Bens agropecuários de Arthur Lira já somavam R$ 13 milhões em 2006, diz sua ex-mulher

Jullyene Lins aponta em processo que deputado tinha R$ 18 milhões na época, enquanto declarava ao TSE apenas R$ 695 mil; entre os bens estavam fazendas em Quipapá (PE) ocultas da Justiça Eleitoral; em 2023, ele expulsou camponeses de fazenda não declarada no mesmo município

Por Carolina Bataier e Luís Indriunas, em De Olho nos Ruralistas

Em 2006, o patrimônio agropecuário do presidente da Câmara, Arthur Lira, incluía fazendas, chácara, parque de vaquejada, cavalos puro-sangue e milhares da cabeça de gado, num total de R$ 13.163.120, segundo sua ex-mulher, Jullyene Lins. Ela move, desde aquele ano, um processo de partilha de bens pela separação de ambos.

Além da fortuna rural, Jullyene apontou, durante o processo, outros bens como casa na praia, apartamento e duas lanchas, somando R$ 18.227.480, cerca de R$ 70 milhões em valores atuais. Nas eleições do ano passado, Lira declarou um valor três vezes menor, mesmo sem correção monetária: R$ 5,97 milhões.

Ainda em 2006, Arthur Lira se candidatou a deputado estadual pelo nanico Partido da Mobilização Nacional (PMN) e perdeu. Na época, ele declarou, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), um patrimônio de  R$ 695.901,55, ou seja, 3,8% do valor dos bens descritos no processo de partilha.

Oficialmente, ele declarava uma aplicação financeira de R$ 20 mil, um apartamento e uma casa em Maceió. De bens rurais, apenas 240 cabeças de gado, somando R$ 96 mil.

Jullyene acusa a Justiça alagoana de protelar indefinidamente o processo. Em 2019, o deputado tentou freá-la de outra forma. “Arthur Lira me ofereceu R$ 5 milhões para desistir de ação e falar bem dele”, disse a ex-mulher em entrevista ao De Olho nos Ruralistas.

Cinco fazendas estão na lista que circula pelo Tribunal de Justiça de Alagoas há 17 anos. Elas somam 2.065 hectares e valiam, na época, R$ 11.384.000. Todas em Pernambuco: quatro em Quipapá, a outra em Panelas, a maior, no valor de R$ 7 milhões. Foi em Quipapá que Lira expulsou camponeses, alegando ser dono de mais uma fazenda não declarada: os posseiros moravam havia décadas na terra de uma usina falida, como aponta o relatório “Arthur, o Fazendeiro – A Face Agrária dos Clãs Lira e Pereira”, lançado pelo De Olho nos Ruralistas no dia 13 de novembro.

Assim como as fazendas anteriores, Lira não declarou essa área ao TSE.

Confira abaixo o vídeo que explica como funciona o império pecuário e político dos Lira e Pereira.

MESMO OCULTANDO FAZENDAS, LIRA AUMENTOU EM OITO VEZES SEU PATRIMÔNIO

Entre 2006 e 2022, quando se reelegeu deputado federal, Arthur Lira multiplicou o número de bens declarados à Justiça Eleitoral: passou de mais de R$ 600 mil para R$ 5.965.870,58, um crescimento de mais de oito vezes em 16 anos. O patrimônio rural somava R$ 1.784.899,58, 30% do total. Tudo isso conforme os valores oficiais — sem os bens enumerados no processo.

“O Arthur foi aprimorando aperfeiçoando e aumentando o patrimônio e aumentando e aumentando e aumentando até o ponto que chegou agora”, afirma Jullyene.

Em 2022, Lira declarou quatro fazendas, todas em São Sebastião (AL). Duas entre elas, as Fazendas Tapera e Paudarqueiro são vizinhas do povoado indígena Karapotó Terra Nova, que luta há 20 anos pelo reconhecimento do território. De Olho nos Ruralistas esteve no local. As fazendas de Quipapá não aparecem na declaração.

O principal investimento agropecuário de Lira, segundo sua declaração, é a Lira Agropecuária e Eventos, responsável pela promoção de leilões onde o presidente da Câmara une política com negócios. Ele declarou ser proprietário de R$ 100 mil em cotas e ter emprestado mais R$ 756 mil para a própria empresa. O vídeo sobre o dossiê mostra o clima festivo dos leilões Lira e cenas de vaquejadas, onde ele se divertia puxando rabos de bois.

Além de omitir fazendas à Justiça, segundo Jullyene, Lira usa laranjas. “Eu fui laranja dele”, afirma, “tanto que hoje eu não tenho vida fiscal, não posso ter conta em banco, toda hora bloqueia.” Na época, Jullyene diz ter assinado papéis para uma indústria de embalagens plásticas chamada Penafort, em Maceió. Após a separação, a empresa foi fechada e, segundo ela, não foram pagas as indenizações aos funcionários.

Jullyene e Arthur ficaram juntos durante dez anos. “Nessa época, o dinheiro chegava lá em casa em malotes”, afirmou a ex-mulher à revista Veja.

EX-MULHER ACUSA LIRA DE TENTAR QUEBRÁ-LA FINANCEIRAMENTE

—Ele é incansável, não tem escrúpulos. Ele tem todo mundo na mão, por isso fica todo mundo atônito sem fazer nada.

Jullyene Lins espera uma resposta do processo de partilha de bens há 17 anos e acusa o Judiciário do seu Estado de protelar as ações. Outro exemplo que ela aponta é a cobrança de pensões alimentícias em atraso, transitado em julgado pelo Tribunal de Justiça de Alagoas em 2012, mas até hoje não cumprida.

Ele diz sofrer sistematicamente de processos em que o presidente da Câmara a acusa de difamá-lo. “Todo dia é um processo que chega, da honra”, conta. “Que honra esse homem tem? Ele quer me engessar financeiramente. Então, vamos lá, manda descontar do que ele me deve.” Jullyene diz ter sofrido vários bloqueios judiciais ao longo desses anos, “porque eu falo, falo”.

Em 2006, após alguns meses de separação, Jullyene prestou queixa por agressão e violência doméstica, com testemunhas e exame de corpo de delito comprovando as lesões. Nove anos depois, Lira foi inocentado em julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF), após testemunhas voltarem atrás em seus depoimentos. A própria Jullyene disse ter sido ameaçada durante o processo.

Desde então, ela passou a dar entrevistas acusando o deputado de corrupção e recebimento de propina. Em 2023, Jullyene, em entrevista à Agência Pública, disse que foi vítima de violência sexual no mesmo episódio da acusação de violência física e que não contou antes por respeito aos filhos, na época crianças. A reportagem foi censurada pela 6ª Turma Cível do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios em setembro.

LIRA EXPULSOU CAMPONESES DE TERRA QUE NÃO DECLAROU

Em 25 de agosto de 2023, Cícero Paulo da Silva e sua esposa, Maria José de Oliveira Silva, a Zezé, foram obrigados a sair do sítio, localizado a pouco mais de um quilômetro da zona urbana de Quipapá. Lira solicitou auxílio policial para expulsar os camponeses. “O oficial foi lá, conversou com a gente e disse: Dona Zezé, se prepare que daqui a 24 horas vai vir uma ordem de despejo”, conta esposa de Cícero. “Quando a polícia chegou, a gente já tinha tirado todos os móveis”.

Eles ocupavam uma área de cinco hectares na fazenda conhecida como Engenho Proteção. O marido Cícero conta que a família está na propriedade desde a década de 1970. “Meus sete filhos foram quase todos criados lá”. O agricultor passou a viver definitivamente por ali em 2005, após a morte do seu pai, antigo morador do local.

Embora Lira tenha comprado as terras em novembro de 2008, a propriedade de 181,65 hectares nunca apareceu nas declarações de bens divulgadas pela Justiça Eleitoral.

Após a falência do Engenho Proteção, Manoel Paulo da Silva, pai de Cícero e administrador da usina, deixou para o filho um termo provisório de posse assinado em 2002 pelo síndico da massa falida da usina. Em 2021, Cícero deu início a um processo de regulamentação das terras por usucapião. Um pouco antes, os agricultores passaram a receber visitas de funcionários de Arthur Lira. Eles diziam que aquelas terras tinham dono e, por isso, eles não deveriam plantar ali.

CLÃS LIRA E PEREIRA SOMAM IMPÉRIO DE 20 MIL HECTARES EM 115 FAZENDAS

Com mais de 70 páginas, o dossiê “Arthur, o Fazendeiro” detalha a dimensão do império agropecuário construído pelos clãs Pereira e Lira. A equipe identificou 115 fazendas, que somam 20.039,51 hectares. Com elas, um histórico de violações de direitos humanos contado de forma inédita. Da criação de gado na Terra Indígena Kariri-Xocó ao despejo de uma família de camponeses.

Ao lado do pai, o ex-senador Benedito de Lira, Arthur é dono ou arrendatário de pelo menos 14 imóveis rurais, que totalizam 3.872,46 hectares, entre os municípios de Campo Alegre, Craíbas, Major Isidoro, Pilar e São Sebastião (AL), Panelas e Quipapá (PE).

Durante seis meses, o núcleo de pesquisas do De Olho nos Ruralistas investigou as conexões agrárias e políticas das famílias Lira e Pereira, sobrenomes paterno e materno do presidente da Câmara, a partir do cruzamento entre as bases de dados fundiários do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), os registros de imóveis rurais listados em processos de espólio disponíveis no Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF5) e as prestações de contas eleitorais ao TSE.

A pesquisa revela a criação de uma rede de prefeituras e consórcios intermunicipais que atuam em benefício do clã, em diálogo direto com as verbas federais: dos tratores às cavalgadas, das escavadeiras às vaquejadas protagonizadas por Arthur e seu filho Alvinho.

Foto principal (Facebook/Biu de Lira): Arthur Lira e seu pai Benedito acumulam fazendas não declaradas à Justiça Eleitoral

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