O velório. Por Julio Pompeu

Na Terapia Política

Há 15 anos não tinha notícias de Haroldo, colega dos tempos da escola técnica. Deixou uma mensagem curta: “Pedrinho faleceu. O enterro hoje, às 17. Abraço”. Ele sempre foi econômico com as palavras. Não éramos muito próximos. Ele, sujeito bonito e craque do time de futebol. Eu era o feio e esquisito que sempre tentava uma desculpa para não fazer esporte nenhum. Quase fui reprovado em educação física.

Já com o Pedrinho eu era mais chegado. Gostávamos de conversar durante as aulas. Era, naquele tempo, um amigo. Depois, cada um seguiu sua vida e não tive notícias dele por mais de 30 anos. Até agora. Foi pelas boas lembranças dele que resolvi ir ao enterro, apesar de detestar velório. Se pudesse, não iria nem no meu.

O cemitério era longe, como todo cemitério. Morte é coisa que ninguém quer por perto. No caminho, fui me lembrando dos professores que eu gostava e dos que eu apenas suportava. Curioso lembrar-me pouco das aulas. Deve ser culpa das conversas com o Pedrinho, com o Daylton e com o Rodrigo. Ou então a minha distração eterna com a Ana Cláudia.

Lá estavam eles. Os ainda vivos e um morto. A primeira que vi, bem na entrada do velório, foi Ana Cláudia. O tempo lhe tirou todo o encanto, mas ainda me ignorava do mesmo jeito. Foi uma das poucas coisas que não mudou. Alguns, como Haroldo, me encaravam e falavam com a naturalidade dos que se falam todo dia. Outros, não escondiam pensar o mesmo que eu, “quem é esse cara mesmo?”. Só por educação, puxavam conversa.

Eu ouvia histórias que pareciam vívidas nas memórias daquela gente de quem eu sabia o nome e tinha uma vaga lembrança de quem foram um dia, mas que agora eram perfeitos estranhos que supunham, também por uma vaga lembrança, me conhecer. Eram estranhos falando coisas estranhas sobre mim. Sobre um eu criança que, sinceramente, não reconheço mais. “Então é isso que pensavam de mim?” pensei no silêncio tímido do meu desconforto.

A coisa toda já era constrangedora demais. Pelo lugar, pela choradeira, pela minha falta de tristeza e por aquela gente estranha que eu não podia tratar como estranha. Piorou muito quando assunto descambou para política. E qualquer conversa hoje em dia acaba em política.

O mal-estar caminhou firme em direção ao insuportável. Ouvia aquele saudosismo de tempos que não viveram. Aquele ódio pelos pobres que lhes servem, dito assim, na cara deles, como se não estivessem ali, como se fossem surdos, como se fossem nada. Aquele desprezo com que falavam de nordestinos com a petulância de quem se acha um ser melhor que outro só pelo endereço do cartório onde o nascimento foi registrado.

Olhei o morto entre a desconfiança e a inveja. Vivo, seria mais um nazista de classe média? Pensando bem, não estariam todos mortos? Mortos em sua humanidade. Afogados em seus egos frágeis. Desintegrados na pobreza de suas existências cheias de posses, mas vazias de sentido. Moribundos em existências cheias de certezas, mas vazias de sabedoria. E eu mesmo, não morro a cada instante em que sou envenenado por toda essa brutalidade sorridente?

Aproveitei a reza que antecede o fechamento do caixão para sair dali sem precisar cumprimentar mais ninguém. Fugi para que não me tirassem a paz. Para que não me roubassem as boas lembranças de um tempo em que eu era feliz por viver entre gente que só queria sonhar e ser feliz.

Ilustração: Mihai Cauli

 

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