais raros, que não se furtam a tomar partido. Em 2008, após já termos publicado dois livros seus, a editora britânica que lançava o Cidade de quartzo havia passado a trabalhar, no Brasil, com uma agência literária. Seguindo as boas práticas do meio, essa agência deveria ter submetido o livro primeiro à Boitempo, mas preferiu oferecer a um grande grupo editorial. Contei o que havia ocorrido ao autor, que imediatamente escreveu aos publishers da editora inglesa exigindo que fosse dada opção à Boitempo, sua editora no Brasil e com a qual se identificava. Em uma longa trocas de e-mails reconheciam o erro, se desculpavam, mas o contrato já estava firmado etc. Mike não desistiu e o compromisso (se de fato estava firmado) acabou sendo desfeito. Lançamos pela Boitempo esse livro magnífico, que analisa aos olhos da sociologia urbana e da ecologia política a construção de Los Angeles como metrópole ao mesmo tempo milionária e miserável.

Em diversas ocasiões, convidado a vir ao Brasil para encontros políticos, acadêmicos ou festivais literários, Mike Davis recusava, sempre de forma gentil, dizendo que os filhos ainda eram pequenos, não gostaria de ir pra longe deles. Depois de alguns anos de negativas, certa vez perguntei se eles cresceriam algum dia, ele apenas sorriu…

Assim foi Mike Davis. Crítico contundente da transformação da terra em mercadoria, denunciou por toda a vida que a transferência da responsabilidade do Estado pelo suprimento de moradia para os pobres é a catástrofe da vida diária na periferia, em que os moradores são expulsos das áreas centrais cotidianamente. Segundo ele, a privatização do espaço público e a desurbanização cultural das classes populares deixam um rastro de marginalidade e de pobreza incomensurável nas grandes cidades. Mais atual impossível.

Enfim, uma perda gigante. Mike Davis presente, sempre!

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