As empregadas domésticas: a última crônica? Por José Ribamar Bessa Freire

No TaquiPraTi

“Estou sem assunto. Lanço, então, um último olhar fora de mim,
onde vivem os assuntos que merecem uma crônica”.
(Fernando Sabino. A Última Crônica. 1963)

Parece até parábola do Evangelho com ensinamentos sobre a vida. Ou história contada em Nheengatu pelos indígenas do Alto Rio Negro, na qual o Jabuti sabido exerce sua doce vingança. Essa aconteceu mesmo e foi relatada oralmente na Academia da Terceira Idade (ATI), na esteira da violência crescente, física e simbólica, contra empregadas domésticas, que se alastra pelo Brasil. Se me permitem, descrevo antes o cenário e o contexto.

Há cerca de dez anos, este velhinho que vos fala frequenta uma ATI em Icaraí para praticar gratuitamente exercícios físicos nos equipamentos instalados pela Prefeitura de Niterói. Lá convivi com vários grupos, em diferentes horários. Com o tempo, a gente acaba sabendo os nomes das pessoas e o perfil profissional de cada uma delas.

O primeiro grupo é de quem acorda de madrugada: as domésticas na faixa dos 40-50 anos, residentes em São Gonçalo e morros adjacentes. No horário seguinte, os aposentados: militares e outros profissionais. Mais tarde, o turno subsequente é de quem não costuma madrugar: as madames.  A escala não é tão esquemática assim, algumas vezes antes de uma turma se pirulitar, alguém do outro time se infiltra e há uma mistureba. Nos três grupos rolam muitas histórias durante os exercícios.

Inicialmente, frequentei o horário dos aposentados, com um ou outro milico até simpático e amável. Mas em 2018, na eleição presidencial, não suportei o papo da maioria fanática e obtusa. Mudei de turno. Subi, então, para o grupo das patroas, que também propagavam em voz alta as fake news em defesa do Mito, intercaladas com relatos esnobes de viagens à Europa. Eu entrava calado e saía mudo para evitar estresse. Mesmo assim não aguentei. Desci para o turno das empregadas, mas veio a Covid-19 e a ATI se esvaziou.

A sala e a cozinha

No pós-covid e especialmente após a eleição de Lula, patroas e milicos se escafederam e o ambiente ficou menos tenso. As empregadas domésticas tomaram conta do pedaço e as conversas passaram a rolar mais livremente. Eu ficava na minha, meditabundo, sem me manifestar. Apenas um “bom dia” formal na entrada para cumprir tabela. Só desmeditabundei quando comentaram o caso da babá agredida em Manaus pela mulher de um policial.

Foi aí que ouvi a história exemplar que agora conto, narrada por Lena aos usuários da ATI sobre o tratamento dispensado à sua amiga Liza, empregada em apartamento na Praia de Icaraí com vista para o mar. Ela chegava diariamente às 7h00, com pontualidade britânica, porque a patroa de 60 e tantos anos descontava o atraso, mas nunca lhe pagava as horas extras.

Liza era faxineira, lavadeira, passadeira e cozinheira, além de prestar assistência ao patrão demente com Alzheimer e de servir de babá dos netos – contou Lena, a narradora, enquanto se exercitava no simulador de caminhada, balançando pra frente e pra trás. Ela completou: – o salário da minha amiga era miserável, mas pelo menos o contrato incluía o direito ao café da manhã e ao almoço.

Que café! Um senhor café! Na mesa da sala, vários tipos de pães quentinhos, baguetes, queijos, bolo caseiro, ovos mexidos, panquecas, granola, café, chá, leite, suco de frutas, geleia e mel. Isso para a família. Para a empregada, desterrada na cozinha, só café preto com pão velho e dormido. E o almoço?

Voltamos aos nossos estúdios. É com você, Lena, que sabe contar histórias. Como era o almoço?

O desenlace fatal

Um senhor almoço! – garantiu Lena. A família degustava os deliciosos quitutes feitos pela empregada. Um dia, Liza preparou um filé mignon de cor rosada com alho, pincelado de mostarda e um feijão gostoso, cujo tempero podia figurar no show gastronômico do chef de cuisine Claude Troisgros. Serviu tudo na mesa da sala. Mas na cozinha, o seu pratinho trivial era diferente.

Aqui a narradora Lena parou de balançar no simulador de caminhada e sua voz tremeu de indignação para revelar que a patroa proibiu Liza de saborear a mesma comida da família. A megera tirou da geladeira um feijão congelado, amassado quinze dias antes na peneira para dar o caldo ao neto. Era só palha. Disponibilizou ainda uma salsicha ultra processada, sebenta e gordurosa, com aditivos, nitritos e nitratos.

Liza não comeu aquela porcaria e disse à patroa que a partir daquela data traria a comida de sua casa. Foi advertida que o salário continuaria o mesmo. No dia seguinte, trouxe efetivamente marmita com filé mignon, puré de batata e uma supimpa salada de alface, tomate-cereja, palmito de pupunha e manga. De sobremesa, uma maçã gala vermelha. Dona Lucinda – esse é o nome da patroa – intrigada, não acreditou no que viu:

– Você trouxe isso de casa?

Por via das dúvidas conferiu os filés na geladeira e contou as maçãs. Não deu falta de nada. Estava tudo em ordem.

Aí quem esnobou foi Liza, cujo marido acabara de arrumar um emprego como vigilante numa construção e ela pôde, assim, fazer aquela extravagância uma única vez. Mentiu:

– Em casa comemos sempre assim.

Foi então que ocorreu o desenlace fatal.

A alma lavada   

No dia seguinte, dona Lucinda desperta às 9h00 e encontra a mesa da sala vazia. Nada de Liza. Telefona e cobra com voz autoritária:

– Liza, são 9h00 horas, o que aconteceu?

– Aconteceu que o seu telefonema me acordou – mentiu Liza outra vez, com voz fingidamente sonolenta.

– Você está dormindo até agora? Vou descontar do teu salário?  Venha já para cá – ordenou Lucinda, que esqueceu o 13 de maio de 1888. Mas Liza lembrava da data:

– Não vou hoje, nem amanhã, nem nunca mais. Fique com o meu salário, porque agora a senhora é que vai ter de cozinhar.

Nunca fariseus e fariseias receberam um tapa assim com luva de pelica – disse naquele tempo um Mestre a seus discípulos. Em verdade em verdade vos digo, nem Cafarnaum, nem Jericó testemunharam ajuste de contas tão justiceiro e com “tanta classe” como esse ocorrido em Icaraí.

Quando Lena, a narradora, terminou o seu relato, não me contive, rompi meu silêncio obsequioso e gritei:

– Essa história lavou minha alma.

Contei a ela que vejo em cada empregada doméstica uma senhora de nome Elisa – olha a coincidência – que trabalhou no turno da noite, varrendo as salas e recolhendo o lixo no Grupo Escolar Cônego Azevedo, no bairro de Aparecida, em Manaus, mãe de 13 filhos, entre os quais esse velhinho que vos fala.

No final do relato de Lena, participamos de uma espécie de dabacuri, o ritual indígena que celebra a fartura de comida e a união das pessoas. Lizete, uma das frequentadoras da ATI, trouxe no ônibus várias pencas de banana plantadas no quintal de sua casa. Generosa, nos convidou a comer banana prata e banana ouro.

Valeu a pena seguir o conselho de Fernando Sabino. Ele tinha de escrever sua crônica para o jornal e estava sem assunto. Foi tomar café no balcão de um botequim, quando viu um casal de negros comprar a fatia de bolo mais barata e colocar nela três velinhas. Discretamente, o casal cantou baixinho o parabéns para a filha, uma negrinha linda que aniversariava. O pai, no início constrangido, viu o olhar cúmplice do cronista e logo se abriu num sorriso.

– Assim, eu quereria a minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso – escreveu Sabino.

Espero que essa crônica sobre empregadas domésticas, que não é a última, reforce aquela gargalhada gostosa que tomou conta da ATI, zoando a dona Lucinda. Doce vingança de Jabuti.

P.S. Ver também sobre o mesmo tema cronica de abril de 2018: https://www.taquiprati.com.br/cronica/1391-papo-de-velho-%E2%80%9Cai-meu-deus-so-jesus-na-causa%E2%80%9D

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