Bíblia, “coco da Bahia”, casca dura, mas com água que sacia a sede… Por frei Gilvander Moreira*

Para compreendermos bem, de forma justa e sensata, os textos bíblicos é preciso considerar que a Bíblia não caiu pronta do céu e Deus não a ditou para ninguém escrever. Os escritos bíblicos são frutos de experiências de vida, de caminhada e luta, de uma multidão de pessoas de povos injustiçados que se irmanaram para construir sociabilidade justa e fraterna a partir da fé no Deus da vida, solidário e libertador, Deus que quer vida e liberdade em abundância para todos/as, sem exceção, inclusive para todos os seres vivos da biodiversidade (Cf. Jo 10,10). A Bíblia que lemos hoje passou por inúmeras traduções. Importante recordar que existem muitas dificuldades na Tradução e na Transcrição dos textos bíblicos.

No estudo da Crítica Documental dos textos bíblicos, emergem muitas dificuldades de tradução, pela dificuldade de decifrar a letra do autor do manuscrito ou de transcrição dos textos bíblicos das línguas originais. Outras vezes são erros que aconteceram por omissão ou acréscimo de letras, sílabas, palavras ou mesmo de frases inteiras. São mais frequentes erros por repetição de letras ou palavras quando o texto era ditado para alguém que o copiava. Estes aconteciam seja pela dificuldade de ouvir ou mesmo pela distração. Havia também os erros por troca de letras ou palavras semelhantes, sobretudo nos manuscritos conhecidos como códices hebraicos e nos códices maiúsculos em grego. Aconteciam também erros por inversão de letras.

Os erros na transcrição e tradução dos textos bíblicos aconteciam por motivos até inconscientes, involuntários, outros talvez conscientes e intencionais. Os erros inconscientes geralmente acontecem pela deficiência visual do escriba copista, ou de audição quando se tratava de alguém que ditava o texto, ou ainda pela confusão de sons semelhantes. Os intencionais talvez fossem motivados pela ortografia, gramática, estilo, de harmonização do texto, ou ainda preocupações com a doutrina e a exegese, com o objetivo de tornar o texto mais compreensível, eliminando as dificuldades dogmáticas e gramaticais de alguns textos.

Os exegetas são os biblistas quem têm a tarefa de explicitar o sentido em si mais genuíno do texto bíblico. No exercício de transcrever e traduzir os textos bíblicos, era aconselhado aos exegetas escolherem: a) As lições mais genuínas que ajudassem a explicar a origem de outras lições; b) As lições mais difíceis às lições fáceis; c) As lições mais breves às lições mais longas; d) Escolher preferencialmente a lição disforme do texto paralelo.

Muitas Traduções da Bíblia que temos nas línguas atuais vieram da Tradução da LXX, a Tradução grega da Bíblia em meados do 3º século antes da Era Cristã.

Na Idade Média as traduções eram feitas da Bíblia da Vulgata latina para os diversos idiomas falados: inglês (1611), francês (1535), italiano (1607), alemão (1522-34) e em português (1680), por João Ferreira de Almeida.

No Brasil, a primeira Bíblia foi impressa em 1864, por Garnier Livreiro-Editor. Essa tradução foi feita da Vulgata pelo Padre Antonio Pereira de Figueiredo (1778-1790) e ela circulou só até a terceira edição, por ter sido proibida por Roma, por causa de suas notas de roda pé de página. Essa mesma tradução foi revisada pelo Padre Santos Farina, aprovada e editada em 1904.

Em 1943, foi impressa a Bíblia traduzida pelo Padre Matos Soares, da Vulgata para o português de Portugal, pelas Edições Paulinas. Mas a partir de 1958 todas as Bíblias foram traduzidas a partir dos manuscritos que estão mais próximos dos textos originais, pois os manuscritos originais da Bíblia se perderam. Entretanto, temos muitos manuscritos em hebraico, aramaico e grego dos primeiros séculos da Era Cristã.

Em 1910 foi fundado o Pontifício Instituto Bíblico em Roma, Itália, a pedido do Papa Pio X, para o desenvolvimento dos estudos Bíblicos na Igreja Católica. A partir desses estudos, surgiram muitos exegetas e estudiosos da Bíblia em diferentes áreas, trazendo novo impulso aos estudos Bíblicos e às traduções da Bíblia, diretamente dos manuscritos mais próximos dos originais, para as diversas línguas atuais.

Traduções da Bíblia a partir das Línguas Originais seria o ideal, mas não temos mais os originais dos textos bíblicos. Mesmo que as Bíblias fossem traduzidas das línguas originais – hebraico, aramaico e grego – não quer dizer que o texto fosse uniforme, nem as notas explicativas no rodapé da página eram iguais. São notas exegéticas, como na Bíblia de Jerusalém, ora trazendo os termos na sua língua original com o seu significado e as diferentes interpretações. Outras trazem nas notas uma orientação litúrgica, catequética ou pastoral.

A ‘Bíblia do Peregrino’ foi traduzida e editada também pela Editora Paulus em 2002; a Tradução Ecumênica da Bíblica, editada pela editora Loyola (1994). ‘A Bíblia da CNBB’ usada na liturgia (2001); outras de interesse catequético como: a ‘Bíblia Sagrada’ pela Editora Vozes (1985); ‘Bíblia Sagrada’, Editora Ave Maria (1958); ‘Bíblia Sagrada’, edição Pastoral da Paulus (1990); ‘A Bíblia’ das Paulinas, (2023).

A Bíblia é como coco da Bahia: tem uma casca dura, mas dentro está uma água gostosa que mata a sede do romeiro/a cansado/a”, como gosta de afirmar frei Carlos Mesters. No entanto, ao lermos ou ouvirmos um texto bíblico estamos “bebendo uma água” de um imenso rio. Infelizmente não existem mais os manuscritos originais dos autores ou autoras da Bíblia. Entretanto, graças a Deus, temos manuscritos posteriores que ainda são preservados.

Como se deu o processo de divulgação e conservação dos escritos bíblicos? A comunidade judaica sempre teve grande cuidado em preservar os escritos bíblicos, tidos por ela como escritos sagrados. Na Sinagoga, ainda hoje, são conservados os rolos contendo os livros que são lidos durante o ano e nos tempos litúrgicos especiais.

Muitos Salmos são dedicados à Palavra do Senhor, sobretudo o Salmo 119 que lhe dá diferentes nomes: Lei divina, lei do Senhor, testemunhos, preceitos, estatutos, mandamentos, normas, promessas, e outras são todas expressões que recebem do salmista um elogio, porque elas são as delícias do fiel (Sl 119, 24.77).

Havia um grande esforço de protegê-los nos tempos de guerra, como nos potes de argila nas grutas de Qumran, na Palestina. Além de um esforço em guardá-los no coração e na memória para traduzi-los na prática da vida: “Felizes os que guardam os teus testemunhos, procurando-o de todo o coração, e que sem praticar a iniquidade, andam em seus caminhos! Tu promulgaste teus preceitos para serem observados à risca” (Sl 119,2-4). Esta era uma preocupação constante dos mestres da lei.

Embora seja considerado um livro deuterocanônico pelos judeus, o Segundo livro de Macabeus retrata esse cuidado que havia com os escritos sagrados: “Também nos documentos e nas memórias de Neemias eram narradas essas coisas. E, além disso, como ele fundando uma biblioteca, reuniu os livros referentes aos reis e aos profetas, os escritos de Davi e as cartas dos reis sobre as oferendas. Da mesma forma também Judas recolheu todos os livros que tinham sido dispersos por causa da guerra que nos foi feita, e eles estão em nossas mãos. Se, pois, deles precisardes, quaisquer que sejam, enviai-nos pessoas que vo-lo possam levar” (2Mac 2,13-15).

Do mesmo modo os escritos do Segundo Testamento bíblico tiveram igual cuidado na sua preservação e conservação pelas comunidades cristãs. Sabemos que os primeiros escritos foram as Cartas autênticas do apóstolo Paulo e depois o Evangelho de Marcos, nos anos 70 do 1º século e sucessivamente os demais escritos. Eles não eram apenas bem conservados, mas lidos e meditados pelas comunidades cristãs para a sua orientação e vivência comunitária. Já no ano 95 do 1º século da Era Cristã, Clemente enviou uma carta à comunidade de Corinto, mesmo em se tratando do mais antigo escrito cristão, e não tenha entrado no cânone, mas ele conhece e menciona as cartas de Paulo aos Romanos, Coríntios e a homilia aos Hebreus.

29/03/2024

Obs.: As videorreportagens nos links, abaixo, versam sobre o assunto tratado, acima.

1 – Um Tom de resistência – Combatendo o fundamentalismo cristão na política

https://www.youtube.com/watch?v=5zOV-dOpW-Q

2 – Bíblia: privatizada ou lida de forma crítica libertadora? Por frei Gilvander, no Palavra Ética

https://www.youtube.com/watch?v=pFRiBrjmcMQ

3 – Deram-nos a Bíblia. “Fechem os olhos!” Roubaram nossa terra. Xukuru-Kariri, Brumadinho/MG. Vídeo 5

https://www.youtube.com/watch?v=8ACp7JOtRb8

4 – Agir ético na Carta aos Efésios: Mês da Bíblia de 2023. Por frei Gilvander (Cinco vídeos reunidos)

https://www.youtube.com/watch?v=IBMdrHRNkB0

5 – Andar no amor na Casa Comum: Carta aos Efésios segundo a biblista Elsa Tamez e CEBI-MG – Set/2022

https://www.youtube.com/watch?v=nUsZeprbRBY

6 – Toda a Criação respira Deus: Carta aos Efésios segundo o biblista NÉSTOR MIGUEZ e CEBI-MG, set 2022

https://www.youtube.com/watch?v=bcIzASpx9Lo

7 – Chaves de leitura da Carta aos Efésios, segundo o biblista PEDRO LIMA VASCONCELOS e CEBI/MG –Set./22

https://www.youtube.com/watch?v=1uc95pm6GeE

8 – Estudo: Carta aos Efésios. Professor Francisco Orofino

https://www.youtube.com/watch?v=csZGT2S49SA

9 – Carta aos Efésios: Agir ético faz a diferença! – Por frei Gilvander – Mês da Bíblia/2023 -02/07/2023

https://www.youtube.com/watch?v=IuTKCuFgfhw

10 – Bíblia, Ética e Cidadania, com Frei Gilvander para CEBI Sudeste

https://www.youtube.com/watch?v=SHIi1O66RCg

11 – Contexto para o estudo do Livro de Josué – Mês da Bíblia 2022 – Por frei Gilvander – 30/8/2022

https://www.youtube.com/watch?v=6XJpE9u8a18

12 – CEBI: 43 anos de história! Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos lendo Bíblia com Opção pelos Pobres

https://www.youtube.com/watch?v=n8CGPjlaApE

*Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; assessor da CPT, CEBI, SAB e Ocupações Urbanas; prof. de “Movimentos Sociais Populares e Direitos Humanos” no IDH, em Belo Horizonte, MG.

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