A esquerda precisa urgentemente ler ou reler Gramsci. Por Marcelo Soares

IHU

“Cabe destacar, no entanto, que a citação acima desmente algumas críticas que geralmente são feitas à Gramsci e que talvez sejam responsáveis pela sua rejeição no campo da esquerda, principalmente da esquerda revolucionária. Em primeiro lugar, refuta aquela visão de um “idealismo gramsciano”, de que ele sobrevalorizaria a superestrutura em detrimento da estrutura, pois fica claro que a reforma intelectual e moral que ele defende tem como precedente uma reforma econômica”, escreve Marcelo Soares, sociólogo e militante ecossocialista.

Eis o artigo.
Nos últimos anos o debate sobre as causas do avanço da extrema-direita, não apenas em países de capitalismo periférico, como Brasil e Argentina, mas nos Estados Unidos da América e na Europa, tem sido feito a partir das mais diversas teorias, tanto liberais, como aquelas orientadas a partir do marxismo.

E, infelizmente, uma interpretação desse avanço de uma visão de mundo conservadora que tinha sido feita no momento inicial de ascensão do bolsonarismo no Brasil, parece ter sido sepultada junto com a morte de um de seus formuladores, Olavo de Carvalho, que talvez pela sua identificação inicial com a esquerda, tenha conseguido tirar da leitura de Antônio Gramsci as lições necessárias para uma ação política nesses tempos de crise do sistema capitalista, só que orientada para o combate daquilo que ele denominou como marxismo cultural.

Nos meus tempos de estudante de Ciências Sociais na UFRGS, estimulado pelo Professor Renato Paulo Saul, me aprofundei no estudo de Gramsci, não só nas diversas cadeiras e seminários, mas como monitor e bolsista de iniciação científica. Isso nos anos 80 do século passado, em que recém estávamos saindo de uma ditadura militar e o surgimento do Partido dos Trabalhadores parecia apontar para a superação de posições de esquerda ortodoxas e até então hegemônicas representadas pelo PCB. Mas parece que essa nova esquerda não leu Gramsci, que já tinha sido introduzido no Brasil por dois brilhantes intelectuais, Leandro Konder e Carlos Nelson Coutinho. Ou, se leu, tirou conclusões equivocadas, como demonstram os governos do Partido dos Trabalhadores, em que a estratégia de conciliação de classes orientada para a conquista de algumas melhorias na condição de vida dos trabalhadores e de uma grande parte da população ainda em situação de pobreza extrema, não foi acompanhada pela construção de uma hegemonia cultural, ou do que a esquerda marxista costuma denominar como consciência de classe, e quando tentou fazer foi a partir das chamadas lutas identitárias de gênero, raça e orientação sexual, mas sem vinculá-las à luta de classes.

Nos seus Cadernos do Cárcere, na parte que no Brasil foi lançada como “Maquiavel, a Política e o Estado Moderno”, Gramsci se dedica ao que ele chama de construção de uma “vontade coletiva” fundamentada na ação e a necessidade de uma reforma intelectual e moral, a ser empreendida pelo Moderno Príncipe, o partido revolucionário. Segundo ele:

“Pode haver reforma cultural, elevação civil das camadas mais baixas da sociedade, sem uma precedente reforma econômica e uma modificação na posição social e no mundo econômico? Eis porque uma reforma intelectual e moral não pode deixar de estar ligada a um programa de reforma econômica. E mais, o programa de reforma econômica é exatamente o modo concreto através do qual se apresenta toda reforma intelectual e moral. O moderno Príncipe, desenvolvendo-se, subverte todo o sistema de relações intelectuais e morais, na medida em que o seu desenvolvimento significa de fato que cada ato é concebido como útil ou prejudicial, como virtuoso ou criminoso; mas só na medida em que tem como ponto de referência o próprio moderno Príncipe e serve para acentuar o seu poder, ou contrastá-lo. O Príncipe toma o lugar, nas consciências, da divindade ou do imperativo categórico, torna-se a base de um laicismo moderno e de uma laicização completa de toda a vida e de todas as relações de costume”

Como o objetivo deste artigo não é me aprofundar nas principais contribuições e conceitos da obra gramsciana, vou utilizar esse pequeno fragmento de sua obra, para destacar a importância da sua concepção do Estado e sociedade civil, de relação estrutura/superestrutura, de hegemonia cultural e do partido revolucionário como o Príncipe Moderno, para o debate do atual momento histórico, principalmente o avanço da extrema-direita e declínio da esquerda no campo político.

Cabe destacar, no entanto, que a citação acima desmente algumas críticas que geralmente são feitas à Gramsci e que talvez sejam responsáveis pela sua rejeição no campo da esquerda, principalmente da esquerda revolucionária. Em primeiro lugar, refuta aquela visão de um “idealismo gramsciano”, de que ele sobrevalorizaria a superestrutura em detrimento da estrutura, pois fica claro que a reforma intelectual e moral que ele defende tem como precedente uma reforma econômica. Isso, no entanto, não deve ser entendido como uma visão reformista, como muitos apontam, porque essa reforma econômica seria um dos aspectos de imposição de uma hegemonia dos grupos subalternos na sociedade, o momento decisivo da estratégia de guerra de posição que ele defende. É descabida, pois, a associação de Gramsci ao eurocomunismo, ou seja, o crescimento do partido de esquerda revolucionário a partir do seu avanço nas eleições e ocupação de instituições burguesas, justamente porque esse avanço não foi acompanhado de uma verdadeira reforma econômica, muito menos de uma reforma intelectual e moral.

A importância de Gramsci, ao nosso ver, nos dias que correm, em que a esquerda se encontra literalmente nas cordas, tanto por não ter logrado fazer a reforma econômica nos países em que ocupou o aparelho de estado, seja, na Europa ou na América Latina, como por não ter entendido o investimento da direita em uma autêntica “guerra cultural” justamente a partir da leitura de suas obras, trabalhando principalmente no reforço daquela visão de senso comum que Gramsci propunha a superação, utilizando-se para isso de um dos grandes centros de disputa ideológica, as redes sociais, pertencentes não por acaso, a um pequeno grupo de multibilionários. Só que, ao contrário de Gramsci, que partia da crítica do catolicismo hegemônico na sua época para defender a laicização completa de toda a vida, a extrema-direita parte de uma leitura enviesada de sua obra para defender o fim do laicismo e uma pauta de costumes conservadores, tendo como grande aliada as igrejas evangélicas neopentecostais.

Lógico que existem outros fatores responsáveis por essa crescente hegemonia da extrema-direita no campo político, mas entendo que uma boa leitura de Gramsci poderia contribuir para a esquerda, principalmente a brasileira, superar o seu reformismo de baixa intensidade e o abandono que fez do trabalho junto aos grupos subalternos, se propondo a superação do senso comum das massas e uma reforma intelectual e moral, sem a agressão e desqualificação de seus aspectos religiosos, especialmente da população ligada à igrejas evangélicas neopentecostais. Talvez o PL do estupro apresentado por deputados da extrema-direita no Congresso nacional tenha aberto uma porta para esse debate.

Nota
[01] – Gramsci, Antonio. Maquiavel, a política e o estado moderno. Ed. Civilização Brasileira, 5ª edição, 1984. pg. 9.

Antonio Gramsci (1891-1937)

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