Bolsonarismo é mais um sintoma do que uma causa da doença do corpo social que leva as pessoas a lutar por sua própria servidão. Entrevista especial com Bruno Cava

“A verdadeira limitação hoje não é contábil ou de conjuntura internacional, mas político-ideológica”, diz o pesquisador

Por: Patricia Fachin, em IHU

“Pouco agudo, mas com alguns pontos inovadores”, em “continuidade com a Carta ao Povo Brasileiro: conciliador, apaziguador, enxerga a Política, escrita com maiúscula no discurso, como mesa de negociações para solucionar impasses e resolver divergências, reservando à figura do próprio Lula o papel de poder moderador”. É assim que Bruno Cava resume o significado dos discursos do presidente Lula durante a posse presidencial, em 1º de janeiro deste ano. Segundo ele, “a oposição enunciada no texto é com o bolsonarismo e Bolsonaro, mas em termos de novos rumos, é esparso e sem conceito”.

Na avaliação dele, o discurso não sinaliza a “reinvenção democrática”, mas “o prenúncio da volta da velha política, da recomposição das mesmas forças proprietárias e oligárquicas, dos mesmos caciques e partidos fisiológicos, ainda que sejam encabeçados por Lula e dirigidos pelo PT governista”. Para ele, o novo governo começa com uma situação de impasse porque “a inexistência de terreno de reinvenção democrática foi uma das causas e não consequência da vitória eleitoral de Lula, uma vitória marcada pelo cansaço e desencanto dos eleitores, pela falta crônica de alternativas, pela vontade desencantada de acordar de um pesadelo”. Para ele, “as recentes manifestações violentas, vândalas, de bolsonaristas são mais um sintoma do que a causa da doença que aflige o corpo social transversalmente”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, Cava também comenta e avalia os desdobramentos e as consequências da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, que completará um ano em 26 de fevereiro, e a postura do Estado brasileiro acerca do conflito no governo Lula. “É consensual que a guerra na Ucrânia não vai se resolver tão cedo e que adquira, cada dia mais, um aspecto central no futuro da globalização capitalista. A menos que em breve vejamos uma reviravolta política na Federação Russa, talvez a variável mais obscura para quem não está dentro do país, a guerra lamentavelmente deve prosseguir ao longo de 2023, provocando ainda mais milhares de baixas militares e civis, impactos de toda sorte nos fluxos de abastecimento, energia e migratórios”, afirma.

Bruno Cava é graduado em Engenharia pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica – ITA e em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, pela qual também é mestre em Filosofia do Direito, e oferece cursos livres presenciais e on-line por meio do canal Horazul (YouTube). É autor de A multidão foi ao deserto (Annablume, 2013), A constituição do comum (Revan, 2017), com Alexandre Mendes, e de A vida da moeda: crédito, imagens, confiança (Maudad, 2020), com Giuseppe Cocco.

Confira a entrevista.
IHU – Que avaliação faz dos discursos de Lula na posse presidencial? Quais os três pontos que destacaria?

Bruno Cava – Pouco agudo, mas com alguns pontos inovadores. Está em linha de continuidade com a Carta ao Povo Brasileiro: conciliador, apaziguador, enxerga a Política, escrita com maiúscula no discurso, como mesa de negociações para solucionar impasses e resolver divergências, reservando à figura do próprio Lula o papel de poder moderador. Coloca-se como representante do estado democrático de direito diante da barbárie, terror e ódio, personificados na candidatura de Bolsonaro e do bolsonarismo enquanto fenômeno eleitoral e social. Assinala os recentes desmanches institucionais, descalabros contra minorias e a má gestão do governo Bolsonaro em relação à pandemia.

Vale destacar:

1) na economia, a indicação de retomada da agenda keynesiana petista: aumento do investimento, expansão do crédito, incentivo ao consumo, foco na geração de emprego e fim do teto de gastos, o que gera tensões no interior da frente ampla e com os mercados;
2) no tema do combate à corrupção, no que o discurso revela mais pelo silêncio, com apenas a vaga menção a “controles republicanos”, como se a volta do PT ao governo federal não tivesse nada a metabolizar quanto ao Petrolão e a Lava Jato;
3) no tema socioambiental, faz promessas ousadas: o desmatamento zero, a descarbonização da economia e a elevação do Brasil à condição de líder mundial em clima, uma agenda avançada que vai provocar atritos com desenvolvimentistas e representantes da indústria.

IHU – Os discursos indicam que haverá alguma reorientação no país?

Bruno Cava – A oposição enunciada no texto é com o bolsonarismo e Bolsonaro, mas em termos de novos rumos o seu discurso é esparso e sem conceito. Para enfrentar as sequelas do bolsonarismo e o risco de sua versão mais selvagem, prevalece o tropo narrativo dos retornos, ao contrário do discurso de posse no primeiro mandato, em 2003, quando a palavra-chave era “mudança”, em relação ao modelo neoliberal, e no segundo mandato, em 2007, quando Lula apresentava o Programa de Aceleração do Crescimento – PAC como carro-chefe para inaugurar a segunda fase da mudança, que alguns intérpretes do lulismo chamaram de viés “social-desenvolvimentista”.

Em 2023, contudo, o pronunciamento de posse está impregnado do desejo de volta ao normal. O fim do governo Bolsonaro está sendo experimentado como o fim de um pesadelo. Acordaríamos num mundo em que a felicidade teria voltado a ser possível. A premissa lógica dessa atmosfera emotiva é que, em algum momento do passado recente nacional, o país teria desviado do caminho, teria perdido o rumo. Cabe agora a Lula e à frente ampla recolocar o trem nos trilhos antes que ocorra um desastre ainda maior. Em certa medida, a estrutura do sentimento é semelhante às ansiedades e aspirações pelo retorno à normalidade com o fim da pandemia de covid-19, para as coisas voltarem “as it was”, como no hit de Harry Styles.

Isso suscita várias questões. A primeira questão é de fato: não há uma normalidade a retornar, é uma ilusão acreditar que as coisas voltariam a ser como eram antes, “you know it’s not the same as it was”.

O segundo problema é de direito: mesmo que fosse possível voltar ao normal, seria preciso questionar se é desejável voltar àquela normalidade, que mais parece uma construção retrospectiva de anos dourados, como se o bolsonarismo tivesse descido de Marte e o PT não partilhasse um grau significativo de responsabilidade sobre os caminhos e descaminhos da política brasileira nos últimos 20 anos.

Ataque aos poderes
As recentes manifestações violentas, vândalas, de bolsonaristas são mais um sintoma do que a causa da doença que aflige o corpo social transversalmente. Uma doença que leva muitas e muitas pessoas, em afã iconoclasta, a lutar por sua própria servidão. É comum os manifestantes alinhados à extrema-direita, no mundo todo, serem tachados de malucos, dissonantes cognitivos guiados por fake news e círculos viciosos de autoconfirmação, ou, então, como chamados pejorativamente de “religião bolsonarista”.

Ocorre que os fatos sociais são mais complicados. Por sinal, um fenômeno religioso, sobretudo disseminado pelas massas, é sempre complexo e multinível: “o suspiro da criatura oprimida, o coração do mundo sem coração e o espírito de um mundo sem espírito”, como escreveu Marx, um ateu. Quanto à referência a pessoas doentes, com déficit de cognição, patologias que acometem populações inteiras são sociais antes de serem individuais. Além disso, para falar com [Georges] Canguilhem, o conjunto articulado de doenças de um tempo permite elaborar, a partir dele próprio, um ponto de vista reflexivo sobre a normalidade sã da qual os doentes se divorciaram. Daí que as patologias, por mais indesejáveis, repugnantes e criminogênicas que sejam, não podem evitar de desvelar algo sobre a saúde a que aspiramos. Sem o devido trabalho clínico em relação ao funcionamento dos corpos e afetos, continuaremos passando de sintoma em sintoma, de rótulo em rótulo, sem tocar na problemática de base.

IHU – Como interpreta a proposta de reconstrução mencionada por Lula quando assumiu “o compromisso de, junto com o povo brasileiro, reconstruir o país e fazer novamente um Brasil de todos e para todos”? O que isso significa na prática?

Bruno Cava – Na prática, sinaliza a repescagem do modo lulista de governar, pautado pela composição de interesses, na manutenção da ordem e numa agenda keynesiana de expansão fiscal, sob a orientação do realismo político que prevalece no campo majoritário do PT, tendo como modelo o sucesso eleitoral e econômica ao longo da década de 2000.

O lema da reconstrução reflete o desejo de restabelecer o estado anterior à campanha de desconstrução bolsonarista e da aprovação da emenda constitucional do teto de gastos durante a gestão Temer. Quando reivindica o resgate da autonomia do político, Lula transmite uma crítica frequente dos meios petistas diante do dito “momento antipolítico”, no Brasil e no mundo, no que inclui uma grande quantidade de levantes, primaveras e movimentos que emergiram desde a erupção da crise do capitalismo global, na virada para a década de 2010.

Impasse objetivo
O impasse objetivo é que não há mais normalidade a retornar em 2023, e o modelo sobre o qual o lulismo se fundou está esgotado. Isto não se dá, entretanto, porque os fundamentos macroeconômicos do milagre social de Lula I e II não existam mais, o que seria dar valor demais ao preço das commodities na equação que aliou crescimento e inclusão. A reorientação da política econômica para os objetivos da política social de novo tipo, centrada na massificação do programa Bolsa Família, se deu às costas da intelligentsia de esquerda, que sempre tomou por norte o ciclo desenvolvimentista de [Getúlio] Vargas aos generais. É verdade que o aumento dos preços das commodities no mercado internacional, alavancado pelo aumento da demanda chinesa no começo dos anos 2000, contribuiu para alargar o espaço de manobras dos governos do PT. Contudo, o grande boom dos dois primeiros governos Lula havia sido um boom social, uma emergência de capacidades, ferramentas e subjetividades. Aquele governo, de maneira ainda incipiente, porém vanguardista no mundo, foi um balão de ensaio de sair do neoliberalismo hacia dentro, uma fuga avante ante as dinâmicas de financeirização, flexibilização e globalização.

Limitação político-ideológica
O elemento mais forte daquela fase não fora a normalidade do tripé macroeconômico herdado do Plano Real e do estado democrático de direito instituído pela Constituição de 1988, cujas efetividades são, antes, resultantes das mecânicas de poder do que suas condições fundantes. O elemento que mereceria o resgate é o aspecto de anomalia da experiência brasileira de neoliberalismo globalizado, cujos antagonismos e tensões se desdobraram criativamente, de um modo próprio, e sem recorrer a um Fora mistificado. A verdadeira limitação hoje não é contábil ou de conjuntura internacional, mas político-ideológica.

Sem relançar um terreno de reinvenção democrática, a volta da Política enunciada no discurso de posse pode ser apenas o prenúncio da volta da velha política, da recomposição das mesmas forças proprietárias e oligárquicas, dos mesmos caciques e partidos fisiológicos, ainda que sejam encabeçados por Lula e dirigidos pelo PT governista. É uma situação de impasse pelo seguinte: a inexistência de terreno de reinvenção democrática foi uma das causas e não consequência da vitória eleitoral de Lula, uma vitória marcada pelo cansaço e desencanto dos eleitores, pela falta crônica de alternativas, pela vontade desencantada de acordar de um pesadelo.

IHU – A partir dos discursos do presidente, o que é possível esperar em termos de política externa?

Bruno Cava – O protagonismo possível do Brasil no cenário mundial advém do maior ativo do país perante os demais: a Amazônia, em toda sua biodiversidade, suas riquezas hídricas e minerais, sua multiplicidade de povos e culturas. Nessa missão, a figura-chave para reconstituir a imagem brasileira é Marina Silva, que Lula teve a proeza de conseguir trazer para o seu governo mesmo depois da campanha de desconstrução política movida contra ela pelo partido e por ele próprio, em 2014. Com trânsito internacional e trajetória de vida entre os mais pobres, Marina é uma militante ambientalista e intelectual à altura do desafio de encampar a agenda das agendas.

No âmbito da integração regional da América do Sul, chamou a atenção a proposta vocalizada por [Fernando] Haddad de resgate da moeda comum do Mercosul. Pensar e formular ao redor da proposta moeda comum deve servir de plataforma para a problematização e a abertura de um largo campo de questionamentos e formulações entre os países interessados, além de coletivos e movimentos internacionalistas, à semelhança dos Fóruns Sociais Mundiais. A dimensão monetária não é um fator meramente econômico nesse processo, pois implica o desenvolvimento de redes de confiança e solidariedade, para além das fronteiras, e na medida em que a vida da moeda é animada pela cooperação social, a capacidade de gerar riqueza e multiplicar valores.

IHU – Nos pronunciamentos, o presidente Lula não fez referência à guerra entre a Rússia e a Ucrânia nem à posição do país na conjuntura internacional. Como interpreta esse silêncio e como o novo governo tende a se posicionar em relação ao conflito?

Bruno Cava – Antes da eleição, Lula esboçou uma postura equidistante entre [Vladimir] Putin e [Volodymyr] Zelensky, colocando-se à disposição para intermediar as negociações. O comentário aconteceu num tom informal e descompromissado, em discurso de campanha, porém a cena não deixa de ser reveladora de como ele pensa. Em parte, decorre do papel de árbitro universal que o presidente atribui a si. Em parte, deriva da influência ideológica de setores do PT, que enxergam na Rússia uma parceira geopolítica do Brasil. Para estes setores de formulação de política externa ligados ao partido, a ameaça maior para o posicionamento geopolítico do Brasil seriam a primazia norte-americana e as elites internas que se dariam por satisfeitas em permanecer como sócias menores e subcapitalistas de Washington. São ecos terceiro-mundistas, costurados com os panos velhos herdados da Guerra Fria. Com frequência, ainda que se envernize com o brilho dos grandes esquemas e forças macroestruturais, o “argumento geopolítico” esconde a insuficiência da leitura das tendências do presente.

O governo Lula precisa de um terreno de reinvenção democrática para não ser tragado pela inércia das tendências na crise, o que significará o retorno ainda mais crespado de Bolsonaro ou de algo ainda pior. O que, por sua vez, depende de uma ligação com um devir mundial, na medida em que as políticas interna e externa se articulam de várias maneiras. Na década passada, o devir mundial era dado pelas primaveras árabes, a seguir desdobradas numa sequência de revoltas e levantes, na Espanha, Turquia, Brasil, Ucrânia ou Hong Kong. Como se sabe, o governo do PT e mais em geral as esquerdas petistas perderam o bonde, e terminamos, todos, sofrendo um 18 de brumário brasileiro, como no livro de Marx sobre o fim tétrico da Segunda República Francesa.

Globalização: duas propensões estruturais
Nesta década, a globalização se divide politicamente em duas propensões estruturais. De um lado, a saída das novas direitas, que se articulam numa Internacional reacionária ou bannonista, e que reterritorializa figuras do retorno à ordem: mãe-pátria, família nuclear, cristianismo verdadeiro. Do outro lado, no interior das democracias liberais, abriu-se um espaço de o reencantamento da defesa do iluminismo, que poderíamos chamar de tendência de democratização. Não se trata, exatamente, de uma dicotomia entre democracias e autocracias, como faria supor um discurso mais ilustrado liberal. A clivagem atravessa os países e provoca tensões intestinais nas sociedades: trumpistas, bolsonaristas, direitas xenófobas europeias, putinistas, tankies, contra as frentes amplas que abarcam desde liberais conservadores até esquerdas extraparlamentares. A China ainda é uma incógnita pouco clara nesse dualismo em formação, mas a Rússia putinista já tomou a dianteira, pretendendo liderar o projeto reacionário.

Na visão elaborada por Putin e assumida por seus simpatizantes e seguidores, a multipolaridade nos discursos não significa o fortalecimento de instâncias multilaterais e organismos de direito internacional, mas multi-imperialismo, a divisão do globo em zonas de influência, com a instituição de uma Santa Aliança formada por China, Rússia (líder de um futuro bloco eurasiano que englobaria a Europa) e Estados Unidos (com a volta dos neocons). Seu sonho é sentar-se ao lado dos estadistas para retalhar as áreas de influência reservadas a cada um dos membros da tríade, à maneira da Conferência de Ialta. Dentro desse sistema-mundo multi-imperialista, sem armas nucleares e nem aspiração de se constituir em hegemon, o estado brasileiro não tem como se inserir com protagonismo. Se Putin se imagina o novo Stálin, devidamente de-comunizado, [Joe] Biden caminha no sentido da tradição rooseveltiana, contrária à divisão verticalizada do mundo em zonas de influência, política que acabou sendo encampada por [Harry] Truman depois da morte de [Franklin] Roosevelt, em abril de 1945.

O presidente americano do Partido Democrata não está repetindo para a Ucrânia a atitude estratégica ambígua de [Barack] Obama, assim como o chanceler alemão [Olaf] Scholz, depois do discurso do Zeitenwende [mudança de era ou paradigma, ponto de inflexão], não está repetindo a linha bifronte de [Angela] Merkel. Ambos os líderes, dos EUA e da Alemanha, assumiram a ruptura interna em relação a qualquer política de appeasement a Putin e ao regime putinista – política que (cinicamente) pretendia civilizá-lo por meio do comércio, divergindo inclusive das linhas adotadas pelos respectivos partidos anteriormente.

Se pensarmos do ponto de vista do estado brasileiro, será difícil que se imponha ao Itamaraty a posição ideológica da ala petista, que camufla os velhos argumentos terceiro-mundistas pelo designativo relativamente vazio, quase folclórico, de “Sul Global”. Quando um país invade outro sem casus belli, como a Rússia invadiu a Ucrânia, a equidistância se torna insustentável sem com isso ferir a tradição de defesa dos princípios do direito internacional público e da Carta das Nações Unidas. O estado brasileiro, membro-fundador da Organização das Nações Unidas – ONU em 1945, apoia sistematicamente a não intervenção e o respeito à integridade territorial. O grau de violação aos direitos de Haia e Genebra, na invasão russa de fevereiro passado, foi tão acintoso que nem mesmo Bolsonaro, simpático ideologicamente a Putin e ao extremismo de [Alexándr] Dugin e abertamente alinhado às novas direitas trumpistas nos EUA, pôde impedir que o Brasil votasse desfavoravelmente à guerra de agressão da Rússia na ONU.

Aqui, o Brasil pode se beneficiar da linha de democratização internacional, pois ajuda a desarmar as frentes reacionárias e golpistas internas, como também contribuir para ela, levando o ingrediente social, de renda e distribuição de riqueza, no que o país é referência de experiências e políticas. No discurso de posse, Lula fala de aumentar o protagonismo, inclusive na ONU, mas o fato é que com neutralidade e oportunismo econômico não se vai longe. A reforma da ONU vai nascer da luta por reinvenção democrática em escala global, na qual podemos participar articulando as políticas doméstica e exterior.

IHU – Alguns analistas estão dizendo que a Rússia perdeu a guerra. Concorda? Por quê? Quais são as evidências que corroboram ou não essa afirmação?

Bruno Cava – Sim e não. Explico.

Se pensarmos clausewitzianamente, que a guerra é a continuação da política, então vitória e derrota podem ser definidas mediante a conquista ou não dos objetivos políticos traçados pelo regime que escolhe a guerra como método ou que a sofre pela agressão de outro. Neste caso, se considerarmos os objetivos políticos definidos, a Rússia perdeu. Seus três objetivos políticos declarados eram: 1) impedir o avanço da Organização do Tratado do Atlântico Norte – OTAN, 2) “desnazificar” e 3) desmilitarizar a Ucrânia.

Impedir o avanço da OTAN
Quanto ao primeiro objetivo, falhou, na medida em que a OTAN não só está avançando com a entrada de Suécia e Finlândia, como o orçamento militar dos estados-membros vem crescendo, os Estados Unidos e o Reino Unido se tornaram líderes do bloco europeu e foi consolidada uma unidade estratégica anti-Putin entre anglo-americanos, países do Leste Europeu e União Europeia em geral, inclusive contando com a Alemanha, a Itália e a França, que costumavam suscitar ressalvas às medidas de contenção do imperialismo russo. Ademais, Putin não conseguiu formar uma coalizão com a China, que vem mantendo posturas anfibológicas, sobre a invasão de fevereiro passado, e mal tem conseguido arregimentar a Belarus para o esforço de guerra.

“Desnazificar” a Ucrânia
Sobre o segundo objetivo, “desnazificar”, primeiro é preciso esclarecer que não tem relação com alguma luta antifascista. Dentro da doutrina informacional russa da dezinformatsiya, Putin joga com os signos e a memória da Grande Guerra Patriótica, como ficou conhecido o front europeu oriental da Segunda Guerra. Embora tenha participação marginal na vida política da Ucrânia, é verdade que há regimentos com caracteres ultranacionalistas e até mesmo neonazis, mas quem vem praticando o fascismo na concretude é o exército invasor, sem falar que o regime putinista flerta ele próprio com derivas fascistas na Rússia. “Desnazificar” a Ucrânia, em putinês, pode ser traduzido para des-ucranizar, isto é, depurá-la de elementos patrióticos e reintegrá-la manu militare à Grande Rússia, assim revertendo a recente tendência de alinhamento do país à União Europeia e à OTAN, de preferência com a deposição do governo em Kyiv. Mas como o ataque decapitador sobre Kyiv foi um fracasso militar vexaminoso, a população ucraniana terminou galvanizando-se ao redor da luta de independência nacional, o que alavancou Zelensky a herói iconopolítico, frequente capa de jornais e revistas pelo mundo todo. Em suma, ocorreu o exato oposto do que Putin esperava cumprir: desmoralizar a liderança ucraniana, desacreditar as pretensões independentistas e russificar os territórios ao leste do rio Dnipro.

Desmilitarizar a Ucrânia
Finalmente, quanto ao terceiro objetivo, de desmilitarizar a Ucrânia, neutralizando as suas forças armadas, a invasão fracassou espetacularmente. O volume de apoio bélico, logístico e informacional à Ucrânia tem sido semelhante às linhas de fornecimento da Trilha Ho Chi Mihn durante a guerra do Vietnã, ou do Lend-Lease Act com que os Estados Unidos equiparam e armaram a União Soviética para resistir à Wehrmacht depois de 1941, na Segunda Guerra Mundial.

Guerra como continuação da política
A resposta se a Rússia já perdeu também pode ser não, se problematizarmos a concepção clausewitziana de guerra e deslocarmos a definição de vitória e derrota. No começo do século XIX, [Carl von] Clausewitz foi um estrategista do projeto de reequilíbrio europeu no contexto das guerras napoleônicas. Para ele, o grande inimigo das monarquias europeias era Napoleão Bonaparte, que ele enxergava o corso como personificação das turbações da Revolução Francesa, espalhando caos e quebra das hierarquias por todo o continente.

A geopolítica do balanço europeu que Clausewitz defendia trazia embutida a perspectiva contrarrevolucionária. Seu foco era pacificar as revoltas e encerrar a Revolução Francesa, e dentro desse espírito se inseria a ciência da guerra do escritor nascido na Prússia, voltada a restaurar a ordem continental dos estados monárquicos absolutistas e blindá-los diante das eclosões de levantes populares e reformas liberais. Por isso, contrariando as ordens que recebera do estado-maior prussiano, Clausewitz lutou do lado das tropas czaristas contra La Grande Armée, durante a invasão da Rússia de 1812. Em 1830, quando explode a Revolução de Julho em Paris, Clausewitz envia uma missiva ao estado-maior da Prússia recomendando a formação de uma aliança conservadora para a imediata invasão da França, “para evitar o surgimento de um novo Napoleão”.

Então, ao falar que a guerra é a continuação da política, Clausewitz estava se referindo a um tipo específico de política: a contrarrevolução, a raison d’être da guerra conduzida externamente é suprimir as oposições internas e garantir a segurança do estado. Nesse sentido mais rigoroso da máxima clausewitziana, da guerra como corolário de uma política de contrarrevolução, a guerra na Ucrânia está servindo até agora à eliminação das oposições internas, neutralização de ciclos de protestos e perpetuação das elites dirigentes. A guerra na Ucrânia em 2022 é o último capítulo, o mais brutal e homicida, da longa restauração do ciclo desencadeado pelas primaveras árabes, que começaram na cidade de Túnis, em dezembro de 2010. A reação não ocorre só na Rússia, como também na teocracia feminicida no Irã ou na ditadura síria que, com apoio armado russo, esmagou as revoltas espoucadas pelas primaveras árabes.

Existe aí, novamente, a ligação com a tendência de democratização e com o devir mundial: a situação ucraniana é zona nevrálgica dessa clivagem que atravessa os países, motivo pelo que o governo brasileiro deve atentar bem nos seus alinhamentos e posicionamentos, pois repercutirão em profundidade ao longo do tempo. Colocando dessa maneira o problema de vencer ou perder uma guerra, só se poderá dizer que Putin e seus aliados perderam a guerra se forem destituídos no home front, por lutas e levantes em seus próprios países, que promovam a abertura e a democratização das respectivas sociedades. Enquanto isso não acontecer, a guerra está em aberto, detém uma dimensão global pronunciada e somente se resolve na articulação entre o interno e o externo, o local e o global.

IHU – No próximo mês, a guerra completará um ano. Quais as expectativas em relação ao conflito neste ano?

Bruno Cava – Toda guerra de atrito prolongada se move por um sistema interdependente de engrenagens e fontes combustíveis. Apenas quando um dos fatores romper por desgaste ou se exaurir, o maquinário como um todo para, e a guerra tende a congelar segundo linhas de cessar-fogo, reclamando por uma solução diplomática mais duradoura. Enquanto isso não acontecer, a diplomacia é apenas um instrumento de poder mobilizado para as metas da própria guerra, a par dos instrumentos militar, econômico, informacional etc., e contribuindo para o esforço de cada país em alcançar seus próprios objetivos políticos.

Dito isto, praticamente todas as engrenagens da guerra da Rússia na Ucrânia estão sofrendo intenso desgaste e podem virtualmente emperrar em 2023, mas algumas são mais críticas do que outras.

Lado ucraniano
Do lado ucraniano, o estado da economia nacional, cujo PIB despencou e inteiras cadeias de serviço e produção foram inviabilizadas, bombardeado constantemente em sua infraestrutura básica, é crítico. A estratégia putinista é mostrar aos ucranianos que o custo em continuar será maior do que qualquer ganho que eles possam esperar obter com as regiões perdidas entre 2014 e 2022. O erro dessa estratégia, desde o início, consiste na subestimação por Putin da obstinação patriótica, já que a maior parte dos ucranianos está sustentando o esforço de guerra mesmo com toda a devastação sofrida, vista como consequência de uma guerra justa de libertação em relação ao jugo da antiga. Outra peça crítica nos mecanismos que sustentam o esforço ucraniano reside na capacidade de repor munições e componentes militares, no que as forças armadas locais são muito dependentes da manutenção de altos fluxos de suporte vindo dos países da OTAN.

No médio prazo, como a estratégia putinista de congelar os europeus e desestabilizar seus governos também não deu certo, a Ucrânia deve conseguir se manter. No longo prazo, contudo, dificilmente pode competir com o parque industrial russo. A variável industrial será determinante para horizontes de conflito que superem um par de anos, o que exigirá um aumento do nível de compromisso dos aliados para remodelar seus parques produtivos e indústrias de defesa para suportar a Ucrânia, sob o risco de acabar sendo superada pela maior magnitude produtiva da Rússia, dada sua vantagem descomunal em fontes energéticas e recursos minerais.

Lado russo
Do lado russo, a engrenagem prestes a romper é a capacidade política e econômica de mobilizar tropas e equipamentos. A Rússia perdeu boa parte de seu efetivo profissional bem treinado, suas tropas de elite, na primeira fase da invasão, que fracassou. Apesar dos decretos de mobilização forçada, a qualidade das tropas russas geradas tem sido baixa, seus equipamentos são inconsistentes, e a moral e disciplina dos recrutas cada vez mais frágil, faltando um senso básico de propósito. Invadir um país é muito mais fácil do que mantê-lo sob ocupação, como os americanos comprovaram no Iraque ou Afeganistão. Obviamente que, no território da Crimeia anexada em 2014 e em algumas partes do Donbas, cuja guerra de baixa intensidade já conta oito anos, a diferença de motivação entre russos e ucranianos passa a ser um gradiente, não sendo tão binariamente marcada como noutros territórios, como vimos em Kyiv, Kharkiv ou Kherson. Parte da população ucraniana que não fugiu ou foi deportada não se enxerga sob a ocupação de um exército estrangeiro e muitos detêm um passaporte russo, para não falar das soluções de compromisso e ambiguidade que populações em regiões de conflito tendem a manifestar.

Outra engrenagem bastante crítica para a Rússia é a saúde da cadeia de suprimentos de alto valor agregado, dependente de componentes que não são fabricados no país e de difícil reengenharia. As sanções econômicas estão cobrando seu preço para a reposição dos equipamentos com maior tecnologia incorporada, cuja substituição da importação não é imediata nem simples de equacionar junto ao parque industrial. Por causa disso, se está verificando, no campo de batalha, uma cadência decrescente no emprego de mísseis de cruzeiro contra as cidades ucranianas, sendo substituídos por drones iranianos.

Ao passo que o exército da Rússia recorre aos obsoletos (porém imensos) depósitos da antiga URSS, a Ucrânia vai atualizando e substituindo seus sistemas militares por um padrão mais moderno da OTAN. Como resultado disso, a Rússia espera compensar o deságio tecnológico com quantidade e força bruta, o que, em contrapartida, provoca mais baixas e maior pressão social contra os decretos de mobilização.

Apesar de termos um volume de informação, em tempo real, superior do que em guerras passadas, os analistas com pensamento crítico hoje divergem sobre os pesos atribuídos a cada fator envolvido no maquinário de guerra e seus efeitos entrecruzados, nos diferentes horizontes de desdobramento do conflito. É consensual, contudo, que a guerra na Ucrânia não vai se resolver tão cedo e que adquira, cada dia mais, um aspecto central no futuro da globalização capitalista. A menos que em breve vejamos uma reviravolta política na Federação Russa, talvez a variável mais obscura para quem não está dentro do país, a guerra lamentavelmente deve prosseguir ao longo de 2023, provocando ainda mais milhares de baixas militares e civis, impactos de toda sorte nos fluxos de abastecimento, energia e migratórios.

A jovem república ucraniana, dadas as condições iniciais, já ganhou. Até agora, ganhou estrategicamente, politicamente, inclusive militarmente. O problema é que, mesmo perdendo consecutivamente os rounds e sofrendo atritos gigantescos, a Rússia é um Behemot que lutou duas guerras mundiais e se armou até os dentes para uma terceira, com resiliência na reposição das perdas e na absorção de sofrimentos, que não parece próxima de jogar a toalha.

Bruno Cava em entrevista no IHU (Foto: Cristina Guerini | Acervo IHU)

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